SÃO PAULO (fome batendo) – O cara ganha seis das oito primeiras corridas do ano e chega em segundo nas outras duas. Aí fica três sem vencer: segundo, quarto, segundo. E vem neguinho tocar a trombeta do apocalipse para dizer que ele não é tudo isso, que como o carro deixou de ser o melhor a máscara vai cair, que só ganha porque o equipamento é superior e tal. Perdeu as últimas três, está em decadência, vem briga boa por aí.
Então acabam as férias e no primeiro dia de aula ele tira um 10 de novo.
Falam muita merda do Vettel. A maior delas, que ele não é um piloto fora-de-série, com hífen.
Aproveitando, gostaria de falar sobre o hífen. É uma palavra estranha, hífen. Será a única em português que termina em “n”? Não, tem também lámen, do miojo. Deve haver outras. Mas é estranha, soa estrangeira, sempre se tem a impressão que a grafia está errada. Tem acento, termina com “n”, não é uma palavra normal. Não gosto de hífen, nem de usar hífens. Quando for presidente do mundo, vou abolir a palavra hífen do dicionário. Vou adotar a forma “tracinho”.
Voltando ao Vettel, vejam só: 12 corridas em 2011, 7 vitórias, 4 segundos lugares, 1 quarto. Tem 259 pontos, mais do que fez no ano passado inteiro (e foi campeão). Abriu 92 do Webber, o vice-líder que todo campeão pediu a Zeus. Se ficar em casa nos próximos quatro GPs, ou se for para a Disney, ou ao Playcenter, e seu parceiro marsupial ganhar todas, Vettel volta para as últimas três provas do ano apenas oito pontos atrás. E Webber não venceu nenhuma neste ano.
Bem, já falamos do bicampeonato. Está garantido, acabou, tchau. E hoje ele fez uma corrida belíssima. Largou com os pneus ralados, como todos que estavam nas cinco primeiras filas. Como não trocaram durante o Q3, ontem, os dez primeiros foram para a pista com 6 voltas em sua borracha macia, o que dá quase 45 km. Distância, numa pista de tamanho normal, que equivale a quase dez voltas. Ou seja: largaram com pneus que estavam no fim de sua vida útil. E os dianteiros da Red Bull fizeram bolhas, estavam numa merda federal.
Foi por isso que Vettel precisou cuidar bem da látex no início, parou na quinta volta, aproveitou um safety-car para trocar de novo, e com três paradas e algumas ultrapassagens ligeiras para não perder tempo, controlou o GP francorchâmpico sem maiores sustos.
A corrida foi boa e ofereceu algumas demonstrações de colhões de vários pilotos, disputando posições em trechos velocíssimos, em situações nas quais não passaria um fio de cabelo. Lá, e entre as rodas dos carros percorrendo curvas lado a lado, quero dizer.
Button e Schumacher foram os melhores da corrida, pelas posições em que largaram. O inglês partiu de 13° no grid para o pódio, atrás da dupla rubrotaurina (segunda dobradinha no ano, diga-se). Na metade da corrida, baixou o santo no cara e ele saiu passando todo mundo. O alemão, com seu capacete imitando o microfone de Athayde Patrese, um luxo, largou em último e terminou em quinto. Foi sua melhor prova desde que tirou o pijama para voltar a correr. Os dois espertinhos, Button e Schumacher, largaram com pneus médios, trocaram logo e fizeram a corrida quase inteira de macios. Começar atrás tem lá seus encantos.
Por fim, a Ferrari. Alonso brigou muito enquanto andou de pneus macios. Chegou a ficar perto de Vettel, faria uma parada a menos, mas quando colocou a borracha média começou a se arrastar. Terminou em quarto, depois de largar em oitavo. Massa largou em quarto e chegou em oitavo. Sumiu depois das primeiras voltas e foi presa fácil para todo mundo. Tem sido assim o campeonato todo. Começa bem, mas depois alguém passa e ele desanima.
Na turma dos pontos, palmas para Sutil, sétimo, Petrov, nono, e Maldonado, fazendo seu primeiro ponto na F-1 com a décima colocação.
Ah, e não choveu. O que me leva a desconfiar que talvez essa corrida não tenha sido na Bélgica, de verdade.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.