SÃO PAULO (gosto dele) – Sebastian Vettel é um bom sujeito e quer salvar o mundo. Começou com as abelhas no Japão, combustível ecológico nos seus carros de corrida antigos, agora está catando lixo em Interlagos. Mas eu lembro de sua Suzuki GT 550 cc três cilindros e dois tempos na Hungria, viu? Aliás, lindona. […]
Publicado em 01/11/2024 às 20:00
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Vettel e sua cruzada para salvar o planeta
SÃO PAULO(gosto dele) – Sebastian Vettel é um bom sujeito e quer salvar o mundo. Começou com as abelhas no Japão, combustível ecológico nos seus carros de corrida antigos, agora está catando lixo em Interlagos. Mas eu lembro de sua Suzuki GT 550 cc três cilindros e dois tempos na Hungria, viu?
Aliás, lindona. Tive uma, vendi.
Vettel também virou um fã tardio de Senna e tudo que ele vem fazendo em São Paulo tem as cores do capacete do ex-piloto que morreu há 30 anos. Mas “morte” é palavra jamais mencionada em todo o vasto e interminável material promocional de várias marcas e ações comerciais que transformaram esta corrida numa celebração do que tem sido chamado de “legado” do tricampeão mundial.
Hoje recebi mais uma dúzia de press-releases sobre essas ações, e os textos parecem estar sendo produzidos, todos eles, por algum membro da Santa Igreja da Sexta Marcha, só que não falo muito isso publicamente porque aqui não pode, qualquer coisa que não seja elevar Senna à condição de beato é interpretado como “o cara odeia o nosso Ayrton”.
Não odeio nosso Ayrton, quero deixar claro.
Mas voltando aos press-releases, todos eles, também, me chegam com uma pequena introdução assim: “Oi, Flavio, tudo bem?”. E terminam assim: “Será que conseguimos um espacinho aí?”.
Não sei bem o que os assessores de imprensa chamam de “aí”, talvez seja este blog, e gentil que sou, cederei o espacinho aqui. Vamos começar.
RELÓGIOS – A TAG Heuer montou uma “exposição imersiva” no Ibirapuera e aproveitou para lançar o modelo TAG Heuer Carrera Chronograph Tourbillon x Senna. “Esse relógio exclusivo homenageia a habilidade lendária de Senna e celebra o 30º aniversário de seu legado”, informa o texto. Não sei quanto vale a peça. A exposição se chama “Ícones Além do Tempo”, custa R$ 30 o ingresso e a arrecadação, claro, será doada ao Instituto Ayrton Senna. Num dos “atos” da mostra, vejam que beleza, o visitante conhecerá “o perfeccionismo e o espírito de vanguarda do homem por trás de tudo”. “Ela traz imagens e objetos que mostram a criação de sua figura icônica, com uma busca inabalável pela excelência, caráter e a busca implacável da perfeição. Os visitantes podem rever citações clássicas de Ayrton (…) como ‘Há um grande desejo em mim de sempre melhorar, de ficar melhor. É isso que me faz feliz’, ‘Quando chego ao meu limite, descubro que tenho força para ir além’ e ‘Vencer é o que importa, o resto é consequência’. Figura icônica. O que será desses redatores se a palavra “icônica” for proibida por lei? Quanto às citações clássicas, gosto muito de “bem na minha vez cagaram no carro”, que ele me disse no Estoril em 1994 depois das primeiras voltas com a Williams. As outras frases eu acho meio bobas.
MURAL – Falamos disso ontem, a cerimônia foi hoje. A organização do GP informa: “O emblemático mural do artista Eduardo Kobra, que eterniza Ayrton Senna erguendo o troféu no topo do pódio, resplandece ainda mais. A obra, que acaba de completar quatro anos, foi restaurada por Kobra e sua equipe. (…) O projeto contou com o apoio da RTSC Holding, da família Senna, da Senna Brands, da Prefeitura de São Paulo e da organização do GP São Paulo”. Segue declaração de Adriana Noguti, diretora de comunicação da empresa, que eu não conhecia: “É uma honra presentear a cidade com esta obra icônica, do artista igualmente icônico Kobra. Este mural é um presente para São Paulo, para o Brasil e para o mundo, celebrando os 30 anos de legado do nosso maior ídolo, Ayrton Senna”. Icônica, icônico.
OOH? – Essa coisa aqui não entendi direito, mas vá lá. “Já imaginou ter a oportunidade de vestir um capacete exclusivo inspirado nos modelos usados por Ayrton Senna e ainda registrar o momento com uma foto para compartilhar nas suas redes sociais? O público que acompanhar o GP de São Paulo deste ano será agraciado com esta experiência por meio do projeto ‘Senna 30 Anos – O Legado’, uma iniciativa do Eletrolab com patrocínio da Heineken e parceria com a Senna Brands (…). O suporte para a concretização da experiência, que envolve tecnologia imersiva, é o MUB+, uma evolução de telas da Eletromidia que passam a contar com a capacidade técnica de interagir com os usuários, habilitar uma nova camada criativa imersiva e estruturar dados. (…) ‘A tecnologia criativa aqui está ajudando a transformar o OOH em uma plataforma interativa que convida as pessoas a vivenciarem o legado de Senna. Combinando a presença da Eletromidia no espaço urbano, o toque humano da família Senna e relevância da marca Heineken, este projeto é mais do que uma campanha; é uma experiência cultural inédita que integra OOH, redes sociais e PR de uma maneira muito inovadora’, revela Giovanni Rivetti, CEO da Context”. Desta vez não teve nada icônico. Mas continuo sem entender o que é.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.