
Vettel em Suzuka: adeus ao título
RIO (mais um adeus) – E tem como ser diferente? Quando as coisas quebram, não colam mais.
É o caso, inclusive, de uma vela. Já viram uma vela de carro? É uma das peças mais bonitas de um motor a explosão. Tem um formato elegante, é feita de materiais nobres, produz faíscas, sim, faíscas, sem as quais todo o processo que transforma gasolina em movimento seria impossível. Uma faísca, o fogo, elemento primordial que mudou a história da humanidade depois que o primeiro australopiteco se encheu de comer comida crua e grelhou um peixe, e nunca mais as coisas foram iguais.
Pois a vela quebrou. Uma delas.

A vela: culpada de todos os males
A Ferrari jogou a culpa na NGK. Bem, alguém seria culpado, sempre há um culpado, mesmo quando você não sabe do que se trata. Fica aqui toda minha solidariedade à vela, esta incompreendida. Aproveito para informar que uso muito NGK nos meus DKWs, e elas são ótimas. Se encharcam, e isso acontece de vez em quando, é por culpa minha, absolutamente minha. E porque motores dois tempos são tinhosos e temperamentais.
Adoro a caixinha amarela. Sou fã.
Vamos em frente.
Houve uma despedida das mais civilizadas em Suzuka, a da Jolyon Palmer, da Renault. Ele agradeceu ao time, gravou vídeo, foi muito sincero ao admitir que a decisão é compreensível, desejou sorte a Sainz Jr. e disse a…
FRASE DE SUZUKA

Palmer: adeus à F-1
“Não sei o que vou fazer ainda. Agora vou me sentar no sofá, colocar os pés para cima e comer muito.”
Palmer, sobre os planos para o futuro depois de três anos vinculado à fábrica francesa. Para quem não quiser ficar com muita pena, segue um vídeo de cinco minutos com todas as cagadas que fez na F-1. A gente pega leve, mas precisa dar uma zoada, também…
Com a saída de Palmer, Fernando Alonso perde uma de suas vítimas preferidas, ele que passou o ano xingando o inglês nos seus frequentes encontros pelas curvas da vida no fundo do pelotão.
Mas o espanhol também merece puxões de orelha por algumas atitudes, como ontem ao ficar na frente de Verstappen na última volta da corrida, atrapalhando uma eventual tentativa de ultrapassagem sobre Hamilton. Levou dois pontos na carteira. E não reclama, que estamos calmos.
Se bem que Verstappinho nem se queixou. Falou que não daria para ultrapassar, mesmo, porque reparou que quando Lewis ficou de cara para o vento, ao se livrar de Alonso e Massa, voltou a andar forte. E notou que a Mercedes tem alguma dificuldade quando anda atrás de outros carros, mesmo que a alguma distância, perdendo pressão aerodinâmica.
Uma vez livre e solta, vai embora.
O NÚMERO JAPONÊS
…vitórias pela Mercedes Hamilton alcançou ontem. Já são 61 na carreira. E todas com os motores alemães, já que era essa a parceira da McLaren quando ele corria lá. Outro número redondo mercêdico: Bottas, autor da melhor volta, cravou a 150ª volta mais rápida em corrida da equipe alemã. Os caras não estão para brincadeira.
Hamilton, como se sabe, pode ser campeão matematicamente na próxima etapa, em Austin. As contas para que isso aconteça estão aqui. Basicamente, vencer e torcer para Vettel não passar de um sexto lugar. Não é tão difícil, considerando o momento da Ferrari.
Vettel, apesar de tudo, poupou a equipe de críticas e disse que o time precisa ser “protegido”, nesse momento em que todos em Maranello, do porteiro ao cozinheiro, serão malhados implacavelmente pela imprensa, a italiana em especial.
Mas não dá para deixar de tirar uma onda. Aliás, nosso cartunista oficial Maurício Falleiros não perdeu a chance…
Falle1ros
[bannergoogle]Notícia de hoje que merece algum destaque é a dúvida da Toro Rosso quanto ao seu segundo carro nos EUA. Kvyat volta, já se sabe, Sainz se mandou para a Renault e Gasly… Gasly tem uma decisão de campeonato em Suzuka, da Super Fórmula. Com grandes chances de ser campeão. Ele disse que, por dependesse de sua vontade, correria em Austin e mandaria a categoria japonesa às favas, mas parece que não vai ser bem assim. Até amanhã o time promete revelar quem será o eleito. Falou-se em Buemi, mas como ele tem contrato com a Toyota e a Toro Rosso, agora, é Honda Futebol Clube, o nome foi riscado da lista.
Aliás, é a Honda que quer Gasly em Suzuka. Helmut Marko reconheceu que anunciar a presença do francês nas quatro últimas provas do ano, mesmo sabendo da decisão no Japão, foi um erro. Josef Newgarden, campeão da Indy, está entre os possíveis candidatos. Mas Marko pediu para que parassem de tentar adivinhar. “Amanhã conto”, prometeu.
E para fechar…
GOSTAMOS

Sato: simpatia
…de ver <<< Takuma Sato entrevistando a turma no pódio, justa homenagem a um cara que, afinal, ganhou nada menos que as 500 Milhas de Indianápolis neste ano. E não é que Hamilton “roubou” o anel de vencedor do piloto japonês? Lewis foi muito simpático com Taku. E Taku, como sempre, esbanjou simpatia. De quebra, o inglês ainda deixou no ar — talvez apenas para ser simpático, mesmo — a possibilidade de um dia correr as 500.
NÃO GOSTAMOS

Vandoorne: decepção
…da corrida fraquíssima de Vandoorne >>>, apesar de sua boa posição de largada. Era nono no grid, terminou em 14º. Tudo porque logo no início tentou fazer o que não dava — passar um monte de gente –, errou miseravelmente e caiu para último. Aí, ficou se arrastando sem chances de conseguir nada de proveitoso. Depois de dois sétimos lugares seguidos, teve uma tarde bem ruim, o belga.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.