
SÃO PAULO (mas acontece) – O problema de se fazer uma corrida de rua numa cidade inviável como São Paulo é esse. Qualquer probleminha vira uma merda do tamanho do mundo.
OK, choveu. Mas não choveu tanto assim. Forte, mesmo, uns 20 minutos. Meia hora, talvez. Eu estava lá com meus dois moleques, no camarote da Prefeitura, a convite de um amigo que trabalha com o prefeito. Fui embora às 14h30 com chuva bem fraca, sabendo que daquele mato não sairia mais nenhum cachorro.
Eram mais de 17h quando resolveram suspender tudo. Ou seja: mais de duas horas de chuva fraca não foram suficientes para que a pista, alagada, “desalagasse”. Existe “desalagar”? OK, vamos mudar: mais de duas horas não foram suficientes para que a água escoasse, para que as poças sumissem.
E por quê? Porque a pista fica em São Paulo, foi construída sob os mais rígidos conceitos paulistanos de engenharia. Conceitos que fazem com que cinco minutos de chuva sejam suficientes para alagar tudo, para formar enormes poças, entupir bueiros e acabar com a paciência de quem vive aqui. A água, no asfalto paulistano, simplesmente não escoa. Não escoa porque as avenidas são mal construídas, o que explica as poças no meio de seu leito de rodagem. Porque é cascata que o asfalto é igual ao de Interlagos, que seca rapidinho. Porque é cascata que as obras de drenagem que o prefeito diz ter feito existam de verdade. O prefeito, há meses, só pensa no partido que fundou, não na cidade que afundou.
São Paulo, em resumo, não é lugar para corrida de rua. Não enquanto for uma cidade tão vulnerável a qualquer desarranjo meteorológico, a qualquer caminhão tombado, a qualquer manifestação de massa.
Mas a corrida existe desde o ano passado — foi boa, inclusive, embora tudo tenha sido feito às pressas, meio nas coxas —, deve ter dado dinheiro para alguns, e não se pode negar que todos os envolvidos se esforçam para que as coisas deem certo. Só que é tudo muito no fio da navalha. Em 2010, todos lembram do ridículo que foi o piso pintado no Sambódromo, que faziam os carros sambarem. A chuva também atrapalhou, mas no fim das contas deu para fazer a prova. Porém, é um risco grande demais ficar torcendo para que nada de errado aconteça. Está provado que chuva, nesta cidade, tem os efeitos de um tornado nos EUA ou de um tsunami no Japão. Assim, é preciso pensar na chuva. E não é fazendo festinha de revista de celebridades que os organizadores vão conseguir realizar uma corrida de verdade.
Esse é outro grave problema da Indy em São Paulo. É um evento promovido por um grupo de comunicação, a Bandeirantes, que assim como os demais sócios na organização o trata como um acontecimento social, não como um evento de um esporte de risco. Todo o esforço que deveria ser empreendido no sentido de viabilizá-lo tecnicamente é desperdiçado com futilidades — como levar um inacreditável cantor adolescente para interpretar o Hino Nacional como se estivesse numa arena de rodeio no interior de Goiás; me disseram que é bem famoso e que seu cachê para rebolar e ser vaiado pelo pessoal na arquibancada não deve ter sido barato.
Na TV e nas emissoras de rádio da Bandeirantes não há críticas, a corrida é uma festa, um evento impecável que “para São Paulo”, “importantíssimo para a cidade” e tal. Uma tremenda xaropada. O papel de imprensa, que deveria ser primordial numa empresa de comunicação, é trocado pelo de promotor. E aí é um festival de boçalidades no ar que irrita qualquer monge.
Amanhã, a corrida que para São Paulo vai parar mesmo, porque a solução encontrada foi realizá-la às 9h de uma segunda-feira, dia útil. Isso se não chover.
Ainda bem que pelo menos a direção de prova fez o que tinha de fazer. Como a pista não secava e a água continuava a empoçar mesmo sob chuva fraca, seria um perigo absurdo colocar aqueles carros para andar entre muros sem aderência e visibilidade nenhuma, num asfalto ondulado e escorregadio.
Tomara que não chova amanhã e que tudo corra bem, apesar de todo o mal que o evento vai fazer à rotina da cidade — que não deve ser muito pior que uma jamanta enguiçada na Marginal, algo que acontece todos os dias. A meteorologia não é muito otimista. Diz que chove o dia todo.
De qualquer forma, acontecendo ou não a corrida de nome quilométrico, as lições de 2010 e 2011 não podem ser esquecidas. A chuva de ontem esteve longe de ser um desastre natural. Não deveria ter inviabilizado a prova. Se isso aconteceu, é porque a pista tem alguma coisa de errado. Havia um bom público no Anhembi. Gente que ficou bem chateada com o que aconteceu.
Sim, acontece. Mas não deveria. Talvez quando os promotores perceberem que corrida de carros vai muito além dos camarotes VIPs e das banalidades que contaminam o Brasil, essa etapa paulistana da Indy passe a ser levada a sério.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.