SÃO PAULO (é difícil) – Era só o que faltava, tem gente me tratando de “defensor do automobilismo”, “guardião do nome Fittipaldi” e coisas do gênero pelo post logo abaixo.
Noto que a cada dia que passa mais difícil é se fazer entender. Vou começar a escrever em tópicos, apenas, se possível em não mais que 140 caracteres. Vamos ver…
– Meninos e meninas, NÃO SOU A FAVOR de os Fittipaldi recorrerem à Lei de Incentivo do Esporte para captar recursos para o netinho correr.
– Como escrevi abaixo, EU TERIA VERGONHA NA CARA na condição de um Fittipaldi, ou de um jogador de pólo, ou de um cantor ou cantora famoso, e jamais recorreria à renúncia fiscal dos outros para financiar minha carreira, meu show, meu blog.
– Acho a Lei de Incentivo ao Esporte uma ABERRAÇÃO, na medida em que coloca no mesmo balaio o financiamento de coisas pouquíssimo importantes como uma carreira de um piloto ou um campeonato de pólo e atividades de cunho social, de inclusão através do esporte, de auxílio a modalidades e instituições paupérrimas, uma vez que a aprovação dos projetos se dá através de uma Comissão Técnica que, pelo visto, analisa apenas ASPECTOS TÉCNICOS DAS PROPOSTAS, e não sua real NECESSIDADE.
– Uma proposta tecnicamente bem elaborada SERÁ APROVADA SEMPRE, porque essa Comissão Técnica avalia os projetos tecnicamente, se preenchem todos os pré-requisitos, se apresentam todos os documentos, O QUE É UM ERRO, mas é assim.
– Apesar disso, essa Comissão Técnica tem, no próprio texto da lei (DECRETO N° 6.180, DE 03 DE AGOSTO DE 2007, que regulamenta a Lei N° 11.438, de 29 de dezembro de 2006, que trata dos incentivos e benefícios para fomentar as atividades de caráter desportivo), uma forma de vetar barbaridades como financiar via renuncia fiscal a carreira de um piloto nos EUA ou um campeonato de pólo, MAS NÃO O FAZ POR PREGUIÇA, MALEMOLÊNCIA, FALTA DE COMPROMISSO COM O QUE É PÚBLICO. O Artigo 24 é claro, e reproduzo com grifo meu:
Art. 24. É vedada a concessão de incentivo a projeto desportivo:
I – que venha a ser desenvolvido em circuito privado, assim considerado aquele em que o público destinatário seja previamente definido, em razão de vínculo comercial ou econômico com o patrocinador, doador ou proponente; e
II – em que haja comprovada capacidade de atrair investimentos, independente dos
incentivos de que trata este Decreto.
Não sou especialista em legislação, mas entendo que o item I veda a concessão de incentivos a eventos fechados e particulares. Exemplo: vou fazer uma corrida de carros antigos aberta apenas a proprietários de Lada, com arquibancadas liberadas apenas aos funcionários da fábrica de biscoitos que me patrocina; ou: quero patrocínio para realizar uma prova de kart na Granja Vianna entre os ex-funcionários do Grande Prêmio patrocinada por uma marca de pneus.
O item II, no entanto, se essa Comissão Técnica fosse composta por gente com um mínimo de preocupação social, o que não parece ser o caso, eliminaria a proposta dos Fittipaldi, do clube de pólo, de todo e qualquer projeto visando a carreira de um piloto em qualquer categoria, de provas de hipismo (não teve uma daquela Onassis contemplada pela lei?), das centenas de picaretagens que devem pingar no ministério todos os dias para avaliação, elaboradas por escritórios especializados em fazer isso — acontece o mesmo na área cultural, está cheio de gente famosa QUE NÃO PRECISA buscando incentivos fiscais para fazer shows, peças, publicações.
O problema é que esse item II, por ser meio vago, pode ser contestado por quem propõe. É óbvio que os Fittipaldi, o clube de pólo e a Maria Bethânia, para mencionar um exemplo cultural, têm comprovada capacidade de atrair investimentos. Mas eles podem simplesmente dizer que não, que não têm, e como contestar senão recorrendo ao seu código de ética pessoal? E podem alegar que se o badminton e a natação podem recorrer a esses recursos, o automobilismo também pode. E é verdade.
Por isso esses projetos PASSAM na Comissão Técnica, e por isso gente que NÃO PRECISA disso pede, porque o mundo é dos espertos, não? E os espertos acham que têm o direito de pleitear o mesmo que o clubinho lá de Piraporinha do Bom Jesus, que precisa fazer uma quadrinha de futebol de salão para atender a comunidade, ou comprar meia-dúzia de bolas de vôlei.
Uma lei que incentive a prática esportiva e o fomento ao esporte não seria por si só uma ideia ruim, e o mesmo vale para a área cultural, se ela contemplasse APENAS OS QUE VERDADEIRAMENTE precisam recorrer a ela. Só que a lei, como escrevi acima, do jeito que foi elaborada, é uma ABERRAÇÃO que abre a todos, INCLUSIVE AOS QUE NÃO PRECISAM, a possibilidade de catar dinheiro por aí, dinheiro que poderia ser usado, se fossem pagos os impostos, inclusive para fomentar o esporte no país.
Diante de uma lei dessas, QUALQUER UM pode se achar no direito de tungar os cofres públicos, mesmo que indiretamente, para satisfazer seus projetos pessoais. Isso inclui, claro, os jogadores de pólo e os pilotos de corrida. Mas não só eles. Por isso que escrevi abaixo que demonizar o automobilismo é populismo barato. Uma lei dessas, para servir ao que deveria se propor, PASSA PELA ENVERGADURA MORAL de quem quer fazer uso dela, seja ele um dono de academia de judô nos cafundós do judas, seja um glorioso piloto montado na grana. Resumindo, é preciso mais envergadura moral de quem pede do que de quem concede.
E envergadura moral, no Brasil, é artigo raro.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.