LONDRINA (e está chovendo!!!) – Alonso, Alonso. Vais buscar o título, cabrón. Grande vitória, numa corrida mais interessante do que boa. Como fui escrevendo ao longo da prova, porque já estou quase dentro do meu carro para a corrida de daqui a pouco, vamos ao relato.
– Massa, que largou em último, parou na primeira volta e se deu bem, porque teve um safety-car na volta 3 (Liuzzi se estranhou com Heidfeld e ficou com o carro parado na pista). Felipe ganhou as posições de alguns que pararam. Webber também aproveitou o SC e foi trocar os pneus. Era algo que viria a compensar depois, quando a turma da ponta, os oito primeiros, fosse para os boxes. Webber voltou em 11º de seu pit stop. Massa surgiu em 15º.
– Lá na frente, Alonso, Vettel, Hamilton, Button, Rosberg, Kubica e Barrichello. Sem grandes alterações. El Fodón mantendo 2, 3 segundos para Tião Alemão. Webber ia abrindo caminho. Na 12ª volta, era oitavo, a 21s do líder. Mais atrás, Glock era o grande destaque da prova. Em 11º, segurava uma longa composição ferroviária com Sutil, Hülkenberg, Massa, Petrov, os dois da Toro Rosso e o resto do mundo. Sutil levou um ano para passar. Hülkenberg foi na marra, deu um chega-pra-lá no carro da Virgin, passou o boi, passou a boiada.
– E lá na frente, Alonso desfilando e nada de ultrapassagens. Vettel ficou na espreita, sempre a uma distância segura. Hamilton, em terceiro, já estava a mais de 20s na altura da volta 25. A vitória estava restrita ao duelo de Fernandinho e Tiãozinho. Webber lutava para fazer voltas rápidas para, quem sabe, aparecer em terceiro quando os caras à frente parassem para trocar pneus.
– No fundo, virou um porre a corrida. Cenário bonito, feérico, luzes, arranha-céus espelhados, navio no topo do prédio, estádio boiando, a puta que o pariu desses países de faz-de-conta. Mas pista de corrida, mesmo, nada. Desfile de carros rápidos para endinheirados assistirem de noite tomando espumante e exibindo seus Jaeger LeCoultre de 200 mil euros.
– Na volta 29, Hamilton foi aos boxes. Voltou em oitavo, atrás de Webber. Ops, alguma coisa vai acontecer aí. Na 30, Alonso e Vettel nos boxes. Não deu para entender a Red Bull. Poderia ter deixado Tião mais um pouco na pista para tentar ganhar a posição no pit stop. Ajudaram a Ferrari.
– Na volta 32, safety-car de novo. Kobayashi bateu na parede, depois de mandar Schumacher numa outra. O alemão sobreviveu. O japa, na sua batida, não. Bruno veio atrás, não viu e bateu junto. Quem ainda não tinha feito pit stop, aproveitou para fazer. E Webber apareceu em terceiro. Viu como é bom ter paciência? Terceiro, atrás de Alonso e Vettel, e sem diferença nenhuma de tempo graças ao safety-car.
– Na 35, relargada. E Hamilton tentou dar o bote. Estava mais rápido, foi para cima de Webber, mas o australiano não aliviou. E na curvinha para a esquerda Mark manteve sua trajetória e acabou tocando em Lewis, que quebrou. Dois abandonos em duas corridas nesta fase do Mundial… Um campeonato tão apertado não perdoa dois abandonos seguidos na reta final, creio. Ficou muito difícil para Lewis, quase impossível. Se nos pontos a diferença nem é tão grande, é bom lembrar que a McLaren não tem o melhor carro. E Hamilton poderia estar na liderança, hoje, o que seria uma façanha. Não está. Haverá quem acuse Hamilton de ter errado bisonhamente hoje. Não estou entre eles. Tentou. Deu errado. Na vida é assim. A gente vive tentando. E quase sempre dá errado. Talvez ele tenha sido otimista demais quanto às intenções de Webber. Poderia ter feito aquela chicane um pouquinho mais por fora. Mas já foi, babau.
– Nas voltas finais, Vettel ensaiou ameaçar Alonso, que como é El Fodón, não deu muita bola e acelerou quando precisava. Ganhou de novo, está definitivamente na briga, é o cara mais forte, mentalmente, para as últimas quatro corridas da temporada. Teve ainda o espetáculo pirotécnico de Kovalainen, muito bonito e perigoso, para fechar a noite, na falta de fogos de artifício.
– Massa teve uma prova apagada depois do salto de posições graças ao pit stop da primeira volta. Ficou nisso, no fim ainda foi ultrapassado por Kubica, que fez uma segunda troca e nas últimas voltas deu um show danado. Aliás, mostrou a todo mundo como se passa numa pista onde ninguém passa. OK, estava com pneu novo e tal, mas mesmo com pneus novos e tal, tem gente que não consegue. E o polaco é um bicho bom da peste. Barrichello fez uma corrida honesta e pontuou de novo em sexto, uma ótima colocação.
– A Ferrari fez bem em contratar El Fodón.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.