ITACARÉ (da força da grana…) – O Victor Penteado encontrou isso em algum arquivo de seu computador. Um convite dos construtores de Interlagos para conhecer a pista antes de ela ser asfaltada. É um recorte de 15 de abril de 1939. Diz o seguinte, na grafia original: A Sociedade Anonyma Auto-Estradas, pela sua Directoria abaixo […]
Publicado em 17/12/2021 às 18:21
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ITACARÉ (da força da grana…) – O Victor Penteado encontrou isso em algum arquivo de seu computador. Um convite dos construtores de Interlagos para conhecer a pista antes de ela ser asfaltada. É um recorte de 15 de abril de 1939. Diz o seguinte, na grafia original:
A Sociedade Anonyma Auto-Estradas, pela sua Directoria abaixo assignada, convida as autoridades, os technicos, os volantes do automobilismo e o público em geral, para darmos um passeio amanhã, domingo, às 15 horas, no Autódromo Interlagos, que ella projectou e está construindo, desde Setembro de 1938, data em que o público assistiu ao início dos trabalhos. Esta apresentação da pista, a que assistirão Directores e technicos do Automóvel Club do Brasil, organizadores das corridas da Gávea, é realizada, intencionalmente, antes do seu asfaltamento, para poderem ser aproveitadas as suggestões que possam tornar mais perfeito o Autódromo Interlagos, destinado a ser, num futuro próximo, a maior atracção turística da nossa Capital.
Ainda bem que ninguém sugeriu nada, e assim nasceu um dos mais belos e completos traçados do mundo, mutilado em 1990 para que a F-1 permanecesse no Brasil. Notem que o projeto original do complexo esportivo tinha piscina, quadras de tênis e um estádio, além de restaurantes, estacionamento para dez mil carros e várias arquibancadas espalhadas pelo circuito.
Coloco isso no ar para lembrar da beleza de Interlagos, um autódromo privado que acabou sendo comprado pela Prefeitura e hoje pertence à cidade de São Paulo. Lembrança que ofereço a vocês no mesmo dia em que começaram a destruir o autódromo de Curitiba, em Pinhais, equipamento esportivo do final dos anos 60 que pertence a um grupo privado e há anos vive sob a ameaça de fechamento.
Pois Curitiba acabou. Os tratores começaram a quebrar a pista e o terreno vai virar condomínio. Noto uma revolta no meio automobilístico. Oh, como podem fazer isso?
O meio automobilístico precisa se decidir. Pilotos, empresários, patrocinadores, promotores, donos de equipes e muitos jornalistas especializados formam uma massa alinhada ao que se chama de pensamento liberal (para não xingar todo mundo de bolsonarista, mesmo, já que um ou outro ainda se salva), privatista, defensor do “estado mínimo”, que prega o fechamento de estatais, demoniza funcionários públicos e políticos em geral, e muitos ficam com o peruzinho quase ereto cada vez que alguém fala em privatizar Interlagos, por exemplo, “porque a prefeitura é uma merda, ninguém cuida daquilo, governo só serve para atrapalhar, tem mais é que vender, mesmo”.
Pois os donos do autódromo de Curitiba venderam. Não tem poder público ali. O circuito não é de prefeitura alguma, de governo nenhum. Vão dar chilique, agora?
É o capitalismo, estúpido.
Vendo as imagens hoje, de alguns vídeos que estão circulando por aí, dá para ficar com raiva de um babaca que não sei quem é que passa filmando os boxes dizendo, com sotaque sulista e enorme satisfação, que vão derrubar tudo aquilo ali. E dá quase para se comover com um sujeito, que igualmente não sei quem é, se metendo embaixo de um trator, ou de uma retroescavadeira, para defender aquele asfalto onde deve ter corrido, ou que lhe proporcionou bons momentos em tantas provas disputadas na pista paranaense.
Eu achava a pista ótima e o autódromo, idem. É uma pena que acabou. Pena mesmo, praças esportivas não deveriam ser destruídas. Mas a quem cabe estabelecer políticas para que isso não aconteça? Ao poder público. Ao Estado. Mas a gente das corridas não gosta que o Estado se meta em nada. A quem caberia agir para tentar evitar o fim do autódromo, com gestões junto aos seus proprietários, um trabalho de convencimento, alguma coisa assim? Aos dirigentes do automobilismo.
Alguém fez alguma coisa?
Se fez, não adiantou. Os privatistas que correm de carro pelo Brasil se propuseram a comprar a pista? Essa turma que faz campeonatos fechados (usando equipamentos públicos, inclusive) sem presença de torcida, eventos particulares, fizeram alguma proposta pelo terreno? Não que eu saiba. Agora vão ficar revoltadinhos com o quê, exatamente? Com o “sistema”?
Eu fico apenas triste. Ganhei até corrida em Curitiba. Foi em 2016 com meu simpático Voyage, e já naquela época diziam que era o último fim de semana de atividades no autódromo. Ainda sobreviveu mais cinco anos, e conseguiram uma liminar hoje para interromper a demolição. Acho que é um caminho sem volta.
Tem até vídeo da minha corridinha. Está aí embaixo. E é com ele que me despeço de um traçado histórico que, simplesmente, não resistiu à história. À história da grana que ergue e destrói coisas belas. Grana privada que o meio automobilístico considera acima do bem e do mal, porque “o Estado se mete em tudo”.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.