SÃO PAULO (tenho mais o que fazer) – Notei hoje, ao moderar os comentários postados em nosso humilde bloguezinho, três deles falando sobre provas de arrancada. Colocados em posts sobre outros temas, claro. E devidamente apagados, claro.
Num primeiro momento não entendi tal manifestação em massa, até que me toquei que ontem, no “Limite”, li um e-mail de algum assinante da TV pedindo mais matérias sobre arrancada etc. Acho que foi por isso que esses parcos “arrancadões” decidiram sair do armário.
A gente recebe uns quatro ou cinco e-mails desses por semana lá na ESPN. “Por que o programa não fala de arrancada?”, perguntam. E a gente responde que já foram feitas algumas matérias nestes três anos, e encerra o assunto. E cada vez que chega mais um e-mail pedindo a mesma coisa, é o papo de sempre a gente dá risada, porque os “arrancadões” (inventei o termo agora; não sei como chamar quem faz arrancada, talvez “arrancador”, sei lá) devem achar que esse negócio é a coisa mais importante do mundo. E como tiro um barato dos caras que mandam e-mails pedindo sempre a mesma coisa, acabei de descobrir que certas “comunidades” acham que eu odeio arrancada.
Bem, não odeio. Nem gosto. Simplesmente não ligo. Não acho que seja um esporte, não acho que seja corrida. É apenas um encontro de meninos exibicionistas com suas chaleiras suburbanas. No fundo, acho uma babaquice, mas não tenho nada contra, nem a favor. Não ligo para arrancada como não ligo para jogo de pólo, ou adestramento, bambolê, badminton.
Não sei bem por quê, pessoas que gostam de determinadas coisas (esportes, músicas, filmes, roupas, carros) acham que todos são obrigados a gostar também. Ora, eu gosto de corrida de carro antigo. Tem gente que acha ridículo. Eu gosto de Lada e de DKW. Há os que me consideram maluco por isso. E daí? Para mim Lada e DKW são o máximo. Por conta desse gosto sui-generis um monte de gente entra aqui e me espinafra, e nem por isso quer vê-los ardendo no mármore do inferno.
Mas eu dizia que simplesmente não ligo para arrancada, e por mim o assunto estaria encerrado assim que apagasse os três comentários, até que um blogueiro, Thomas Moraes, me mandou o link deste fórum de arrancadores, e um certo “Coxa455” colocou lá um tópico para me esculhambar.
Até aí tudo bem. Não é o primeiro, nem será o último. Então fui dar uma espiada no que os caras estavam dizendo, e me deparei com esta sequência de comentários de três internautas diferentes (reproduzo no original):
AFF QUE PAU NU CUH VO PASSA A TARDE INTEIRA HOJE MANDANDO E-MAIL PRA ESSE LAZARENTO, TOMARA QUE SEJA ATROPELADO POR UM CARRO DE ARRANCADA!
kkkkk seria uma ótima idéia atropelar mas ja que não pode alguem que o reconheça nas ruas podia pegar um gol turbo canhão e dar uma fritada na porta dele quero ver esse bundão não ficar com o cú na mão com uma espirrada de 3 kilo na porta .
VERDADE HEIN QUERIA VE O LADO DAE, MAIS TINHA QUE SER UM GOLZINHO COM UM VISUAL DE ARRANCADA PRO FDP SABER QUE O BAGULHO É LOCO, MANDA UMA REDUZIDA SEGUIDA DE UNS ESPIRO CABULOSO DA .70 DAE EU QUERIA VE O AUTOMOBILISMO DELE.
Há outros comentários, quase todos mais ou menos com esse grau de sofisticação linguística. O que me leva à conclusão de que é esse tipo de gente que faz e frequenta as provas de arrancada que vem a ser a síntese daquilo que eu às vezes acho, com dor no coração, que se tornou boa parte da juventude brasileira, essa moçada entre 20 e 30 anos: uma geração condenada à mediocridade.
Ou eu estaria errado? Tomara. Claro que não é todo mundo que tem entre 20 e 30 anos que se comporta, fala, pensa e escreve como retardado. Mas, infelizmente, são muitos. E é triste o futuro dessa galerinha.
Em todo caso, apenas para encerrar, comunico aos interessados que graças ao esforço literário dos menininhos valentes do tal fórum, eu, que não dava a mínima, agora odeio arrancada!
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.