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O bom começo de Nico Rosberg em 2016 faz a F1 acreditar de novo nele. Mais parecido com o piloto que foi em 2013 e 2014 do que com o de 2015, o alemão venceu as três primeiras corridas do campeonato e tem 36 pontos de vantagem para o tricampeão — e talvez ainda favorito — Lewis Hamilton.

De qualquer maneira, a possibilidade de Nico ser campeão ao final de 2016 é real. E não vai ser por acaso.

Mas, afinal, quem na F1 foi “campeão por acaso”? Obviamente que só de chegar à F1 e brigar por um título, o cara não é fraco. Estamos falando dos melhores pilotos do mundo. Ainda assim, nem todos tinham potencial para brigarem por títulos em suas gerações. Alguns viram a chance cair no colo.

A festa da Williams na vitória que pôs Keke Rosberg na liderança da F1 em 1982 (Keke Rosberg vencendo em Dijon-Prenois (Foto: Williams F1))

James Hunt na corrida de seu único título na F1 (James Hunt na corrida do seu único título na F1 (Foto: Forix))

James Hunt, por exemplo. Um pilotaço, não podemos falar que não é. Talentoso, rápido, arrojado. Contudo, capaz que jamais tivesse se tornado campeão sem que Emerson Fittipaldi largasse a McLaren pela Copersucar no meio do inverno, e, principalmente, sem que Niki Lauda batesse no GP da Alemanha em Nürburgring. E não se esqueçam que o austríaco abriu mão da corrida decisiva, em Fuji, disputada debaixo de um temporal. Hunt jamais terminou outro campeonato dentro do top-3.

Ou, talvez o mais célebre dos casos, Keke Rosberg. Coincidentemente, o pai do atual líder do Mundial. A Williams tinha sido campeã com Alan Jones em 1980 e disputado até o fim com Carlos Reutemann em 1981, mas não tinha mais um grande carro em 1982. A Ferrari possuía o conjunto mais forte, e a Renault era dona do carro mais rápido, tendo feito dez poles, mas sua máquina era muito pouco confiável nas corridas.

A Brabham de Nelson vivia um ano de transição para os motores turbo da BMW, e a McLaren estava sendo reconstruída sob os olhares atentos de Ron Dennis — mas ainda contando com os Ford Cosworth, a exemplo da Williams.

Fora isso, foi um ano muito conturbado. Começou com a greve de pilotos na África do Sul, e depois ainda houve o boicote dos times ingleses ao GP de San Marino. Antes, claro, do que mais marcou o ano: os graves acidentes que os dois titulares da Ferrari sofreram. Primeiro, Gilles Villeneuve, que morreu nos treinos na Bélgica. Depois, Didier Pironi, que sofreu múltiplas fraturas nas duas pernas em um treino não cronometrado em Hockenheim.

Àquela altura, o francês, que já tinha garantido a pole-position para o GP da Alemanha, era o líder do campeonato com 39 pontos, nove a mais que John Watson, o rival mais próximo. Rosberg era só o quinto, atrás ainda de Prost e Lauda, e com 16 pontos de desvantagem em relação a Pironi — a vitória valia nove.

Vendo a chance de entrar para a história, Rosberg emendou uma boa sequência de resultados nas corridas finais. Foi terceiro na Alemanha, segundo na Áustria e ganhou em Dijon-Prenois. A duas etapas do fim, ele era o líder do campeonato, algo muito improvável de acontecer não fosse a ausência de Pironi. E essa vitória no GP da Suíça foi a única de Keke e da Williams em 1982, contra quatro da McLaren e da Renault, três da Ferrari e duas da Brabham.

Rosberg venceu apenas uma corrida em 1985 e um total de cinco na carreira (Keke Rosberg venceu só uma corrida em 1982, e um total de cinco na carreira (Foto: Williams F1))

Outro que por pouco não foi um “campeão por acaso” foi Eddie Irvine, em 1999. O norte-irlandês venceu quatro provas na carreira, todas em 1999, mas só teve a chance de desafiar Mika Häkkinen até a última corrida porque Michael Schumacher quebrou a perna em Silverstone e perdeu seis etapas.

Entenderam aonde quero chegar com esse termo "campeão por acaso"? Adiante, pois.

Nico Rosberg está se encaminhando para ser um campeão com todos os méritos. E aí é a outro grupo que ele pertencerá. Vai se juntar a gente como Damon Hill, Jacques Villeneuve, Jody Scheckter, Alan Jones e Jenson Button. O grupo do qual Felipe Massa faria parte, não fosse a patinada de Timo Glock na Junção.

Em comum, o fato de que esses pilotos passaram alguns anos figurando entre os melhores da F1. E, nos anos de suas conquistas, foram consistentes do início ao fim, sempre pintando como postulantes.

É justamente esse o caso de Nico. Só ele e Hamilton venceram corridas em cada uma das últimas cinco temporadas. Em 2014, o alemão liderou mais da metade da temporada. E agora está em uma sequência de seis vitórias consecutivas, algo que apenas campeões conseguiram.

Rosberg tem mais vitórias na F1 do que 17 campeões mundiais (Nico Rosberg (Foto: Getty Images))

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Já são 17 vitórias no currículo, um recorde entre aqueles que nunca foram campeões. O que também não quer dizer que ele nunca será. Prost e Hill conquistaram seus títulos na 21ª vitória de suas carreiras. Nigel Mansell já tinha subido ao alto do pódio 29 vezes quando enfim se consagrou em 1992.

Rosberg pode não ser o melhor piloto da geração, mas também não é o pior. Não é o de apresentações mais vistosas, o showman que seu pai foi — o que o faz ser muito exaltado até hoje —, porém é consistente e capaz de desafiar dentro da Mercedes um tricampeão. Ele é melhor do que muita gente pensa. E é melhor do que seu pai foi na F1.

Querem mais um número? Rosberg está correndo com cinco campeões mundiais no grid: além de Hamilton, Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Jenson Button e Kimi Räikkönen. Apenas um piloto ganhou o primeiro título da carreira enfrentando tantos campeões: Jochen Rindt, em 1970.

Se for campeão, Rosberg poderá não fazer parte do grupo dos melhores campeões, mas será um campeão digno. Tem muito campeonato pela frente. Aliás, são mais corridas ainda a serem disputadas em 2016 do que em 56 dos 66 campeonatos da história. Só que já podemos olhar o germânico de forma diferente.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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