Era para a Ferrari ter vencido. Essa é uma frase que certamente não se esperava que fosse usada para resumir a primeira corrida da temporada 2016 da F1. Sebastian Vettel ou Kimi Räikkönen, um dos dois, tinha tudo para subir ao degrau mais alto do pódio não fosse a bandeira vermelha provocada pelo acidente de Fernando Alonso com Esteban Gutiérrez.
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Nos últimos dois anos, a Mercedes só se complicou quando perdeu a vantagem da posição de pista. Foi exatamente o que aconteceu na largada do GP da Austrália. Lewis Hamilton bobeou e Vettel foi genial pulando de terceiro para primeiro. Para piorar, Kimi também passou pelas duas Flechas de Prata.

A largada de Vettel na Austrália foi perfeita (A largada do GP da Austrália de 2016 (Foto: Getty Images))
Uma largada tão boa que Rosberg se rendeu. “Eu larguei bem, mas ele largou bem demais. Estava decidido a não deixá-lo passar, brequei dentro na curva 1 e travei as rodas, mas ele brecou ainda mais dentro do que eu.”
A corrida seguiu com duas estratégias diferentes se desenhando: Nico Rosberg foi chamado aos boxes uma volta antes de Vettel para tentar o chamado ‘undercut’, ou o pulo do gato, para usar um termo na nossa língua. Quase deu certo. Quando a Ferrari trocou os pneus do então líder da prova, Rosberg por pouco não recuperou a posição perdida na largada.
À frente deles, Kimi liderava provisoriamente com larga vantagem para Hamilton, que perdera tempo passando Felipe Massa e principalmente Max Verstappen.
Na 16ª volta, Vettel ultrapassou Hamilton na pista. Ali, ficou claro: a Ferrari tinha vantagem sobre ambas as estratégias desenhadas pela Mercedes. Só um safety-car fora de hora para comprometer — foi o que este escriba inclusive postou no Twitter na hora.
Favoritem: só um safety-car para tirar a corrida da Ferrari. Vettel já está à frente do Hamilton de novo. Ou dá Vettel, ou Kimi. #F1 #F1noGP
— Coutinho (@renandocouto) 20 de março de 2016
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Boca maldita. Mas era a verdade. O desenho da corrida lembrava e muito o GP da Malásia de 2015. Kimi e Hamilton haviam acabado de fazer suas paradas e devolveram a frente para Vettel e Rosberg quando Alonso encheu a traseira de Gutiérrez e provocou não só o safety-car, mas uma bandeira vermelha.
“Dios mio” #F1 #F1noGP pic.twitter.com/8d7FvWFwe2
— Coutinho (@renandocouto) 20 de março de 2016
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A questão da bandeira vermelha: todo mundo podia trocar os pneus.
A questão dentro da questão: Jock Clear, novo estrategista da Ferrari, não sabia quanto os pneus médios durariam. A equipe não tinha andado o bastante com eles para saber, e não quis arriscar. A opção foi apostar no ritmo com os supermacios. A Mercedes achou que tinha o bastante para usar os médios e colocou seus dois pilotos com eles.
Seria possível chegar ao final? Provavelmente. Em 2015, o stint mais longo com os pneus médios na corrida foi de Sergio Pérez, da Force India, 37 voltas. Os que optaram por colocá-los precisariam dar 39 voltas — também estavam inclusos na lista Felipe Massa, Romain Grosjean e Nico Hülkenberg, para citar o top-10.
“Depois de 20 voltas, estava pensando que de jeito nenhum os pneus iam durar até o final”, admitiu Hamilton. Mas, depois de 30 voltas, ele achou tempo e passou a dar suas melhores voltas na corrida. Mais tarde, um erro deixou Vettel colar. “O carro estava escorregando demais até o fim”, segundo Hamilton. Sorte dele que o alemão errou a três voltas da bandeirada e permitiu a dobradinha. Para Rosberg, foi a quarta vitória consecutiva e a 15ª da carreira, superando ninguém menos que Graham Hill, Emerson Fittipaldi e Jack Brabham — seis títulos mundiais.
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Em 2011, muita gente reclamava do domínio de Vettel, mas eu via de outra forma. Sim, sabíamos que ele ia ganhar, mas as corridas naquele ano foram interessantíssimas. Eram divertidas de se assistir. Acabou que o GP da Austrália de 2016 foi excelente — nota 8,5 —, embora tenha terminado com o resultado de sempre: duas Mercedes nas duas primeiras posições e Vettel em terceiro. O temor de todos neste momento continua sendo que essa ordem se repita diversas vezes ao longo do ano, como foi em 2015. Se é para ser assim, que pelo menos as corridas sejam como a deste domingo. Será menos dolorido.
Vamos, portanto, ao objetivo principal deste post: as notas! Será assim aqui na coluna ‘Por Fora dos Boxes’, toda terça-feira pós-GP de F1: um breve resumo de como vi a corrida e a avaliação do desempenho dos pilotos no fim de semana. No final do ano, teremos uma média indicando os melhores e os piores da temporada.
E aí, quem foi o melhor desta primeira etapa?

