Ricardo Juncos hoje é um conhecido chefe de equipe dos EUA, mais especificamente da Indy, do Road to Indy e do IMSA SportsCar. Dono da Juncos, o argentino nascido em Tigre, na Grande Buenos Aires, passou por bem mais do que uma mera adaptação de um país para o outro.

Hoje com 44 anos, Ricardo tem origens em uma família que respira corrida, desde o pai, que era piloto, passando por outros parentes que eram apaixonados por automobilismo. Foi assim, crescendo em meio a troféus, fotos, capacetes e carros, que Juncos deu seus primeiros passos e descobriu sua vocação.

Mas o início de trajetória não foi nada convencional para alguém que tinha um pai correndo até ter nascido. É claro que o hoje dono de equipe sempre gostou de guiar, sonhou ser piloto, mas sua vocação parecia mesmo ser outra. 

Não de graça, Ricardo tratou de estudar fundo a parte técnica, a engenharia de carros, desenhos dos motores. Na realidade, acabou tomando gosto por aquilo que antes era apenas um meio de assegurar uma vaguinha correndo em uma categoria nacional. 

“Queria ser piloto, então fiz muita coisa relacionada a escolinhas de automobilismo, trabalhando junto dos mecânicos. Com 17 anos, abri meu próprio negócio para arrumar carros de rua e isso foi crescendo em Buenos Aires, também na Argentina e fui botando dinheiro nas escolinhas de pilotos e buscando patrocinadores para poder correr. Em 1997, comecei na F-Renault na Argentina e corri três anos lá, depois fazendo mais dois anos de protótipos em 2000 e 2001, em um carro que nós fazíamos tudo, o chassi, motor, desenho dele, tudo era nosso. E naquele momento as coisas iam muito bem. Minha vida foi assim basicamente desde os meus 3, 4 anos de idade até quando fui embora de lá, em 2002", conta o dirigente em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM.

Só que a carreira de Ricardo como piloto teve prazo de validade e os negócios, que funcionavam tão bem por meia década, foram rapidamente para o ralo. De uma hora para a outra. 

Foi assim, com a famosa crise política e econômica que se intensificou na Argentina em 2001, que a jornada de Juncos tomou rumos completamente inesperados. Em nova função, com novo sonho, em novo continente, em outra realidade financeira.

"Nós perdemos tudo na Argentina com a Crise de 2001. Começamos vendendo tudo, as ferramentas, os carros, ficamos praticamente sem nada. Aí eu tinha um amigo que era eletricista em Miami, nada a ver com automobilismo, mas falei com ele e ele me disse para ir para lá, que tinha um sofá para eu dormir. Estava quase zerado, minha avó me emprestou $ 400, que era tudo que ela tinha e foi assim que peguei o avião, com $ 400, uma mochila e mais nada. Assim começou tudo”, explica.
(Ricardo Juncos (Foto: IndyCar))

Conexão Brasil-Argentina

 

A passagem gloriosa de Juncos nos EUA teve vários fatores, entre eles uma relação com o Brasil. Basicamente, em todas as fases de desenvolvimento que teve na terra do Tio Sam, algum brasileiro apareceu.

Batalhador e iluminado, o argentino já chegou na Flórida para atuar na equipe de kart de Christian Fittipaldi e dali para frente não parou mais. Foi sendo promovido, arrumando seu espaço e o orçamento até conseguir ter o próprio time de formação de pilotos.

“Por uma força do destino, minha relação com o Brasil teve um capítulo importante. Cheguei em Miami e virei mecânico em uma equipe de kart sem receber nada por duas semanas, fui praticamente um ajudante para o André Martins, que era sócio do Christian Fittipaldi. Conheci Fernando Paiva, que era o empresário do Christian e do Cristiano da Matta, ele conseguiu a entrevista com a equipe. Assim começou tudo lá nos EUA, minha carreira, então já sem ser piloto, tive de largar isso, não conhecia ninguém, não falava nada de inglês, não tinha dinheiro, já tinha 27 anos, era impossível. Meu sonho de piloto acabou, mas começou a outra etapa”, diz.

