
SÃO PAULO (que doideira) – Buemi, finalmente. O suíço ganhou o título da Fórmula E hoje em Londres do jeito mais esquisito de todos: numa corrida-solo contra o relógio, ao fazer a melhor volta da prova. Mas não porque estava num ritmo alucinante e tudo mais. Porque foi o que restou a ele. Assim como a Di Grassi. Os dois decidiram o campeonato nos dois pontos da volta mais rápida, item previsto no regulamento da categoria. E isso graças a um acidente inacreditável na primeira volta da segunda corrida londrina no fim de semana, que tirou ambos da luta por qualquer posição que pudesse valer pontos.
Inacreditável porque não deu para entender a batida de Lucas na traseira de Buemi — um abandono duplo daria o título ao brasileiro por ter um terceiro lugar a mais do que o helvético. Não é do feitio do piloto da Audi-Abt fazer coisas que não o deixem dormir em paz. E foi logo na largada.
[bannergoogle]O feioso narigudo da Renault pulou na frente, mantendo a pole. Prost, seu companheiro e segundo no grid, foi na escolta e Di Grassi, terceiro na partida, em terceiro ficou. Tudo normal. Mas na primeira freada forte, Lucas jogou o carro para a direita, tirou de Prost e acertou em cheio a traseira de Buemi. Foi muito doido. Mas foi, sobretudo, um erro primário do brasileiro.
Ainda não ouvi as declarações pós-corrida de cabeça fria. No rádio, Lucas falou que Buemi freou muito cedo. Mesmo que isso tenha acontecido, quem vem atrás precisa tomar cuidado e contar com freadas antecipadas de quem está na frente, que estabelece o ritmo de corrida que quiser. É é normalíssimo frear um pouco mais cedo na primeira volta porque freios estão frios, pneus idem, não faz sentido brecar no deus-me-livre.
Portanto, olhando apenas o que aconteceu e sem saber de detalhes — sei lá se Lucas ficou sem freio, mas creio que não –, a responsabilidade pela batida é dele. O piloto nega e fala que Buemi brecou 50 metros antes do que devia. Sigo com minha opinião. O suíço freia onde quer, desde que não esteja fazendo um “brake-test” de sacanagem, e evidentemente não era nisso que estava pensando na primeira volta de uma corrida decisiva, sabendo que podia perder o título ali.
Sorte de ambos, e para a decisão do campeonato, que os dois levaram seus carros arrebentados para os boxes, pegaram os carros novos e partiram para a decisão via volta mais rápida — já que não teriam bateria para ir até o final.
Lucas fez a dele primeiro. Mas Buemi devolveu depois com duas voltas muito boas, entrando e saindo das garagens ao comando da equipe, que o soltava na pista quando o caminho estivesse livre. O mesmo fazia a Audi com Lucas. Briga de gato e rato.
Mas, com um carro melhor, para Buemi era apenas questão de acertar uma volta perto da perfeição — imaginem a tensão — para sacramentar a conquista, que no fim das contas, embora pouco usual, foi justa. Sébastien levou uma pancada do destino na primeira temporada da F-E ao perder o título para Nelsinho na última etapa, e outra há alguns dias em Le Mans — fazia parte da tripulação da Toyota que perdeu as 24 Horas a três minutos do final.
Por isso chorou tanto ao sair do carro. Até que enfim os ventos sopraram para seu lado.
A F-E volta em outubro com muitas novidades no calendário de seu terceiro campeonato. China, Malásia, Uruguai e Rússia deixam a categoria para a chegada de Montreal, Bruxelas, Nova York e Marrakech. Mônaco volta, Paris fica, Londres será em outro lugar. Várias mudanças e encerramento na “Big Apple” com rodada dupla — assim como no Canadá. Tem também um evento em Las Vegas, uma “corrida virtual” com pilotos e fãs em simuladores. Vai ser legal. Por enquanto, duas temporadas emocionantes e interessantes. Que continue assim.
Quanto a Lucas, pode-se dizer que perdeu o título por conta da corrida de Berlim, em que a Audi não deu ordem para Abt deixá-lo assumir o segundo lugar. Lucas não reclamou e disse que preferia assim — nada de ordem de equipe. Curioso é que Abt disse que não se importaria.
No fim, foi o que decidiu o campeonato. Mas é claro que alguém há de lembrar da desclassificação no México, por erro do time. E, na primeira temporada, outra desclassificação em Berlim — também bobeada do time. Lucas poderia hoje, se essas duas vitórias fossem confirmadas, estar comemorando o bicampeonato. Me parece ser o melhor piloto da Fórmula E — seus resultados são muito expressivos.
Mas é assim que são as corridas. Tem de partir para a próxima. Não há outro caminho.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.