
SÃO PAULO (gosto dessa palavra) – Eu, claro, já desisti de colocar a boca no trombone. Mas não posso deixar de registrar reportagem do UOL sobre o legado da Indy em SP, que se traduz em guard-rails, zebras e blocos de concreto abandonados no entorno do Anhembi. Porque um cara da SPTuris teve a manha de dizer que aquilo é… atração turística!
Puta que pariu. Mostrem-me uma alma, uma só, que foi até o Anhembi para ver de perto os históricos guard-rails abandonados da Indy, que encerro a carreira aqui.
Meses atrás, quando comecei a chiar por conta desses esculacho urbanístico, o então (ou atual, sei lá) secretário de Esportes Walter Feldman entrou no meu Twitter para contestar a chiadeira e garantiu que estava em curso uma licitação para a “retirada dos equipamentos”. Isso foi em maio. Era uma evidente mentira, porque agora a SPTuris diz que nada vai ser retirado e tal.
Uma vergonha, mais uma, para esta cidade que há anos é tratada assim por suas autoridades. Eles fazem o que querem, mentem descaradamente, passam o dia pensando em proibir coisas e fiscalizar a vida privada de todo mundo (cigarro, luminosos, puteiros, radares, inspeção veicular, ônibus fretados, motocicletas, outdoors, relógios digitais, tudo é alvo, sem critério algum, sem discussão pública, autoritarismo puro) e não fazem picas.
Para se ter uma ideia, no começo do mês, dia 3, entrei com processo na Secretaria do Verde e do Meio-Ambiente para solicitar isenção da inspeção para meus carros com motores dois tempos. Não que eu não quisesse levá-los, apenas pelo prazer sádico de entupir as máquinas da Controlar, esse consórcio privado que virou uma fábrica de dinheiro para fazer aquilo que o Estado deveria fazer sem cobrar nada, já que o que não falta por aqui é imposto para ter carro (IPVA, licenciamento, seguro obrigatório, pedágios, multas). É que fui orientado pela própria Controlar a fazer isso, porque seus equipamentos não estão preparados para medir a fumaça dos dois tempos.
Hoje é dia 30, e até agora não me deram resposta, os processos estão parados. E são dificílimos de analisar… É preciso olhar a marca do carro e conferir se seu motor é dois tempos ou não. Algo que levaria, digamos, uns dois minutos. Aqui, justiça seja feita: o pedido de isenção para minha Lambretta, que não necessita de abertura de processo (com motos o procedimento é diferente, não me perguntem por quê), foi resolvido rapidinho.
Isso significa que não posso licenciar meus DKWs e meu SAAB. E, portanto, não posso rodar com eles. E como alguns já passaram do prazo do licenciamento, é possível que meu nome seja enviado à Fazenda do Estado porque estou atrasado com minhas obrigações, e assim tornar-me-ei um inadimplente aos olhos do governo.
Esta cidade é um inferno.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.