“Comecei de mecânico, virei chefe dos mecânicos e depois o chefe da equipe do Christian no kart. Em setembro de 2003, começou a Juncos Racing, em Miami, com apenas um piloto, um menino de 8 anos. Logo depois veio o Spencer Pigot, o meu segundo piloto na Juncos. E aí fomos crescendo: 2, 4, 8, até chegar a 40 e poucos pilotos, 19 títulos entre 2003 e 2008 e muitos regionais, nacionais, até conseguir vender o chassi Juncos na Inglaterra", completa sobre os primeiros passos do time.
(Juncos (Foto: IndyCar))

A relação com a pátria

 
É claro que a partir de setembro de 2003 as coisas foram realmente acontecendo na formação do que hoje é um projeto bastante consolidado, mas, apesar da prosperidade e do trabalho árduo, Ricardo nunca esqueceu de suas raízes. 
 
Além de manter contato sempre com familiares e amigos de infância, Juncos segue ligado no automobilismo da sua terra e procura pilotos para a equipe, como Agustín Canapino, no IMSA, e Nicolás Dapero, anos atrás na Pro Mazda e na Indy Lights.
 
"Minha relação com a Argentina e o automobilismo de lá sempre vai ser boa, tenho muitos amigos lá. Trouxemos o Agustín Canapino para correr as 24 Horas de Daytona, acompanho o Super TC2000, tento acompanhar a Stock Car Brasil também. É um automobilismo que funciona muito bem na Argentina, eles ganham dinheiro, conseguem patrocinadores, a Argentina tem um nível muito bom de pilotos e da parte técnica. Comparando com o Brasil, acho que não há tanto alcance para os argentinos no automobilismo internacional, mas o nacional é muito forte, funciona muito bem. É uma pena que nossos países enfrentem essas crises financeiras que parecem que não acabam nunca".
Ricardo Juncos segue vendo de perto o que acontece na Argentina (Ricardo Juncos (Foto: IndyCar))

O amigo e quase filho Franzoni

 
A relação de Ricardo com o Brasil recentemente ganhou um capítulo bastante especial, mas repleto de lutas e complicações. Conhecido de longa data, desde os tempos de kart, o jovem Victor Franzoni finalmente conseguiu chegar ao time em 2017, na Pro Mazda.
 
Acontece que Franzoni, assim como a Juncos, nunca teve uma condição financeira estável e sempre precisou batalhar muito para ficar no Road to Indy. Ao GRANDE PRÊMIO, por exemplo, o paulista chegou a revelar que precisava se desdobrar entre piloto e mecânico para bancar os custos do programa.
 
Mas as coisas finalmente se encaixaram em 2017, quando Jeff Green fez a ponte para a dupla. Green era um dos pilotos veteranos, já na casa dos 50 anos, que estavam no Road to Indy por hobby. O americano, então, praticamente adotou Victor e bancou o brasileiro na Juncos
Victor Franzoni e Ricardo Juncos seguem juntos (Victor Franzoni)
"Victor é um grande amigo. Conheço faz muito tempo, ele era mecânico da equipe que corria contra o meu filho. Sempre acompanhei ele na USF2000, correu contra a gente na Pro Mazda e aí conseguimos finalmente achar um jeito de correr juntos na Pro Mazda em 2017. Isso aconteceu por causa do Jeff Green, companheiro bem mais velho do Victor e alguém que eu conhecia muito, um cara que tinha o orçamento, ajudou muito o Victor e nos deu a chance de tentar vencer a Pro Mazda, a Indy Lights e colocar o Victor na Indy, era aquilo ou nada”, conta Juncos.

 

Ricardo, que trata Victor com muito carinho, relembra com dor do que foi 2018, logo após triunfar de forma dominante com Franzoni na Pro Mazda, quando a Juncos perdeu o segundo piloto às vésperas da temporada e, de quebra, viu a morte de Green em um acidente.

