Quando se fala em trilhar o caminho nos principais campeonatos de automobilismo, a Europa e os Estados Unidos surgem como as principais opções para aqueles que querem disputar roda a roda contra os melhores pilotos do mundo. No Velho Continente, a Fórmula 1, o Mundial de Endurance e a Fórmula E surgem como os grandes atrativos, enquanto, na terra do Tio Sam, as opções também são vastas, com Indy, IMSA SportsCar e NASCAR. Miguel Costa — que acabou de completar a primeira temporada com a RPM na FREC — no entanto, optou por mesclar as duas opções durante a formação nas categorias de base.

Filho de pais brasileiros e nascido em Miami, na Flórida, Miguel tinha a opção de trilhar o caminho no automobilismo americano sem ter de lidar com a dor de mudar de país e adaptar-se a uma nova cultura para dar início à trajetória na Europa. Porém, permanecer na zona de conforto nunca esteve no radar e, além de buscar uma competição de nível técnico consideravelmente maior, para conquistar o sonho de chegar à F1 também era necessário fazer a mudança para o outro continente.

Miguel Costa deixou os EUA para correr na Europa (Foto: Reprodução)

Mas, antes de adentrar na carreira de Miguel, é preciso explicar como começou o contato com o automobilismo. Diversos fatores podem despertar o interesse de uma criança pelo esporte a motor: seja assistindo às corridas na TV e desenvolvendo admiração por algum piloto, ou nas brincadeiras com carrinhos no dia a dia. No caso de Costa, o interesse surgiu pela primeira opção e o piloto era o próprio pai, Raul — que, inclusive, é um dos maiores apoiadores e está sempre ao lado do filho nas corridas atualmente.

“Meu pai fazia algumas corridas em Homestead, perto de onde a gente morava. Ele andava muito de kart. E quando eu tinha uns três anos ele me colocou para andar. Dali eu amei a sensação e praticamente todo fim de semana a gente ia treinar em Opa-locka, uma pista bem perto da nossa casa. Depois disso a frequência de treino foi aumentando e com sete anos fiz minha primeira corrida”, explicou Costa ao GRANDE PREMIUM.

Após a primeira corrida, Miguel passou a andar com mais frequência. Foi então que Raul, que também participava de campeonatos nos Estados Unidos e havia disputado o Florida Winter Tour em algumas oportunidades, decidiu abandonar a competição para dar todo o suporte necessário ao filho, que já mostrava um bom potencial.

O potencial foi tanto que demorou apenas dois anos para Miguel se aventurar na Europa. Logo de cara, depois de ter sido aconselhado pelo pai a ser cauteloso, visto que o nível da disputa era mais alto, se deparou com Andrea Kimi Antonelli, atual líder do Mundial de Pilotos da F1, e Martinius Stenshorne, que disputa a F2 pela Rodin, no grid.

Miguel Costa não demorou a enfrentar Andrea Kimi Antonelli nos tempos de kart (Foto: Reprodução)

“Meu pai disse que provavelmente eu não chegaria à final, pois só se classificavam os 36 primeiros. Eu ainda disse: ‘está maluco, né? Estou ganhando várias corridas nos EUA’”, lembrou. “Consegui uma boa classificação, mas entrei na final como último carro da categoria, então foi uma experiência muito diferente ao me deparar com um nível tão alto”, continuou.

Mas Miguel seguiu firme e passou cerca de dois anos viajando dos EUA para a Europa para participar das corridas. As diversas viagens e a necessidade de se adaptar constantemente aos diferentes fusos tornaram a experiência cansativa e, por isso, mudou-se para Mônaco para ficar mais perto das competições de kart de que participava na Itália. Porém, a chegada a um novo país, com uma língua totalmente diferente, trouxe alguns desafios. Ainda que a presença dos pais tornasse a adaptação mais tranquila, fazer amizades no colégio foi difícil no começo.

“Quando tinha entre 11 e 12 anos e entrei na escola nova foi muito diferente. Não conhecia ninguém e todos falavam francês. Além disso, eu também tinha de aprender italiano, que praticamente todo mundo fala aqui, então é uma cultura muito diferente. Os primeiros seis meses foram muito difíceis, porque todo mundo já se conhecia desde pequeno. Também não tinha muito tempo para me aproximar durante os fins de semana, porque estava ocupado com as corridas”, explicou Costa.

Esse, no entanto, foi mais um desafio que ficou para trás e, com o tempo, além de conseguir manejar melhor o tempo para se aproximar dos colegas de sala quando não precisava competir, Miguel também consegue ficar em dia com a matéria quando perde muitos dias de aula. Parte disso se deve ao programa de atletas da escola, que dá o apoio necessário, repõe o conteúdo e permite a realização das provas perdidas durante o período.

