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Uma vez mais, é preciso falar da FIA e de alguns de seus critérios. No caso, da polêmica que envolveu a volta da pole no treino classificatório do GP da Hungria. Ela nunca poderia ter valido.
É uma questão que precisa ir além da visão simplória de que “o carro de Alonso já havia sido removido, não houve risco”. Isso é ser engenheiro de obra pronta.
Há dois anos, a sequência de 20 anos sem mortes na F1 chegou ao fim justamente porque, de acordo com a FIA, um piloto desrespeitou bandeiras amarelas duplas e saiu da pista.
A versão resumida do relatório de 396 páginas, divulgada no início de dezembro de 2014, foi bastante clara: “Bianchi não reduziu o bastante para evitar perder o controle no mesmo ponto da pista que Sutil”.
Já escrevi antes: eu acredito que seja verdade. Bianchi teve sua parcela de culpa. Só que, para mim, isso não pode apagar o fato de que o safety-car deveria ter sido acionado, o que o relatório nega.
Ainda assim, a FIA criou o safety-car virtual e o introduziu no ano passado. O objetivo primordial deste procedimento é tirar da mão dos pilotos o controle sobre o quão rápido se anda durante a corrida em uma situação de perigo, quando são exigidas as entradas de fiscais ou guinchos na pista para a remoção de carros.
O que a FIA faz quando não descarta a melhor volta de Rosberg no treino classificatório? Devolve esse controle aos pilotos.

A FiA deveria ter sido mais rigorosa com Rosberg (Nico Rosberg (Foto: Getty Images))
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Não foi a primeira vez que isso ocorreu neste ano. Na Áustria, Nico Hülkenberg foi ainda mais sutil que seu compatriota ao só levantar o pé em um trecho de reta. Investigado, acabou absolvido.
Rosberg deu uma tirada de pé pequena entre duas curvas de baixa velocidade. 20 km/h, segundo ele, o que “é outro mundo em um carro de F1”. Na curva, sua velocidade foi a mesma, o que ele justificou por ter acelerado mais cedo por estar mais lento.
“Então eu definitivamente reduzi a minha velocidade e para os comissários foi algo completamente aceitável. Ficou muito óbvio o que eu fiz e, em uma pista que estava secando, você vai ficar muito mais rápido a cada volta. Não é que a pista estava consistente. Neste caso, é irrelevante qual foi o tempo da parcial, pois você vai ficar muito mais rápido toda vez que entrar na pista”, defendeu-se.
É verdade que o carro de Alonso não estava mais na curva seguinte e, por isso, não houve uma situação de risco. Mas como Nico poderia saber disso de dentro do seu carro? E se houvesse alguém dentro da pista? O caso seria julgado pelas consequências, e não a partir da ação.
Sou obrigado a concordar com os outros pilotos que falaram sobre o assunto. “Os comissários precisam apresentar uma solução”, disse Lewis Hamilton. “Nos 23 anos em que eu estou correndo, sempre foi ‘se tem bandeira amarela, reduza a velocidade’, e se é uma bandeira amarela dupla, esteja pronto para parar o carro, e o Nico contornou a curva na mesma velocidade da volta anterior. Se tivesse um carro rodado ou um fiscal dentro da pista, teria sido difícil parar.”
Sebastian Vettel afirmou que a “F1 deu um mau exemplo” ao não punir Rosberg. E a seguir vem as previsões do que rolará no futuro — que não chegam a ser catastróficas, pelo contrário: são bem realistas.

“Na próxima corrida, a gente pode estar brigando pela pole, ver duas bandeiras amarelas sendo agitadas e sabemos que só precisamos levantar um pouco o pé e perder um décimo que vai estar tudo bem, e dá para fazer a melhor parcial do treino. É por isso que precisam esclarecer, e tenho certeza que o Charlie [Whiting] e os comissários vão fazê-lo”, falou Hamilton.
“A pior coisa sobre isso é que nós somos um exemplo”, declarou Vettel. “Na próxima semana, haverá uma corrida de kart em algum lugar e haverá uma bandeira amarela porque alguém escapou, e os fiscais vão sair para ajudar. As crianças vão pensar: ‘Eu não preciso tirar muito o pé, porque nem na F1 isso acontece’. É isso que eu não gosto. Tivemos longas discussões sobre isso antes e ficou claro que com bandeira amarela, não poderíamos melhorar o tempo. Agora podemos. Não sou fã de ficar punindo tudo, mas não estamos dando um bom exemplo.”
É a mais pura verdade. A F1 abriu um precedente para si própria e para o resto do esporte a motor no planeta. Está errado.
E se é para deixar tudo na mão dos pilotos, é melhor rever o relatório do acidente de Bianchi e admitir que o trator de mais de 6 toneladas não poderia estar na pista sem o acionamento do safety-car. Afinal de contas, os pilotos só precisam reduzir o quanto acham que devem, e o resto se conversa depois.
Atualização: para não deixar passar batido, a FIA confirmou que a partir do GP da Alemanha, situações como a do GP da Hungria provocarão a paralização da sessão com bandeira vermelha. Ou seja, Rosberg não estava certo, o que só mostra as inconsistências nas decisões dos comissários, assunto tratado há duas semanas.
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Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.