 

Obviamente, sem orçamento, sem poder testar, sem ter telemetria a comparar e até sem poder danificar o carro, Franzoni não foi campeão de uma Lights que tinha nomes como Pato O’Ward e Colton Herta. Para Juncos, o brasileiro andou bem, mesmo sem conquistar o título daquele que considera o ano mais forte recente da categoria.

 

 “Ficamos em uma situação delicada, não vencemos o campeonato, obviamente, mas o Victor é como se fosse um filho para mim. Sempre que posso eu ajudo ele, o acho muito talentoso e uma grande pessoa, o que é muito importante. Agora a gente segue tentando fazer coisas juntos, mas o automobilismo infelizmente é assim, muitos ótimos pilotos ficam pelo caminho por falta de recurso, talvez seja o caso dele, mas ele segue vivo, segue batalhando", completa sobre o brasileiro que esteve com o time no Canadá correndo de IMSA.
(Juncos IMSA)

A aventura Indy

 

Entre 2003 e 2017, muita água rolou e diversos campeonatos foram disputados pela equipe de origem argentina. Dos títulos no kart passando pela Star Mazda – hoje Pro 2000 – e pela Indy Lights, foram longos anos até que, finalmente, a chance chegou.

E chegou logo com dois carros, sem medo de ousar, fincando pé na categoria. Ricardo vê o desenvolvimento todo até chegar lá como natural e que a Juncos faz o possível para se manter ativa em uma categoria com custos elevados, mas que vale a pena.

"Meu objetivo na Indy é me estabelecer como equipe em tempo integral, ter sucesso como tivemos na Lights, na Pro 2000. Mas é muito difícil, é uma categoria com equipes poderosas, grandes pilotos, grandes orçamentos, então, mesmo que a gente consiga patrocínio, bom piloto, acho que podemos levar uns cinco anos até vencermos uma corrida. Mas acho que a Indy, em termos esportivos, está muito acima da F1, está no topo do mundo. O carro é um pouco mais pesado, mais lento, mas acho que enquanto espetáculo e esporte está bem acima e só tende a ganhar nos próximos anos e seguir evoluindo”, avalia.

“E nós estamos evoluindo também, vamos trabalhando nos sistemas internos e buscando assinar com um piloto bom para alcançarmos objetivos maiores. Mas é aquilo, né? Se acontecer, ótimo, se isso não acontecer, tudo bem. É o que sempre digo: perdi tudo na Argentina, nunca imaginei chegar onde cheguei, então, está tudo bem caso as coisas não saiam como imaginamos", completa

 

 

Da boa estreia na Indy 500 com dois top-20 com Sebastián Saavedra e o velho conhecido Pigot até hoje foram 15 provas disputadas no topo do automobilismo americano, mas a Juncos ainda não está no patamar que deseja e nem com os pilotos que quer.

 

E toda a situação piorou de forma considerável após tudo que aconteceu nas duas semanas das 500 Milhas de Indianápolis de 2019, mais precisamente, das duas vezes em que Kyle Kaiser estampou o carro no muro.

 

"Ainda não sabemos como vai ser nosso resto do ano na Indy. Batemos nosso melhor carro nos treinos livres da Indy 500, aí corremos com o segundo carro e o Kaiser bateu de novo. Então, temos praticamente um carro e meio destruído. Agora estamos em processo de recuperar o dinheiro do piloto, que é responsável pelos danos. Estamos recuperando o carro e também trabalhando com patrocinadores, mas é muito difícil para a gente ter um programa na Indy e ficar dependendo dos pilotos que têm dinheiro, afinal, normalmente os pilotos que levam dinheiro não são os melhores”, reconhece.

