SÃO PAULO (decidido) – Não, não vou acabar com o blog. Nem congelar a página, nem desaparecer e morar numa cabana no meio do mato ou num casebre numa vila de pescadores. Deveria, mas não vou. O blog fez 20 anos semana passada, dia 5, e só de pensar em escrever uma espécie de obituário […]
2005: primeiro livro publicado e, meses depois, estreia do blog
SÃO PAULO(decidido) – Não, não vou acabar com o blog. Nem congelar a página, nem desaparecer e morar numa cabana no meio do mato ou num casebre numa vila de pescadores. Deveria, mas não vou. O blog fez 20 anos semana passada, dia 5, e só de pensar em escrever uma espécie de obituário fui tomado por uma preguiça infinita.
Mais fácil continuar com ele.
Vale a pena dar uma olhada no primeiro post do blog. Teve 40 comentários. Quem eram essas pessoas? Onde elas estão? Do que falávamos, naquela época? Blog era quase uma rede social. Eu usava este espaço para notinhas curtas, breves, escrevia o dia inteiro. Tudo mudou no mundo digital nos últimos 20 anos. Mas podem crer: fizemos muita coisa legal aqui. Não seria justa uma morte silenciosa e melancólica.
E não só pela preguiça, claro. No fundo, gosto da ideia de manter no ar algo que ninguém mais faz. É como cuidar de um carro antigo. Não será usado com frequência diária, mas tampouco será esquecido.
Pretendia levar meus textos quase diários para o Substack. É uma plataforma de newsletters que está sendo usada por jornalistas e escritores no mundo inteiro para que possam continuar escrevendo com remuneração. Só que em vez de sermos pagos por empresas — jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, portais de internet –, quem paga é quem lê. O usuário, aquele que acha justo gastar uma merreca para que seu autor preferido siga escrevendo, expondo sua visão de mundo, trabalhando. No caso da minha newsletter, esse preço é a fortuna de R$ 13 mensais. Com muitas vantagens: a relação com a plataforma não é ditada por algoritmos, e o leitor recebe um e-mail sempre que alguma coisa é publicada. Se quiser, abre e lê. Se não quiser, não lê. Mas não há uma bigtech te dizendo o que deve fazer.
É uma pena que uma parcela ínfima, quase insignificante, dos meus “seguidores” — e coloco aspas porque não sei definir direito esta nova categoria de consumidores de informação — não tenha a generosidade de pagar pelo que entrego. São 66,5 mil no Instagram, 53,8 mil no YouTube, 3,7 mil no WhatsApp, 174,6 mil no Twitter e 26 mil no Facebook. Na newsletter, mesmo, 6,1 mil assinantes entre os que pagam e os gratuitos, que recebem apenas fragmentos dos textos, alguns parágrafos, na esperança de que um dia se interessem e façam uma assinatura paga. No total, 330,7 mil pessoas, perfis, arrobas, sei lá o que são. Destes, 602 assinam a newsletter em algum plano pago. Minha taxa de engajamento é de 0,18%. Isso mesmo que vocês leram: 0,18% desses cinco Maracanãs que me seguem acham que mereço ser remunerado pelos textos, vídeos e áudios que produzo diariamente; 99,82% não se importam.
É deprimente, claro.
Mas não estou aqui chorando as pitangas. As coisas são como são. Estou cada vez mais distante dessas redes sociais infames e tóxicas e pretendo voltar a ser o mais analógico possível. Vou escrever um novo livro neste fim de ano e espero conseguir vender alguns exemplares. Blog não é analógico, assim como newsletter. Mas opera numa área que domino e sei que faço bem, a escrita. É o que seguirei fazendo. Talvez, em algum momento, alguns entre esses 99,82% indiferentes se cansem de ver vídeos no TikTok ou de rolar as telas de seus celulares o dia inteiro. Talvez, um dia, se deparem com algum texto meu e tenham a sensação de que valeu a pena perder algum tempo com algo tão exótico quanto… a leitura. Quem sabe.
Decidi manter esta página no ar quase como um ato de rebeldia contra essa pobreza do mundo digital, dos vídeos feitos por IA, do interminável festival de baboseiras que, atualmente, ocupa boa parte do dia das pessoas hipnotizadas pelo nada absoluto. Vou resistir, sim. Vou continuar cometendo minhas crônicas sobre Fórmula 1 e outros assuntos. Mais sobre Fórmula 1, provavelmente. No Substack, não pretendo inundar meus leitores pagantes com noticiário do universo das corridas. Pretendo oferecer a eles (vocês?) textos sobre outros assuntos. Quando muito, enviarei lembretes aos assinantes sobre o que está sendo publicado aqui.
Decidi fazer isso, também, porque o Substack não é um blog. É outra coisa, é newsletter. Sendo assim, não acho justo com os assinantes “macular” um espaço quase sagrado de, vá lá, literatura — ou jornalismo literário — com as coisas profanas da F-1, que não interessam a todos.
Sem obituário, pois. Seguimos. Embora seja grande, enorme, a decepção com a indiferença das pessoas hoje em apoiar aqueles que admiram ou seguem, e de quem exigem “conteúdo” 24 horas por dia.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.