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Você já se perguntou porque gosta da F1? Um questionamento que pode parecer simples, mas para o qual há uma infinidade de respostas diferentes.

Como assim?

Os carros; os pilotos; os acidentes, o perigo, a agressividade; a velocidade; a busca por novas tecnologias; o glamour e o dinheiro; a politicagem (sim, tem gente que gosta); as corridas em si; e por aí vai.

Com Daniel Ricciardo puxando a fila, o GP da Espanha recomeçou após o acidente de Hamilton e Rosberg para ser a melhor corrida de 2016 (A relargada em Barcelona com as duas Red Bull e a Toro Rosso à frente de Sebastian Vettel (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio))

O público da F1 não é homogêneo, pelo contrário. Essa é uma das razões para as tantas críticas que são feitas à categoria: boa parte delas parte de gente que gosta do esporte, mas que preferiria que ele fosse diferente. Isso catalisa a má impressão que chega ao público ocasional.

Em parte, é possível dizer que a queda do interesse geral pelo esporte se dá pela redução daquela reverência ao carro que existia no meio do século passado. Para muitos, o carro hoje “é um vilão”. Por não haver mais essa mesma relação entre as pessoas — e os jovens — é mais difícil renovar o público. Devo concordar.

Mas, aí, falando por mim: não sei bulhufas do que acontece no mercado automotivo. Não acompanho lançamentos de carro, não sei dos valores, das tendências de cada marca. E desde pequeno tenho o automobilismo como esporte favorito. Gosto de ver corridas; dos pilotos, das equipes e das histórias. Até que ponto o esporte está ligado à cultura do carro?

Há muito rondando o ambiente da F1, mas tudo o que acontece por fora tem de ser deixado de lado por duas horas no domingo, entre a largada e a festa do pódio. É a hora do espetáculo, do que realmente interessa. Para que isso aconteça, as corridas precisam ser boas, e é o que temos visto em 2016.

As hegemonias dos últimos anos têm contribuído para o crescimento das críticas à F1 (No GP da Austrália, Lewis Hamilton e Nico Rosberg formaram dobradinha na Mercedes pela 24ª vez (Foto: Getty Images))

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Está claro que o público na F1 não gosta de ver longas hegemonias, e quando a categoria estava “se recuperando” da ‘Era Schumacher’, veio Sebastian Vettel, e, agora, a Mercedes. Os últimos dois anos, especialmente, foram de um baque enorme. A corrida começava com todo mundo sabendo que só um desastre para tirar a vitória de Lewis Hamilton ou Nico Rosberg. Eles ganharam 36 dos últimos 43 GPs.

Dentro disso, a expectativa que se criou para 2016 não era grande coisa. Veríamos mais da Mercedes na frente e provavelmente outro passeio de Hamilton rumo ao título.

Passadas cinco corridas, o que se desenha é um campeonato muito mais interessante. Rosberg venceu quatro corridas, mas, em duas delas, a Ferrari conseguiu acompanhar seu ritmo ao longo da prova. No GP da Austrália, Vettel poderia muito bem ter vencido, não fosse a bandeira vermelha que mudou o rumo da prova. Na China, o alemão sobrou, mas a corrida atrás dele foi ótima. O GP da Rússia foi meia boca, OK, mas aí veio o GP da Espanha, que foi excelente e nos brindou com o recorde de Max Verstappen, no alto do pódio aos 18 anos.

Temos: Rosberg em primeiro sem ninguém saber até quando vai aguentar, e um Hamilton disposto a buscá-lo para brigar por mais um título; essa história impressionante de Verstappen, com a ousada decisão tomada pela Red Bull ao rebaixar Kvyat; a Ferrari pressionada pelo presidente para conseguir vitórias; um surpreendente Kimi Räikkönen na vice-liderança do campeonato; o bom início da Haas e a McLaren Honda finalmente mostrando progressos. E boas corridas.

Max Verstappen é uma das boas histórias da F1 em 2016 (Max Verstappen faz a festa com o champagne no pódio (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio))

O que devemos tirar disso?

Em primeiro lugar, sentar, aproveitar e curtir. É o melhor momento da história da F1? Claro que não. Mas está valendo a pena assistir a F1 2016.

Em segundo lugar, esse momento melhor dentro da pista deveria servir para que os dirigentes tivessem mais calma para definir as mudanças para o futuro. Não gosto das mudanças que estão sendo propostas para o próximo ano e não acho que a F1 precisa de uma revolução: apenas precisa de mais equilíbrio, técnico e financeiro. Se houver outra mudança radical nas regras, é bem possível que uma equipe consiga surgir dominando como a Mercedes fez em 2014. Ainda neste tópico, os V6 turbo decepcionaram no começo, mas a evolução está notável. A pole-position no GP do Bahrein foi a mais rápida da história.

O equilíbrio, diga-se, nos propiciou uma das melhores corridas dos últimos tempos. Com as duas Mercedes fora, quatro pilotos brigaram pela vitória até as últimas voltas, na base de estratégias diferentes e sem fazer ultrapassagens! As manobras fizeram falta? Obviamente não. O que importa é a qualidade, não a quantidade. Uma corrida como a do último fim de semana tem de dar esperanças tanto para os mais quanto para os menos críticos do momento.

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Terceiro: não foram necessárias artificialidades como a inversão do grid, que vem sendo defendida por Bernie Ecclestone. A F1 pode parecer complexa com os tipos diferentes de pneus e outras peculiaridades, mas ela continua bela por sua simplicidade: é chegar na frente. Não é punir o melhor para equilibrar o jogo, é permitir que os melhores briguem em condições de igualdade. Nossa empolgação com o que aconteceu foi genuína.

Por mais que a categoria não esteja em seus dias de glória, ela continua sendo a maior e a melhor do automobilismo, e é o que contribui para as tantas críticas. Tem gente que não acompanha o futebol, mas assiste a Copa do Mundo porque sabe que ali estão os melhores; o mesmo vale para as Olimpíadas, o Super Bowl ou as finais da NBA. A F1 ainda tem os melhores do esporte a motor, atrás do volante ou comandando as equipes nos boxes.

Se você ainda não deu uma chance para a F1 em 2016, dê. Não é a melhor F1 que já vimos, mas é o que tem pra hoje. O mais importante: não está ruim.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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