(Ricardo Juncos (Foto: IndyCar))

“Isso é um problema bem grave porque precisamos de resultados. Acho que temos uma boa equipe e um bom carro, mas precisamos de um piloto bom para colocar o carro na frente e ainda não temos. Sem patrocinador, sem piloto do mais alto nível, é uma situação muito difícil. Ano passado, fizemos 12 corridas com três pilotos: Kaiser, René Binder e Alfonso Celis Jr. Isso serviu bastante para entendermos coisas da categoria, foi bom para mim enquanto dono de equipe”, segue. 
 
As batidas de Kaiser comprometeram consideravelmente os planos do time para 2019 e, por mais que novas corridas não sejam descartadas, o olhar já está mais voltado para o futuro.
 
“Acho que mostramos muita coisa boa na Indy 500 desse ano, fomos muito rápidos com o carro branco, a gente estava acreditando que teria uma participação ainda melhor. Tecnicamente acho que estamos bem, mas precisamos de um piloto para poder demonstrar isso. Meu objetivo é seguir trabalhando duro nos patrocinadores, conseguimos alguns ótimos parceiros na Indy 500 depois da batida, agora estamos tentando mais uma corrida ou duas esse ano, mas, principalmente, focados no ano que vem", arremata.
A inesquecível Indy 500 2019

 

Em meio a tantas dificuldades, uma inesperada e com dimensões gigantescas que, no final, se transformou em conto de fadas. Ninguém no grid da Indy teve uma história mais bonita e dramática que a da Juncos em 2019.

 

Em poucos dias, a pequena equipe perdeu patrocinador e, de quebra, ainda viu o carro ser destruído em um acidente de Kaiser. Muita gente duvidou até que o time pudesse participar da classificação e, consequentemente da corrida, mas não internamente, de jeito nenhum, por mais impactante que tenham sido os seguidos golpes sofridos.

 

"A gente sabia que estaria na corrida mesmo sem patrocínio. Já tínhamos acordo com a Firestone, com a Chevrolet, não dava mais para voltar atrás, a multa que a gente tomaria seria quase igual ao que faltava para fazer a corrida. O que aconteceu é que tínhamos um acordo antigo com uma empresa inglesa para a Indy 500 e por isso o carro era branco, mas foi chegando perto da corrida e não vinha a confirmação, até que eles entraram em contato e disseram que não poderiam estar conosco. E ainda o pai do Kaiser não estava bem financeiramente”, explica.
(Kyle Kaiser)

“Aí foi um momento de choque total, sabíamos que estávamos em uma situação difícil, tiramos o carro da pista, mas também não poderíamos desistir da prova. Acontece que o carro estava muito bom desde a primeira ida para a pista. A gente melhorou o carro que classificamos em 17º ano passado, estava muito bom mesmo. Só que tudo isso com o Kaiser, era o pai dele que bancava batidas, essas coisas, a gente não tinha como cobrir. Então, se os patrocinadores não aparecessem, eles teriam de bancar a corrida”, segue.
 
“Bom, aí, com o carro voando como estava, dei uma entrevista ao Marshall Pruett [da revista RACER] e aquilo mudou tudo, foi uma chuva de ligações de empresas interessadas. Foi a primeira vez que eles nos procuraram e não o contrário. E, quando a gente bateu o carro, aumentou o número de empresas procurando, querendo fazer parte da história. Foram 15 patrocinadores no carro na corrida, conseguimos ajudar o pai do Kaiser naquilo e, principalmente, construir uma relação com as marcas para o futuro", completa.
 

A motivação durante a tormenta

 
"Sempre tento transmitir para eles a minha paixão por isso, eles também sabem da minha história pessoal, do que passei, do que a Juncos passou até chegar aqui. Eles sentem como se fosse com eles. Aí, quando se tem 18 ou 20 pessoas apaixonadas por isso e se unindo como se fosse um time de futebol, você fica forte, eles estavam até mais positivos do que eu mesmo. A equipe nunca parou, ninguém pensou que ficaríamos de fora, seguimos trabalhando. Aí, quando conseguimos a classificação, foi um momento único”.
 
