SÃO PAULO (quero só ver) – O GP de Las Vegas, semana que vem, tem tudo para dividir o mundo da F-1 em adoradores e “haters” da corrida na qual a Liberty, com o perdão do trocadilho, aposta boa parte de suas fichas. O primeiro grupo vai apontar o dedo para o segundo acusando-o de […]
Publicado em 10/11/2023 às 22:30
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SÃO PAULO(quero só ver) – O GP de Las Vegas, semana que vem, tem tudo para dividir o mundo da F-1 em adoradores e “haters” da corrida na qual a Liberty, com o perdão do trocadilho, aposta boa parte de suas fichas.
O primeiro grupo vai apontar o dedo para o segundo acusando-o de retrógrado, ultrapassado, avesso a novidades. Exaltarão, seus integrantes, a incrível capacidade que o EUA têm de “fazer espetáculos”, o “show de luzes, luxo e organização”, e defenderão com a própria vida o “american way of life” que a atual dona da categoria vem tentando impor a um campeonato nascido na Europa — e que torce o nariz para a breguice que vem do lado de lá do Atlântico.
Do outro lado da trincheira, os detratores de Vegas vão fundear seus ataques em uma premissa: isso aí não é automobilismo, não passa de uma pirotecnia gigante e artificial para ganhar dinheiro, a corrida é o que menos importa. Um comentário que li numa postagem do perfil oficial da categoria no Instagram resume bem tal pensamento: “Depois que a geração Netflix e TikTok descobriu a F-1, nosso esporte virou um circo”.
O circuito e as zebras: show sem esporte sob baixas temperaturas
Por enquanto, não há nenhum prognóstico muito positivo para a prova. Na lista de potenciais problemas aparecem a temperatura — nesta época do ano naquele pedaço do mundo o clima é glacial –, o desenho medíocre da pista e o ódio da população local, que teve a cidade virada de cabeça para baixo para a montagem da estrutura necessária para receber um GP.
No momento em que escrevo, 21h44, os termômetros na capital da jogatina marcam 3°C. Lá são 16h44. Las Vegas está cinco horas atrás do fuso de Brasília. Na história da F-1, há o registro do GP do Canadá de 1978 como o mais gelado de todos os tempos, disputado no começo de outubro daquele ano com pinguins tremendo a 5°C.
Já peguei coisa parecida em Nürburgring na véspera de um GP da Europa ou de Luxemburgo, não vou lembrar quando. Mas a geladeira só ficou aberta até quinta-feira à noite. Na sexta, quando começaram os treinos, o sol apareceu e a temperatura subiu. E as atividades eram diurnas. O GP de Las Vegas, como se sabe, será noturno, no sábado (25). Para nós, 3h do domingo (26).
Se a F-1 se esforça para criar uma expectativa de enorme sucesso, essa corrida corre o risco de ser um baita fracasso. Com muito frio, os pneus não atingirão temperaturas compatíveis com as necessidades dos carros atuais. Não por outro motivo a pré-temporada da F-1 já não acontece mais na Europa, no fim do inverno do Velho Continente. Tem sido realizada no Bahrein. Pneus gelados são inimigos da aderência. Os carros vão escorregar como se estivessem andando no gelo. É pista de rua, com muros próximos. As chances de acidentes são grandes.
O traçado de Las Vegas: longo e desinteressante
O traçado é uma bobagem de mais de 6 km feito para que a propaganda oficial alardeie “velocidades de até 500 km/h” ou coisa do tipo. Assim tentarão convencer os locais de que verão uma exibição extraordinária de perícia e coragem no meio dos cassinos. Foi concebido muito mais para ser “instagramável” do que, propriamente, para uma competição com carros de corrida que apure alguma técnica ou talento de seus participantes.
As imagens geradas serão, claro, fantásticas e impressionantes. Para quem gosta de letreiros de neon, roda-gigante, iluminação feérica, pirâmides falsas e torre Eiffel fora de Paris, um prato cheio. A pista e o evento serão chamados à exaustão de “espetaculares” na TV. Não esperem grande senso crítico. De ninguém.
Hoje apareceu aquela foto lá do alto deste post, que mostra a pintura das zebras. Os quatro naipes do baralho estão representados. Oh, que sacada. Por aí dá para imaginar o que vem pela frente, A única certeza dessa corrida é que será menos ridícula que as de 1981 e 1982, realizadas numa pista despropositada montada no estacionamento de um hotel. Aquilo ultrapassou todos os limites da sensatez.
Gosto, em geral, de novidades no calendário. Curti quando a F-1 foi para a Malásia, aventurou-se pela Índia, Turquia e Coreia do Sul, voltou à Argentina e à África do Sul sem ditadura e apartheid… A passagem por Indianápolis teve um peso histórico, Austin é uma bela pista, Baku tem seu charme, até o circuito do Bahrein, país à parte, merece elogios. O que não quer dizer que todas as novidades sejam um sucesso absoluto. Sochi era uma merda, assim como Jedá, Miami, Paul Ricard e Abu Dhabi.
Pelo que vi até agora, o GP de Las Vegas vai ser uma porcaria. Mas será considerado por muita gente sensacional, aconteça o que acontecer. Procurem, nos próximos dias, ouvir os pilotos e o que dizem nas entrelinhas — são raros os esculachos públicos e explícitos. Eles são as estrelas da companhia. E os que mais entendem do assunto.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.