SÃO PAULO (resolvemos depois) – Numa decisão de campeonato, suspeito que qualquer detalhe importa. Por isso pode ser que Oscar Piastri tenha ficado meio emburrado por não ter feito o primeiro treino livre hoje em Abu Dhabi. No programa de novatos, cada piloto precisa ceder seu carro duas vezes por ano a um zé-coió qualquer […]
SÃO PAULO(resolvemos depois) – Numa decisão de campeonato, suspeito que qualquer detalhe importa. Por isso pode ser que Oscar Piastri tenha ficado meio emburrado por não ter feito o primeiro treino livre hoje em Abu Dhabi. No programa de novatos, cada piloto precisa ceder seu carro duas vezes por ano a um zé-coió qualquer em treino livre de GP. Muitas equipes deixam para queimar a obrigação na última etapa do campeonato, porque geralmente ela não vale nada. Quando muito, vale para um ou dois times na luta pelo título.
É o caso de 2025, com McLaren e Red Bull na briga. E o time papaia foi deixar para Yas Marina o cumprimento da regra, e como Lando Norris já cedeu seu carro duas vezes no ano e Piastri só tinha cedido uma, o australiano ficou a pé na primeira sessão. Na segunda, quando pôde andar, terminou em 11º. Norris, na primeira colocação.
Primeiro treino (esq.): nove novatos; no segundo, “adultos” na pista
Mas seria exagero dizer que foi isso que atirou Piastri para trás. Uma hora de treino até pode fazer alguma falta, mas não é o bastante para deixar o cara a 0s680 de seu companheiro de equipe. Todo mundo conhece a pista, os acertos dos carros são pré-determinados, e piloto que é piloto pega a mão de qualquer circuito depois de 15 minutos andando. Então, que não sirva de desculpa. É detalhe, e é claro que seria melhor andar nas duas sessões. Mas, de novo, não explica a diferença de rendimento.
De qualquer forma, Piastri, para mim, está totalmente fora da briga pelo título com seus 16 pontos de déficit para Lando. E anda tão macambúzio que nem sei se vai conseguir ajudar o companheiro a ser campeão. O auxílio pode ser necessário em algum momento na corrida. E Zak Brown, chefe do time, já admitiu publicamente que se for preciso é claro que dará ordens de equipe para garantir o título de pilotos contra Max Verstappen.
Shields & Crawford: dia de novatos
Na primeira sessão, Piastri foi substituído pelo mexicano Pato O’Ward, que corre pela McLaren na Indy. Outros oito novatos tiveram suas chances de aparecer na TV e conhecer um pouco mais de um carro de F-1. A Aston Martin deixou seus dois titulares no hotel. Colocou na pista Jak Crawford e um rapaz de nome Cian Shields.
Quem?
Escreveu o glorioso portal português SAPO, em sua edição de ontem, depois de destacar que o moço correu na F-3 no ano passado e fez zero ponto, e que na F-2, neste ano, mostra muita regularidade e também não pontuou:
Um olhar mais atento revela um pano de fundo intrigante: o seu pai, Seamus Shields, é um magnata da construção milionário com um património líquido de 59 milhões de euros! Ele lidera o Advance Construction Group, com sede em Glasgow, que emprega mais de 700 pessoas e até fez parte da lista dos mais ricos da Irlanda do Sunday Times em 2020. No entanto, este sucesso é ofuscado por controvérsias. A Advance Construction Scotland enfrentou sérias alegações de violações da legislação ambiental, incluindo a demolição de um edifício protegido sem aprovação do conselho. Com um histórico de 13 incidentes de alegada má gestão ambiental, incluindo cinco avisos finais da Agência de Proteção Ambiental da Escócia, a empresa encontra-se no meio de uma tempestade de escrutínio.
Shields é escocês. Tem cara, mesmo, de filho de milionário. Provavelmente nunca mais ouviremos falar dele.
As duas únicas equipes que fizeram o primeiro treino livre com duas duplas titulares foram Mercedes e Sauber, já que ambas têm estreantes efetivos no campeonato, Kimi Antonelli e Gabriel Bortoleto, e nessa condição ambos cumpriram a obrigatoriedade estabelecida pelo regulamento nas duas primeiras etapas do campeonato.
Lando & Oscar: inglês tranquilo, australiano tenso
Falando em Bortoleto, sua equipe andou bem nas duas sessões. Na segunda, a mais importante porque estavam os adultos na pista e o horário era parecido com o da classificação de amanhã e da corrida de domingo, seus carros ficaram em quinto e sexto. Quem sabe a Sauber se despede da F-1 com um bom resultado. A equipe continua existindo no ano que vem, mas terá um novo nome, Audi. A montadora alemã comprou o time há algum tempo e na próxima temporada, finalmente, coloca as quatro argolas no jogo.
Norris fez o melhor tempo do dia — ou da noite, se preferirem, embora a noite pertença ao dia, se é que me entendem — em 1min23s083. Verstappen foi o segundo, 0s363 atrás dele. Amanhã às 11h sai o último grid da temporada.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.