É assim que Juncos resume como foram os dias entre perda de patrocínio, batida de Kaiser e a milagrosa classificação do americano por 0s013 em cima de ninguém menos que Fernando Alonso e a McLaren no Bump Day. Afinal, além de todos os problemas para arrumar o carro e arcar com os custos, ainda tinha o importante fator motivacional para quem estava sonhando em aparecer na maior corrida do mundo.
 
“Ficamos em último no primeiro dia, mas sabíamos o motivo daquilo, o problema é que não tínhamos tempo e estávamos fisicamente mortos, faltava energia para seguir. Acho que a nossa decisão de não fazer o treino livre de manhã foi chave, ganhamos os minutos extras para seguir arrumando o carro e aí buscamos os milésimos que nos colocaram na corrida e, não bastasse isso, ainda tiramos a McLaren e o Alonso, o que explodiu ainda mais no mundo todo", cita o argentino.
 
A equipe de futebol Juncos (Juncos (Foto: IndyCar))

O milagre da remontagem do carro

 

A chegada surpresa de vários patrocinadores e a motivação da equipe não seriam suficientes se faltasse um outro fator: uma eficiência inacreditável na hora de remontar um bólido que fosse competitivo a ponto de deixar outros três pilotos de fora no Bump Day.

"A gente tinha dois carros completos montados em dezembro. Em Austin, Kaiser correu com o carro de mistos, só que depois de lá a gente desmontou o carro todo, praticamente tiramos tudo e guardamos para servir de reposição para a Indy 500. Aí, quando o Kaiser bate o carro branco, fica praticamente destruído, uns 80% perdidos. Pegamos o chassi pelado do outro carro e precisamos remontar tudo, hoje eu acho que foi um erro nosso ter tirado tudo do carro”, reconhece.

“Só que também tinham componentes diferentes de um carro para o outro e trocamos algumas peças, mas outras não tinham como, não havia tempo, então a gente sabia que o segundo carro não seria rápido como o primeiro, além disso ainda pegamos a pista na pior hora, o Pigot classificou com 22ºC e a gente com 33ºC, estava muito calor, a performance caiu e ainda estávamos com o radiador errado, o motor muito quente. Quando fomos classificar, já sabíamos que teríamos 70 cavalos a menos, talvez sem esse problema a gente até entrasse de cara na corrida, em 28º, 30º, não muito rápido, mas acho que dava. Só que fomos bem lentos e precisamos do segundo dia, aquele sofrimento todo, mas deu certo, o carro estava lá e aconteceu o milagre", completa

Do drama à consagração

 
Seguindo a cronologia da verdadeira saga que a Juncos viveu na Indy 500 de 2019, chegamos ao segundo dia de classificação, o domingo do Bump Day. E, como Ricardo lembrou, a equipe sequer fez o treino livre da manhã, o que parecia um problema, mas, lá na frente, se revelou uma tremenda sacada.
 
Quando Kaiser concluiu o quarto giro e somou 2min38s331, inacreditáveis 0s013 abaixo da marca de Alonso, o IMS veio abaixo. Uma vibração intensa como se fosse um gol e muita, muita emoção por parte do pessoal da Juncos. O grande momento da carreira de Ricardo e, certamente, de muita gente que estava ali envolvida.
 
"Acho que a volta da classificação do Kaiser, quando nos garantimos, foi, sim, o maior momento da minha carreira. Tivemos vários momentos, tudo que você possa imaginar, mas esse foi muito impressionante. Foi estranho, mesmo os americanos que estavam na arquibancada estavam gritando e torcendo pela gente, depois disso foi até difícil andar, todo mundo queria abraçar, cumprimentar, tirar foto, algo que nunca tinha acontecido com a gente, até porque somos de outro país, temos muitos fãs latinos, mas foi diferente na Indy 500”, conta.
 
