
Foto Diogo Moreira/Futurapress - publicada originalmente no iG
SÃO PAULO – Uma ciclista de 33 anos morreu hoje de manhã atropelada por um ônibus na avenida Paulista. Juliana Dias, bióloga, morava na Vila Mariana e trabalhava no Hospital Sírio-Libanês. Não encontrei muitos relatos sobre o que aconteceu. Nesse link aí há o depoimento de uma testemunha que diz que ela caiu da bicicleta depois de discutir com outro motorista de ônibus, e que o ônibus que a atropelou estava em velocidade normal.
Não vou chamar ninguém em particular de assassino, nem categoria nenhuma. Somos todos assassinos nesta cidade infernal. Anteontem, perto de onde moro, um outro ônibus passou por cima de um carro e matou duas pessoas. Era um desses articulados, que trafegam nos corredores exclusivos como se estivessem em pistas de corrida, que andam despinguelados, dirigidos por animais sem preparo, selvagens que não têm noção do que estão fazendo. Dirigem veículos pesadíssimos, difíceis de frear, se atiram para cima de todo mundo, e esse em particular não se importou com mais um semáforo quebrado na cidade (mais duas mortes para a conta do abandono que vive a metrópole), não quis nem saber, não deve ter sequer pensado em diminuir a velocidade para passar num cruzamento com semáforo quebrado, acelerou, matou dois. Motoristas de ônibus em São Paulo são assim, no Rio, também. Falo de onde mais conheço, onde essas coisas me parecem mais visíveis.
Ganham mal, têm péssimas condições de trabalho, passam o dia num trânsito louco dentro de ônibus barulhentos e quentes, têm todos os motivos do mundo para reclamar da vida, mas nenhum motivo para guiar feito psicopatas.
Que me desculpem os que não são assim, os há. Mas sejamos honestos: uma boa parte não tem condição de guiar nem patinete.
O mesmo com motoqueiros. Ando bastante de lambreta. É um terror diário. Os motoboys são seres ensandecidos, violentos, agressivos, hostis. Há várias categorias deles, com o tempo a gente aprende a identificá-los. Loucos, loucos, completamente loucos. Atualmente tem uma subdivisão que chamo de “tornozelinhos”, motoboys que andam com o pé esquerdo curvo na altura do tornozelo, para trocar marchas com a ponta do dedão, sei lá, com um certo desprezo pelos pedais, assim como o fazem com as mãos, que apenas se apoiam na manopla da esquerda como a dizer não, não uso embreagem para reduzir marchas, uma vez em velocidade de cruzeiro, é nela que vou, não freio esta merda, sai da minha frente, parece que querem demonstrar um domínio sobre a máquina que os outros não têm, trocando marcha com o dedão só quando for absolutamente necessário, e o pezinho em arco para dizer isso, e apenas resvalando suas mãos hábeis no guidão, porque empunhar manopla é coisa de viado lambreteiro. A única manopla que merece deles algum respeito é a direita, que acelera.
Uma vez li que os motoboys só existem porque nós, os usuários de seus serviços, temos pressa. OK, faz sentido. Mas a pressa não justifica o comportamento dessa gente.
Que me desculpem os que não são assim, os há. Mas sejamos honestos: uma boa parte não tem condição de guiar nem patinete.
Motoristas de carros são igualmente assassinos em potencial. Não respeitam faixas de pedestres, limites de velocidade, corredores de ônibus. Taxistas, madames, empresários, executivos, jornalistas, publicitários, médicos, somos todos animais armados que saem de casa de manhã dispostos a xingar, hostilizar, jogar o carro em cima dos outros. Um inferno incontrolável que o poder público insiste em desprezar.
E acabamos indiferentes a esta tragédia diária, preocupados que estamos apenas em terminar o expediente e chegar em casa vivos. O blogueiro Chico Bicudo notou que hoje de manhã os principais portais da internet estavam mais preocupados em chamar a atenção para o prejuízo que a morte da ciclista trouxe ao trânsito do que em se indignar com a selvageria de uma moça de 33 anos morrer atropelada na avenida mais importante da cidade. Citou, o blogueiro, a música de Chico Buarque. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego. “Construção” é de 1971. Somos indiferentes há muito tempo, não evoluímos nada.
No fundo, somos todos assassinos que só se incomodam quando alguém atrapalha o tráfego.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.