Quando surge uma polêmica como essa que a ‘Folha de S.Paulo’ trouxe a público no começo da semana, natural que se procure pelas vezes em que Cacá Bueno foi punido injustamente. Mas a questão vai bem além disso, e é por isso que é imensurável o impacto que as atitudes dos comissários tiveram na Stock Car nos últimos anos.
O problema é o que não aconteceu.
É natural a frustração de Cacá com o conteúdo das conversas de WhatsApp que vazaram há cinco dias. O sentimento de que fora prejudicado em outras ocasiões já existia nele há tempos. Contudo, se ele foi capaz de ganhar cinco vezes sem fazer nada, por que vai falar que outros foram favorecidos? É ser mau perdedor. Isso tudo é diferente desde a última segunda-feira.
“O que era suspeita, hoje é uma certeza. Me tiraram dois títulos. Esse é o meu sentimento hoje, eles confessaram isso. Está escrito. Eu estou interpretando uma conversa deles”, o pentacampeão falou em entrevista a este GRANDE PREMIUM.
Ele também não deve ter gostado nem um pouco de ler um comunicado da CBA que diz que nenhuma punição por razões técnicas foi aplicada desde 2009. Está errado, e ele sentiu isso na pele. Em 2012, na etapa de Jacarepaguá, Cacá, Daniel Serra e Valdeno Brito foram desclassificados do treino classificatório e tiveram de largar na última posição. Além do caso de Campo Grande, em 2011, quando os sensores de velocidade nos boxes falharam justamente com ele…
Mas pensemos nas vezes em que Cacá foi punido por perseguição. Uma, duas, três? Sinceramente, isso é o de menos.
O problema está em todas as vezes em que uma punição deixou de ser aplicada a um adversário para prejudicar Cacá. Ou Thiago Camilo, outro piloto que é citado nas conversas de WhatsApp. Thiago e Cacá são “os mais chatos”.
No caso específico do Cacá, o Bruno Vicaria fez o levantamento: foram 12 punições ao longo da carreira na Stock Car, entre penalizações técnicas e desportivas.
Como acreditar que ninguém fez vista grossa para eventuais infrações técnicas cometidas por outros pilotos e equipes para prejudicar os “chatos”?

A CBA destacou em seu comunicado na segunda-feira que “os regulamentos técnicos das categorias são objetivos, não se prestando, em regra, a interpretações divergentes”, e que “auxiliares e comissários técnicos não têm o poder de desclassificar ou de tirar pontos de qualquer piloto”, tendo como função elaborar um “relatório técnico, emprestando conformidade ou desconformidade ao veículo de competição diante do regulamento técnico da categoria”. Esse relatório é encaminhado aos comissários desportivos, estes, sim, com o poder de aplicar sanções.
Acontece que, na maioria dos casos, em qualquer categoria, os comissários desportivos agem de acordo com a instrução dos comissários técnicos. Afinal, se é uma ciência exata, se o regulamento é objetivo, é preto no branco. Desta forma, se os comissários desportivos não punissem as infrações encontradas pelos técnicos, eles estariam descumprindo o regulamento. Não é correto pensar assim?
E, ok, as inspeções do carro #0 podiam ser acompanhadas por membros da equipe e pelo próprio piloto, se ele assim desejar. Então consideremos que Cacá realmente foi punido com justiça em todas essas ocasiões.
Com a revelação destas conversas, qual a garantia de que irregularidades em outros carros foram inspecionadas com o mesmo rigor? Como acreditar que ninguém fez vista grossa para eventuais infrações técnicas cometidas por outros pilotos e equipes para prejudicar os “chatos”?
Não é preciso ir longe. Átila Abreu é outro piloto que costuma falar bastante. No ano passado, foi punido em Curitiba por estar sem a luz de freio. Dias depois, compilou uma série de imagens que mostrava outros pilotos com o mesmo problema em outras etapas, a maior parte deles escapando de punições.
Até que ponto punições deixaram de ser dadas por falta de capacidade das autoridades da CBA e até que ponto por segundas intenções? O que foi erro e o que foi agir como se nada tivesse acontecido?
Fora que os regulamentos da CBA são, do início ao fim, recheados de erros de português — ortografia e gramática. Mal escritos de forma que deixam muitas brechas, muitos espaços para duplas, triplas, quádruplas interpretações.
Portanto, o argumento de que os comissários não têm o poder de influenciar os resultados não é válido. Eu, pelo menos, não acredito.
(Cacá Bueno (Foto: Bruno Terena/Red Bull Content Pool))
A conversa vazou porque alguém quis expor a situação. Alguém de dentro quer que a coisa mude.
As perseguições ainda podem se estender por outros caminhos. Em uma das mensagens, trocadas após a etapa de Ribeirão Preto do ano passado, foi sugerido que, na etapa seguinte, os “chatos” fossem submetidos ao teste de saída do piloto. E não é que mandaram o Camilo entrar e sair do carro várias vezes, pela porta e pelo teto? Claro que um piloto deve ter a ciência de que precisa ser passar pelo teste, porém esse tipo de coisa é um exemplo claro de como é possível irritar, provocar, “encher o saco” de um piloto.
Mas vamos lá. Não dá para personificar o problema na pessoa de dois ou três comissários. No momento em que se suspeita de atos cometidos há mais de dez anos e atos cometidos há não mais do que cinco, é porque há algo enraizado. Algo que vai além de um problema pessoal entre dois indivíduos.
Obviamente, não são todos os comissários que compactuam com tais atitudes. A conversa vazou porque alguém quis expor a situação. Alguém de dentro quer que a coisa mude.

Camilo e Cacá estão otimistas de que este escândalo vai ser um divisor de águas. Para que isso aconteça, a CBA tem que ser colocada na parede, e não adianta haver pressão apenas da imprensa. A pressão precisa sair de dentro da categoria.
De mais ‘Assanges’ e ‘Snowdens’ dentro da CBA. Das pessoas sérias que se sentem prejudicadas. Dos pilotos, que querem ter a certeza de que estão correndo em um campeonato idôneo. Que não sabem se podem confiar nos juízes, naqueles que deveriam zelar pela aplicação da lei e, principalmente, pela segurança. E, por quê não?, da Vicar. A empresa que é dona da categoria tem seu campeonato prestes a começar e o assunto da semana não é a Corrida de Duplas e os convidados que foram trazidos para completar o grid, mas, sim, um escândalo que, a princípio, explodiu por algo que não é de sua alçada.
Que me desculpem as pessoas de bem que estão lá, mas a CBA não é uma entidade que passa confiança. Tanto que uma das frases inesquecíveis que ouvi dentro do Autódromo de Interlagos foi “estou com essa camisa, mas não sou ladrão!”.
“Isso afetou minha imagem como piloto de forma absurda”, lamentou Cacá. “Afetou meus resultados, minhas premiações, meus contratos futuros por ter menos títulos e menos vitórias. Me causou um prejuízo financeiro e de imagem incalculável.”
Incalculável mesmo. O que dá para saber é que foi muito, mas muito maior do que o “bando de imbecis”.
Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.