SÃO PAULO (até o próximo) – Eu costumava chegar bem cedo a Interlagos em GPs do Brasil na época em que trabalhava em rádio. Entrávamos no ar às 7h e só encerrávamos as transmissões perto das 16h, porque era a hora em que começava o futebol. Depois tratava de mandar meus textos para os jornais […]
Publicado em 03/11/2024 às 18:37
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Interlagos, 6 da manhã: o começo de um dia inesquecível
SÃO PAULO(até o próximo) – Eu costumava chegar bem cedo a Interlagos em GPs do Brasil na época em que trabalhava em rádio. Entrávamos no ar às 7h e só encerrávamos as transmissões perto das 16h, porque era a hora em que começava o futebol. Depois tratava de mandar meus textos para os jornais que recebiam minha cobertura. Costumava sair da sala de imprensa bem tarde, para chegar em casa e desmaiar de cansaço.
Foi-se essa época, porém. O horário de largada da corrida foi mudando ao longo dos anos, e hoje voltei um pouco no tempo quando meu despertador tocou às 4h30, o dia longe de amanhecer. Foi por necessidade. A classificação de ontem foi cancelada, marcaram para as 7h30 de hoje, era preciso sair cedo para não correr o risco de chegar atrasado.
A foto acima foi tirada por um amigo exatamente às 6h, quando entrei no autódromo para cobrir um GP na capital paulista pela 32ª vez. Desde 1990, quando a corrida voltou para a cidade, só não estive em duas edições — a de 2021, porque estava morando na Bahia, e do ano passado, porque não tive credencial.
Uma de minhas diversões é escolher um carro bacana para usar no fim de semana da F-1. Já vim de DKW, Lada, Trabant, Wartburg, Karmann-Ghia, Vemaguet, Variant, Passat, meu velho e bom A3… Este ano trouxe o valente Gol GT, 38 anos nas costas, sonho de consumo de quando era moleque que parecia inatingível.
Isso não tem importância nenhuma para ninguém, exceto para mim. Fantasio que quando ele voltar para meu pequeno galpão, provavelmente amanhã, terá assunto para conversar com os outros — que já viram Senna, Prost, Mansell, Barrichello, Schumacher, Hill, Vettel, Button, Alonso, Hamilton, Massa, títulos sendo decididos, corridas com sol, chuva, frio, calor, um pouco de tudo.
O Golzinho testemunhou de seu posto privilegiado de observação uma das atuações mais brilhantes de um piloto na história da categoria. A F-1 realizou hoje seu 1.122º GP, e apenas cinco vezes alguém venceu largando de 17º ou mais. Foi o caso de Verstappen, que praticamente garantiu o tetracampeonato.
Deixo o autódromo feliz por ter visto de perto tal façanha. É legal ter história para contar, embora a cada dia que passa tenha a impressão de que há menos gente interessada naquilo que conto. Saio sem saber direito se, do ponto de vista jornalístico, as milhares de letrinhas batucadas no teclado do computador e postadas nesta plataforma já considerada obsoleta, um blog, tiveram importância para alguém.
Não escrevo mais para jornais, veículos em extinção, nem trabalho em rádio. Resisto, talvez por preguiça, certamente por não dar muita bola, às mídias instantâneas e superficiais que hoje distribuem o que se chama de “conteúdo”. Não se trata de um conflito com a modernidade, aquele papo de “no meu tempo era assim”, “antigamente era assado”. Acho apenas tudo muito descartável e desinteressante.
Gosto de escrever. Foi o que vim fazer aqui. E enquanto alguém ainda ler, é o que continuarei fazendo.
Aqui ainda pode.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.