1 — Nico Rosberg (Mercedes) — 8,0
Pois é. Rosberg venceu, mas vinha sendo dominado por Hamilton ao longo do fim de semana. Depois da bandeira vermelha, porém, seu ritmo foi excelente. Mesmo com pneus médios contra os supermacios de Vettel, não deixou o ferrarista abrir mais de 4s. Fez o que precisava para vencer.

2 — Lewis Hamilton (Mercedes) — 7,0
A pole foi impressionante, com grande vantagem sobre Rosberg. Só que a largada custou muito caro e, depois, ele ainda ficou preso atrás da Toro Rosso de Verstappen. Diante das circunstâncias, ficou feliz com o segundo lugar, mas, no fundo, não foi uma de suas melhores apresentações.
3 — Sebastian Vettel (Ferrari) — 8,5
A largada foi espetacular e, mesmo sem ter um carro no mesmo nível das Mercedes, ia conseguindo abrir e ditar o ritmo nas voltas iniciais. A corrida tinha tudo para ser dele até a bandeira vermelha mudar tudo — e a Ferrari se complicar na estratégia. O pecado foi o erro no final, que custou a chance de terminar em segundo lugar.

4 — Daniel Ricciardo (Red Bull) — 8,0
Os momentos em que Ricciardo mais chamou a atenção foram as duas ultrapassagens sobre Felipe Massa, mas sua corrida rendeu um resultado melhor do que o esperado da Red Bull. Conseguiu cuidar bem dos pneus e fazer o time terminar em um quarto lugar que parecia difícil pelo desenho inicial da prova.
5 — Felipe Massa (Williams) — 7,0
A Williams não empolgou na Austrália como nos últimos dois anos. Nem Massa, nem Bottas tiveram momentos de destaque. De qualquer forma, o cuidado com os pneus após a relargada garantiu um até que tranquilo quinto lugar em uma prova em que a Williams foi a quarta força.
6 — Romain Grosjean (Haas) — 8,5
Que estreia para a Haas na F1. Romain Grosjean foi ótimo. Chegou em sexto sem fazer nenhum pit-stop! Ele trocou para os pneus médios na bandeira vermelha e se segurou até o final, sem dar brecha para Nico Hülkenberg ultrapassá-lo. Uma das estrelas do dia. Isso, com uma equipe construída do zero — a primeira a conseguir debutar nos pontos desde a Toyota em 2002.