Nikola Tsolov, hoje rival de Rafael Câmara na F2, também dividiu o grid com Miguel Costa (Foto: Reprodução)

Enquanto dava sequência à carreira no kart, Costa voltou a dividir o grid com Antonelli e também correu contra Nikola Tsolov. Além disso, se aproximou de outros pilotos que hoje estão na caminhada da F1, como é o caso do brasileiro Pedro Clerot, Rafael Câmara e Alex Powell. Arvid Lindblad, que estreou na F1 pela Racing Bulls em 2026, também foi um dos nomes com quem conversava com frequência.

Foi mais ou menos nessa época, em 2020, que a participação na Academia de Pilotos da Sauber marcou um novo ponto na carreira. A parceria durou pouco mais de três anos e, além de provar que sabia lidar com a pressão, foi nesse período que aprimorou a parte técnica, com a leitura de telemetria e análises de onboard, que ajudaram em seu desenvolvimento como piloto.

A transição para os monopostos

O primeiro contato com os monopostos aconteceu em 2025, quando realizou testes com modelos de Fórmula 4 e notou logo de cara que teria de adequar o estilo de pilotagem para se tornar competitivo na nova classe.

“Tomei cerca de 2s na primeira sessão e já estava pensando que eu era ruim e não servia para ser piloto. Mas não é assim que funciona e é preciso muito treino para se adaptar, porque é um esporte completamente diferente. O estilo da guiada muda totalmente quando comparado ao kart e é preciso usar o freio de uma maneira completamente diferente”, explicou.

“Um grande erro foi não fazer testes suficientes, porque entrei para a primeira corrida com a Campos depois de uns 20 dias de testes. Os outros pilotos haviam feito 60, 70 dias, ou até mais, então o início foi muito difícil, mas consegui me recuperar ao longo dos campeonatos”, lembrou Costa.

Miguel Costa fez parte da Academia de Pilotos da Sauber (Foto: Reprodução)

“Mas também é muito importante aprender a trabalhar com o engenheiro para comunicar como você quer configurar o carro. No começo era difícil explicar o que precisava ser melhorado e o que eu gostaria de ter no carro, mas com os dias aprendi a dar um feedback mais claro e entender como cada mudança impacta na pilotagem”, continuou.

No primeiro campeonato de monopostos, Miguel disputou a F4 espanhola, na qual terminou em 14º, depois de reagir a partir da primeira corrida realizada em Ricardo Tormo, que recebeu a penúltima rodada da temporada, e passou a terminar nos pontos com maior frequência.

Em 2026, foi ao pódio logo na segunda corrida da Fórmula Regional do Oriente Médio, em Yas Marina, e fechou a temporada em 16º. Além disso, disputou a FREC e concluiu em 23º, com 12 pontos. Em ambas as ocasiões, defendeu a RPM.

Costa ainda não definiu qual será o próximo passo da carreira em 2027. Em conversa com o GRANDE PRÊMIO, revelou que realizou alguns testes após o fim da FREC. Uma das possibilidades, no entanto, é disputar novamente a FREC para buscar um bom resultado e abrir caminho para ter um carro competitivo na F3 em 2028.

A relação com o Brasil e a torcida

Embora nunca tenha morado no Brasil, Costa mantém uma conexão com o país e tem uma relação próxima com o torcedor local. O laço permanece, principalmente, por causa dos avós e tios, que ainda moram em São Paulo.

“Praticamente a minha família inteira mora no Brasil. Quando visito eles, quase todos os anos, passo cerca de duas ou três semanas, faço isso desde que tenho três anos de idade, então é muito legal”, disse. “Meus avós também sempre acompanham onde quer que eu esteja correndo e sempre me ligam depois das corridas. Quando estou na pista, eles são muito mais calmos do que meus pais”, brincou.

Miguel Costa correu pela RPM em 2026 (Foto: ACI Sport)

“O público também impacta minha carreira de forma muito positiva. Eles assistem às corridas, mesmo que para isso tenham de acordar cedo”, continuou Miguel.

A ligação com o país também está na admiração por Gabriel Bortoleto. Por serem quase da mesma geração, Costa usa a trajetória do piloto da Audi como inspiração para também alcançar a principal categoria do automobilismo.

“Bortoleto é uma grande inspiração para mim. Ele trabalhou muito duro e admiro a garra dele. Ele melhorou muito como piloto e, em partes, teve uma carreira parecida com a minha. Depois de ter algumas dificuldades na F4 e na FRECA, passou a vencer corridas quando chegou à F3 e F2. Então admiro muito ele e quero ter a mesma garra para trabalhar duro como ele”, contou. “Mas, entre os pilotos mais antigos, também admirei muito Sebastian Vettel. Não só por quão rápido ele era, mas pela forma como era gentil com os mecânicos e todos na equipe. Acho isso muito importante”, seguiu.

“Mas não posso deixar de fora os meus pais, a quem agradeço muito por todo o suporte na minha carreira. A minha família é quem me ajuda em todos os aspectos da minha vida, seja no crescimento como pessoa ou como piloto”, finalizou.