SÃO PAULO (no outono o azul é mais azul) – Não sei se notaram, mas no post abaixo não emito nenhum juízo de valor sobre o que será feito em Interlagos. Apenas informo.
Assim, se querem minha opinião (e respondendo a alguns comentários), lá vai:
– Primeiro, ao Seixas, que toca o autódromo: quando falei que alguém devia avisar sobre o fechamento, não me referia à administração de Interlagos. Claro que clubes e federações sabiam, foram informados pelo autódromo. Quem não sabia eram os pilotos. Que deveriam ser avisados por clubes e federações. Afinal, a eles somos filiados. Os 800 mangos que nós, pilotos, pagamos pelas carteiras deveriam ser suficientes para os clubes ou a FASP, por exemplo, mandarem uma cartinha, ou um e-mail. Avisando que de 10 etapas, o Paulista caiu para sete. Prova maior dessa desinformação é o próprio site da FASP, nossa federação. Se alguém se der ao trabalho, procure o “Calendário paulista” no menu, abra a planilha em Excel e veja que as etapas estão todas lá, de julho, agosto, setembro… Vamos ver quando vão mudar, e quando vão noticiar o fechamento da pista.
– O valor de 30 milhões me foi passado por fonte bastante segura, e deve se referir à primeira fase toda. Portanto, incluindo as novas arquibancadas. Mas com 5,8 milhões acho difícil trocar todo o asfalto de Interlagos. Em todo caso, vamos aguardar que as contas se tornem públicas.
– Se acho que o asfalto de Interlagos deveria ser trocado inteiro? Acho que sim. Faz tempo. Não sou contra a obra. Nem contra o fechamento da pista, isso é necessário, de tempos em tempos. No post abaixo, de novo, apenas estranho o fato de clubes e federação ficarem na moita, sem avisar ninguém. Não estou criticando obra nenhuma.
– Arquibancadas permanentes: na reta dos boxes, ótimo. Desde que custem mais barato do que montar e desmontar todos os anos. Na reta oposta, é desnecessário. Nunca vão encher. Só a F-1 precisa delas. Então, os promotores do GP do Brasil que as construam, se quiserem. Nunca engoli o fato de a Prefeitura ter de pagar pela montagem e desmontagem das arquibancadas para a F-1, que é um evento privado. Ônus público, lucro privado. Sim, eu sei que a F-1 é benéfica para a cidade. Mas é benéfica também para os promotores. Na minha cabeça de português, a conta justa seria assim: a Prefeitura aluga seu equipamento, o autódromo, e os promotores que se virem para fazer nele sua corrida. Montem, desmontem, pintem, plantem flores. E devolvam tudo direitinho. O que acontece em São Paulo é que a Prefeitura paga a conta toda. Inclusive das arquibancadas para as quais são vendidos ingressos cuja receita fica para os promotores. Assim é fácil, até eu quero fazer uma corrida.
– Traçado antigo: sim, ele está quase todo lá. Não, não acho que voltará a ser usado um dia. Custaria caro refazê-lo, e não é uma prioridade. De ninguém. Por isso, já me daria por feliz se aquilo que lá está fosse preservado. Pelo menos pode ser visto e lembrado. Como as curvas inclinadas de Monza, que restam em seu silêncio profundo, sem uso, mas guardam histórias que só indo lá para sentir. É lá que encontro todos os anos os meus fantasmas. Olhar para a Ferradura, ou para as curvas 1, 2 e 3, juro, me conforta. Saber que elas ainda estão ali já me basta.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.