7 — Nico Hülkenberg (Force India) — 6,5
Hülk, Hülk…? Bem discreta a atuação da Force India. Tudo bem que a estratégia de uma parada ficou prejudicada pela bandeira vermelha, mas Nico ficou preso o tempo todo atrás de Grosjean dali em diante — pelo menos conquistou pontos que podem ser importantes para a equipe no futuro.
8 — Valtteri Bottas (Williams) — 6,0
O finlandês ganhou algumas posições em relação à precoce eliminação no treino classificatório, mas sem muito destaque ao longo da prova — exceto por uma belíssima ultrapassagem por fora e sem DRS sobre a Renault de Jolyon Palmer.
9 — Carlos Sainz (Toro Rosso) — 6,5
Sainz estava bem posicionado após a relargada, mas quando fez seu segundo pit-stop da prova, voltou no tráfego e perdeu tempo. Não deu conta de ultrapassar Bottas e viu comprometida a estratégia. A Toro Rosso esboçou ser a terceira força da prova, mas não foi capaz de marcar um grande resultado.
10 — Max Verstappen (Toro Rosso) — 7,0
Começou muito bem, terminou muito mal. O ritmo de Max na quarta posição nas voltas iniciais era ótimo. Mas depois que foi prejudicado por ser chamado para os boxes uma volta depois de Sainz, meio que perdeu a mão. Reclamou bastante pelo rádio e errou no fim, rodando e perdendo a chance de dar o troco no companheiro.
11 — Jolyon Palmer (Renault) — 6,0
Foi uma estreia relativamente consistente de Palmer na F1. Sem uma dose de sorte ou alguns abandonos a mais, a Renault não vai conseguir pontuar mesmo. Mas o britânico largou e chegou à frente de Kevin Magnussen, que é tido como um bom piloto. Bom desempenho na comparação com o colega.
12 — Kevin Magnussen (Renault) — 5,5
Sem muito a dizer, na verdade. Sua corrida ficou comprometida pelo furo de pneu na primeira volta, mas, como já dito, acabou ficando atrás de Palmer na classificação e na corrida.
13 — Sergio Pérez (Force India) — 5,0
Outro que teve atuação apagada. Largou em nono e perdeu duas posições, e parou nos boxes pouco antes da bandeira vermelha, perdendo outras duas posições desta forma. Não se recuperou depois, preso que ficou atrás de um Button que tinha pneus mais macios após a relargada.
14 — Jenson Button (McLaren) — 5,0
Atrás de Alonso na classificação, nada demais na corrida. Só que o simples fato de ter ficado em 12º no grid com uma McLaren da qual não se espera muito é para animar um pouco o inglês, levando em conta o que foi 2015. E ele ainda fez a 8ª melhor volta da corrida, atrás só das Mercedes, das Ferrari, das Toro Rosso e de Ricciardo.
15 — Felipe Nasr (Sauber) — 4,0
Alguém viu Nasr na corrida? O brasileiro mal apareceu. Ok, não teve carro para tal. A Sauber foi bem mal na Austrália, nada demais. O ponto negativo é que ele esteve atrás de Ericsson o tempo todo — na classificação e na corrida, até o sueco ser punido por um erro da Sauber.
16 — Pascal Wehrlein (Manor) — 5,0
O estreante alemão apareceu em 13º nas voltas iniciais. Sabendo que em Melbourne é normal chegar pouca gente ao final, até pode ter sonhado com um pontinho. Mas depois a realidade veio à tona e ele terminou em último.
17 — Marcus Ericsson (Sauber) — 4,5
Nada muito diferente do que foi dito sobre Felipe Nasr. Abandonou com um problema mecânico.
18 — Kimi Räikkönen (Ferrari) — 7,0
Fez uma boa classificação e vinha em uma boa corrida até o motor quebrar. Não fosse pela bandeira vermelha, sua chance de pódio era boa. Tinha uma vantagem grande sobre Hamilton.
19 — Rio Haryanto (Manor) — 3,0
O indonésio conseguiu perder posições no grid de largada com uma punição antes mesmo de fazer sua primeira classificação na F1! Na corrida, abandonou precocemente.
20 — Esteban Gutiérrez (Haas) — 4,0
Se nem Alonso o culpou pelo acidente, não sou eu que vou culpar. Gutiérrez não teve nenhum momento de destaque, mas estava em 12º quando saiu da corrida por causa do choque com Alonso.
21 — Fernando Alonso (McLaren) — 5,0
Podia ter ido mais longe na corrida. Fiquei curioso para saber quanto, se poderia beliscar alguns pontinhos. Provavelmente não, mas a 11ª posição no grid, essa sim chamou a atenção.
22 — Daniil Kvyat (Red Bull) — 3,0
Caiu ainda no Q1 da classificação, só à frente dos pilotos da Haas e da Manor, e sequer largou. Não dá para falar muito do fim de semana do russo. O negócio é concentrar no GP do Bahrein…

Essa eu já tinha antecipado no texto. Foi um GP ótimo, e teria sido ainda mais interessante não fosse pela bandeira vermelha. De qualquer forma, essa mesma bandeira vermelha será um dos motivos pelos quais lembraremos da abertura deste campeonato por anos e anos, provavelmente mais que a disputa pela vitória ou o brilhantismo de Grosjean com a Haas — afinal de contas, que baita panca do Alonso com o Gutiérrez.
(O acidente de Alonso com Gutiérrez mudou a corrida (Foto: Getty Images))
Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.