
SÃO PAULO (teve piores) – Revendo lances, relendo declarações, reavaliando tudo, no fim das contas o GP da Bélgica, embora de resultado previsível lá na frente, com mais uma dobradinha mercêdica, não foi chato como escrevi ontem. Afinal, se tem Lotus no pódio, é porque foi uma corrida diferente. O estouro do pneu de Vettel, as ultrapassagens de Verstappinho, os dramas aqui e acolá fizeram dessa corrida uma daquelas que, se não foi inesquecível, também esteve longe de ser uma das piores do ano.
Vamos ao rescaldo.
– Button considerou seu GP “embaraçoso”. Perdeu um dos motores elétricos. Já é lento quando tudo funciona. Sem 180 hp de uma das traquitanas da unidade de força, imagina o que vira o carro da McLaren… Jenson quer que a Honda deixe quebrar tudo, mas aposte no desempenho. As coisas andam muito mal com os japoneses.
– O inglês, por sinal, pode estar em sua última temporada na F-1. Consta que a McLaren está não só em crise técnica, como financeira. De fato, faltam patrocínios em seus carros. Nem parece um dos maiores times da categoria. Por isso, a ideia de enxugar custos agrada a seus executivos. Button ganha bem. Corre o risco de ficar desempregado.
– Em compensação, Alonso considerou a prova de ontem a sua melhor em Spa em toda a carreira. Chegou em 13º, posição que ocupou logo no início, depois de largar em último. Parece que, realmente, está meio biruta.
[bannergoogle] – Vijay Mallya, dono da Force India, se encontrou com Alain Prost, embaixador da Renault. E conversaram sobre uma possibilidade de compra do time pela montadora francesa. A Renault parece mesmo muito disposta a ter uma equipe própria de novo. Toro Rosso, Lotus e, agora, Force India na mira. Acho que acaba saindo negócio com a Lotus.
– Essa história de a FIA decidir o que pode e o que não pode ser dito pelo rádio a partir do ano que vem nunca vai dar certo. Agora, novas determinações foram divulgadas. Parece papo de louco. Ou tem rádio, ou não tem. Se há como se comunicar verbalmente com um piloto a partir dos boxes, e isso é permitido, não faz sentido determinar o que pode ou não pode ser dito. E tenho dito!
– O estouro de pneu de Vettel está dando o que falar. A Pirelli ficou puta com os chiliques do alemão, porque há dois anos diz que está tentando convencer a FIA a estipular um limite de uso para seus pneus. “Em novembro de 2013 a Pirelli solicitou que fossem definidas regras para gerenciar o número máximo de voltas que podem ser dadas pelo mesmo jogo de pneus. Este pedido não foi aceito. A proposta apresentava uma distância máxima equivalente a 50% da distância do GP para o pneu Prime e de 30% da distância para o pneu Option. Estas condições, se tivessem sido colocadas em prática hoje em Spa, teriam limitado o número máximo de voltas do composto médio para 22″, disse a empresa em comunicado oficial. Vettel já estava na 28ª volta do pneu quando houve o estouro.
– Mas tem gente que não engole as explicações pirellianas. Rosberguinho também teve problema semelhante nos treinos e reclamou da borracha italiana. A Pirelli, no entanto, atribuiu o furo no pneu da Mercedes do alemão a “fatores externos”. A Ferrari detonou a fornecedora de pneus, dizendo que um engenheiro da empresa acompanha a corrida de dentro dos boxes e não falou nada sobre os riscos da estratégia de uma parada apenas de Vettel. “Ele está aqui para quê, mascar chiclete?”, esbravejou Maurizio Arrivabene.
– Hamilton atingiu uma marca importante ontem: 80 pódios na F-1, igualando Ayrton Senna, seu grande ídolo. Schumacher (155), Prost (106) e Alonso (97) estão à frente de ambos nas estatísticas. O inglês atingiu os 80 troféus com duas corridas a menos que o brasileiro.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.