“Acho que a história toda, a equipe menor, o carro branco, o carro batido, o nosso esforço dia e noite trabalhando e todo mundo vendo aquilo, empolgado para ver se daria certo, foi uma loucura. Ali que eu tomei consciência do tamanho do nosso feito e nem sabia ainda que o Alonso tinha sido eliminado. Aí, quando vimos isso, ficou tudo ainda maior. A McLaren foi para lá para ganhar a corrida, não só para participar. Queriam a Tríplice Coroa do Alonso, não era como a gente, os menores, mas que tinham a torcida naquele momento. A força do público foi muito importante, foi tudo muito especial ali", relembra.
A festa da Juncos no Bump Day (Juncos (Foto: IndyCar))
As duas grandes paixões nacionais

 

 

Em meio à avalanche de patrocinadores que foram se juntando ao carro depois do milagre da reconstrução e da classificação de Kaiser, um deles chamou a atenção por ser completamente inusitado: o River Plate, enorme clube argentino, colocou o escudo da equipe em partes como o bico do carro #32, tendo um destaque no estilo Chelsea na Sauber de 2012. Mas de onde veio aquilo? Bom, o dirigente e torcedor dos Millonarios explica que a relação vai bem além de um patrocínio pontual.

 

"A ideia de fazer uma parceria com o River Plate veio de um contrato que tenho com eles além das pistas. Meu filho joga no River desde os 13 anos, tenho muitos contatos no clube e o River já queria expandir para os EUA. Aí veio a ideia de fazer centros de treinamentos, academia de jogadores aqui nos EUA e conseguimos firmar contrato. Estamos cuidando dessa parte, essa transição deles para cá, é bom para os dois lados, o River vai conseguir entrar em um mercado importante, um futebol que está crescendo”, explica Juncos.

 

“Aí veio a Indy 500 e conversamos para que o escudo estivesse no carro, é bom que o americano vai conhecendo o time, que é bem famoso na Argentina, Brasil, México, mas não aqui, que se fala mais em clubes europeus. E acho que o impacto na Argentina foi muito bom também, foi algo inédito, nenhum outro clube de lá tinha sido estampado em uma corrida tão importante. Juntamos as duas grandes paixões do argentino: futebol e corridas. E em nada menos que na maior corrida do mundo, foi uma grande estratégia e hoje eles continuam conosco no nosso carro no SportsCar com o mesmo objetivo, de seguir promovendo o River Plate pelos EUA".
(Juncos (Foto: IndyCar))

 

Um batalhador apaixonado

O patrocínio costurado com o River, mais do que isso, a parceria com o clube do coração para a criação de um projeto todo nos EUA mostra bem o perfil de Ricardo Juncos. 2019 pode não ter sido como sonhou, como planejou, mas foi o ano em que a Juncos entrou no coração do fã de automobilismo, afinal, a batida de Kaiser na Indy 500 foi minúscula perto da história gigantesca de superação.

Para fechar a entrevista, o GRANDE PREMIUM achou melhor que o próprio Ricardo se definisse como é hoje e como sempre foi. O homem dos $ 400, da mochila e de um sonho gigantesco é um ótimo homem de negócios e de muita visão, mas, acima de tudo, apaixonado e agradecido por tudo aquilo que faz.

"Sou um cara muito intenso, não paro nunca, minha cabeça está sempre a 2000 km/h. Sou um apaixonado por corrida, por carro de corrida, pela máquina, mas também como piloto, pela arte de guiar um carro. Isso me fascina. Sempre agradeço muito por poder fazer o que gosto, poder ganhar dinheiro fazendo o que amo, acho isso muito raro hoje em dia, preciso agradecer mesmo. Sou um cara normal, nada me mudou, sou o mesmo de quando morava na Argentina, tenho os mesmos amigos de infância, simplesmente estamos em um país diferente, aproveitando a oportunidade que existe aqui. Sou um maluco, trabalho muito, não paro nunca mesmo. Acho que Ricardo Juncos é mais ou menos assim".

(Ricardo Juncos)