SÃO PAULO (justo) – Jenson, o Bonitão, mereceu ganhar a bagaça. E começou a minar a frágil mente de Hamilton, que se abate muito facilmente. OK, terceiro para quem larga na pole é ruim, mas não é para ficar cabisbaixo como ficou. Lewis é fácil de destroçar psicologicamente. E Button vai fazer isso com elegância e sem precisar recorrer a artifícios como, por exemplo, esconder a balaclava do companheiro ou mandar torpedos para a doce Nicole.
Falando em Nicole, e aquela namorada do Maldonado, hein? Como chama a mocinha? O cachorrinho tem telefone?
Maldonado, Maldonado… Que pasó? Ainda não sei. Assim que souber, incluo aqui. Mas morri de pena do venezuelano, que seria condecorado com a Grande Ordem de Mérito Bolivariano da América do Sul e de Todas as Américas pelo comandante Chávez. E seria merecidíssimo. Agressivo, combativo, disposto, mandou Grosjean para a brita (normal, ao meu ver) e estava quase engolindo Alonso pelo quinto lugar na última volta quando seu carro pimba!, deu no muro depois de uma guinada estranha para a direita.
Guinar para a direita não pode. Tem de ver isso aí.
Mas voltemos ao Button. Grande vitória, terceira dele em terras australianas e 13ª na carreira. Ganhou na largada ao passar Hamilton e, depois, como costuma fazer, controlou a prova com calma e estilo, cuidando de seus pneus como se fossem dois gatinhos persas, com delicadeza e apreço. Hamilton esteve por perto enquanto pôde, mas nunca o suficiente. Pior ainda depois do primeiro pit stop, quando voltou atrás de Raikkonen e Pérez, e a diferença que era de 3s5 para o parceiro subiu para 10s e, aí, nem com reza brava. Para piorar, ainda perdeu o segundo lugar para Vettel quando o safety-car entrou para que fosse retirado o carro petróvico da Caterham, que o abandonou no meio da reta sem cartão de Zona Azul, nem pisca-alerta. Um irresponsável.
Sebastian, que não tem o carro que tinha no ano passado, foi esperto, parou na hora, ganhou a posição de Lewis e mostrou que mesmo sem o melhor equipamento é piloto para brigar sempre. Essa vai ser umas das atrações do ano, ver como se sai o Tiãozinho Alemão quando tem de batalhar por posições largando um pouco mais atrás. Hoje se saiu bem.
“Welcome 2009”, disse Button no rádio, lembrando o título com a Brawn. “O carro é bonito e veloz.” Bonito mesmo, não tem degrau no bico. E rápido, sem dúvida.
Hamilton e Webber, terceiro e quarto, serão vistos na noite de Melbourne caminhando abraçados e cantando, com a voz pastosa, embriagados de amargura, que ninguém me ama, ninguém me quer. Alonso, o quinto, só não vai se juntar a eles porque, provavelmente, passará a madrugada lendo o contrato com a Ferrari para ver se tem jeito de pedir adicional de insalubridade. Guiar aquilo por quase duas horas é desumano.
E o GP das Austrálias teve grandes destaques individuais, como os dois sáuberos, Koba-san e Dom Sergito Pérez, sexto e oitavo. O pimenta malagueta, de novo, só parou uma vez. Ricardinho, da Toro Rosso, terminou em nono. Resta Um foi o décimo. E Raikkonen, o Breve, sétimo depois de passar a corrida gritando com o engenheiro. Como grita o Raikkonen no rádio. E pelas mais justas razões. Porra, estão me dando bandeira azul! Kimi, querido, é para os carros que estão atrás de você. Porra, a asa do japonês aí na frente está chacoalhando! Kimi, querido, a FIA está vendo. Porra, tem um caminhão na pista! Kimi, querido, estamos com safety-car. Porra, todo mundo tirou o pé! Kimi, querido, acabou a corrida.
Vai ser divertido, Kimi em 2012.
No mais, Schumacher começou bem e acabou mal (foi na grama e quebrou o câmbio depois de uma dezena de voltas em terceiro), Vergne estreou bem chegando em 11°, a Caterham decepcionou e voltou a ser quase nanica e os marússios foram bem, como não? Conseguiram vagas no grid e levaram os dois carros até o final sem quebrar. Para quem não tinha testado nada, foi ótimo.
Ah, sim, claro, tem Massa e Senninha. Massa: largou bem, perdeu ritmo, seus pneus foram para o saco muito rapidamente, foi ultrapassado com enorme facilidade a cada fim do ciclo da borracha, despencou lá para trás e se enroscou em Bruno. Que, por sua vez, foi tocado na largada, quase capotou, fez um pit stop de emergência, caiu lá para trás também e quando encontrou Felipe, nele se enroscou, como já mencionado. Lutavam por posição fora da zona de pontos. Bem fora. Acho que 14°, coisa assim.
Ambos abandonaram. Bruno disse que foi acidente de corrida. Felipe, ainda não sei.
Volto mais tarde, quando sol surgir no horizonte, com a já premiadíssima seção Tecla SAP. E se Gola ligar, o que sempre é possível, mas não garantido, quem sabe com alguma coisinha da Ferrari.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.