ITACARÉ (valeu tudo) – Já dentro do estádio, vendiam feijão tropeiro com bisteca, couve, torresmo e ovo frito. Meu irmão mais novo, não o mais novo, que este ficou em São Paulo para prestar vestibular, morava em Belo Horizonte. Nunca foi muito de futebol. Palmeirense, até hoje pergunta por que o Ademir da Guia não […]
Publicado em 08/12/2021 às 23:52
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ITACARÉ (valeu tudo) – Já dentro do estádio, vendiam feijão tropeiro com bisteca, couve, torresmo e ovo frito. Meu irmão mais novo, não o mais novo, que este ficou em São Paulo para prestar vestibular, morava em Belo Horizonte. Nunca foi muito de futebol. Palmeirense, até hoje pergunta por que o Ademir da Guia não é titular, quando seu time aparece na TV. Gostei de ver, ao vivo, que aquilo existia mesmo: feijão tropeiro no estádio.
Na minha memória, eram 95 mil pessoas no Mineirão. Talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Jogos para 100 mil não me eram estranhos. Morei no Rio no início dos anos 70. Vivia no Maracanã, inclusive para jogos da seleção. Peguei um ou outro no Morumbi, também. A final de 1985 contra o São Paulo foi uma dessas partidas de três dígitos — e se as estatísticas oficiais não batem com minhas lembranças, lamento por elas.
Dos jogos finais de 1996, o único que não vi no estádio foi o segundo contra o Cruzeiro — eram favas contadas, fizemos 3 a 0 em casa, mas me arrependo de não ter ido. Muito. Jogávamos no Morumbi porque a CBF exigia estádios para não sei quantas pessoas, e o Canindé, um colosso, um patrimônio da humanidade, não podia ser usado. OK, jogamos no Morumbi, então. Sempre às quartas à noite. Domingo nos exibimos para o mundo pela TV, em horário nobre.
Até o primeiro jogo contra o Atlético, a camisa que eu vinha usando era uma bem rara, vermelha e branco quadriculada como a da Croácia. Foi com ela que vencemos o Torneio Início em 1996 no Parque Antarctica, simpático campo de jogo da agremiação coirmã da Pompeia. Ocorre que nesta partida no Morumbi alguém pintou meu rosto com listras vermelhas e verdes, e um policial vetou minha entrada nas arquibancadas. Não vou perturbá-los aqui com a reprodução de meu diálogo com o agente da lei, mas tive de limpar o rosto com a camiseta quadriculada, que ficou manchada para todo o sempre.
No dia seguinte à vitória por 1 a 0, um amigo que tinha loja na 25 de Março conseguiu não sei como uma camiseta oficial Dell’Erba listrada, com patrocínio dos Armarinhos Fernando (mais barato, só se for de graça), patrocínio este que causava espécie na patuleia. Armarinhos Fernando? Hahaha, diziam. A ignorância já era endêmica naquela época. Minha camisa era muito grande e não tinha número. Mas foi com ela na bagagem que peguei o avião em Congonhas na sexta-feira à tarde, para descer na Pampulha. Havia um aeroporto lá, acho que ainda há.
Como disse, meu irmão morava em Belo Horizonte e foi me buscar na Pampulha. A cidade é pródiga em bares e restaurantes, ele morava numa casa legal de condomínio, a véspera do jogo foi muito agradável. Ele mesmo se encarregou de comprar os ingressos. Resolveu que iria comigo ao Mineirão.
No domingo, alguém nos deixou nas proximidades do estádio. Tinha gente. Muita gente. Guardo o ingresso até hoje, um cartão plástico com os escudos do Galo e da Lusa estampados. Fazia calor, creio, mas estávamos com blusas sobre nossas camisetas da Portuguesa — trouxe uma para meu irmão palmeirense, que a vestiu sem pestanejar.
Quando entramos no setor a nós reservado, no que devia ser algum tipo de geral, quase no nível do gramado, olhei para cima e fiquei impressionado. Os lances das arquibancadas no anel superior balouçavam ao ritmo de “Lutar, lutar, lutar/Pelos gramados do mundo pra vencer/Clube Atlético Mineiro/Uma vez até morrer”. Quando retomavam do início, os torcedores me espantavam mais ainda com a paixão com que bradavam “Galo forte vingador”. Um lindo espetáculo, inegável.
Levamos um gol. Mas empatamos de pênalti, cobrança que não vi porque fiquei de costas para o campo. Ao empate, meu irmão, que deve ter entrado num estádio meia dúzia de vezes, se tanto, virou-se para nossa brava torcida e gritou: “Vamos lá! O hino, porra!”. Ele, claro, não sabia o hino. Mas a eloquência foi muito convincente e começamos a cantar o hino, e depois entoamos outros cantos, e aí fizemos 2 a 1, e mesmo depois que eles empataram, nunca tememos a derrota. Nunca tememos a morte.
Foi o jogo da minha vida. E olha que a vida já me vai longa… Só de arquibancada, eu diria, são mais anos do que muitos de você viveram. O bom de passar dos 50 é isso, poder dizer bobagens assim. Mas são muitos, mesmo. É meu habitat, há dois lugares no mundo onde me sinto eu mesmo de verdade: no Canindé e dentro de meu carro de corrida em Interlagos. Anything that happens before and after is just waiting.
Empatamos e, incrédulos, fomos à decisão. Sobre nós e no nosso entorno, duzentas mil pessoas deixavam o estádio em silêncio. Milhões nos viam pela TV. Era semifinal, Galvão Bueno narrou. É da Luuusa! Narrou as duas da decisão, também. Talvez tenham sido os únicos jogos da Portuguesa que Galvão narrou, e sinto muito por ele neste particular.
Vestimos nossas blusas para sair do Mineirão. Trezentas mil pessoas, caladas, caminhavam de volta aos seus lares. Não podíamos expressar alegria, euforia, júbilo, arrebatamento. Nenhuma nesga de vermelho ou verde poderia escapar às blusas, posto que quatrocentas mil pessoas nos cercavam entristecidas, algumas até revoltadas.
Pegamos um ônibus. Chegamos em casa já noite alta. Meu irmão orgulhoso de ter puxado o hino.
Eu, feliz.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.