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Pole polêmica de Russell dá chance ao inglês de reagir no Mundial

Flavio Gomes

Publicado em

SÃO PAULO (tá feito) – “Até quando a Mercedes tira o pé é mais rápida que a gente?” Quando Frédéric Vasseur, chefe da Ferrari, disse isso, todos que o entrevistavam caíram na gargalhada. Foi logo depois de encerrada a classificação para o GP da Áustria, que deu a George Russell sua quarta pole nesta temporada.

O caso: Charles Leclerc detinha a pole provisoriamente no Q3 quando o cronômetro foi zerado. Muitos pilotos ainda estavam na pista para fechar suas voltas. Então, na curva 9, a penúltima do circuito, Max Verstappen rodou e bateu. Russell vinha logo atrás dele. Passou pelo local do acidente e fechou a volta com o pé cravado. Superou o tempo de Leclerc, enquanto os mecânicos da Ferrari comemoravam a pole do monegasco – afinal, havia bandeiras amarelas espalhadas pela pista, piscavam painéis luminosos, alertas eram enviados pelos celulares.

Vasseur: “Mesmo tirando o pé eles são mais rápidos que a gente?”

Que nada. Se os que vinham mais atrás abortaram suas voltas, Russell, o primeiro a passar pelo ponto onde restava fumegando o carro de Verstappen, o fez sutilmente e seguiu em frente. Essa sutileza foi suficiente para se defender de eventuais acusações de irregularidade. “Perdi dois décimos e meio, meu tempo seria meio segundo melhor”, descreveu com precisão. Aqui cabe a ressalva: o piloto tem essas informações, bem exatas, no painel do carro. A cada trecho, é mostrada sua diferença em relação à melhor volta anterior. Ele sabia que, até aquele ponto, sua volta estava sendo 0s5 mais rápida. E terminou sendo 0s25 melhor.

Os carros que estavam, fisicamente falando, mais distantes nas suas voltas, desaceleraram antes ou desistiram de suas voltas, perdendo a chance de melhorar seus tempos. Entre eles, Kimi Antonelli. O italiano, companheiro de Russell na Mercedes, teve de se contentar com um quarto lugar no grid, ainda atrás de Lewis Hamilton. A primeira fila foi confirmada, mesmo, com Russell e Leclerc. Kimi disse que foi um “erro de avaliação” ter abortado sua volta. Segundo o chefe Toto Wolff, o líder do campeonato “achou que eram bandeiras amarelas duplas”.

Amarela no local: Russell tira o pé e depois acelerar para a pole

Nesse caso, vale a explicação. No caso de bandeira amarela simples, o piloto precisa provar que diminuiu a velocidade, seja freando, seja tirando o pé do acelerador – o que é facilmente verificado pela telemetria dos carros. Isso feito, pode até melhorar seu tempo de volta que nada acontece. Em caso de bandeiras amarelas duplas, que indicam perigo maior, se o tempo de volta for o melhor do piloto na sessão é cancelado.

O sábado quentíssimo e ensolarado de Spielberg começou com Russell e Antonelli nas duas primeiras posições do último treino livre, confirmando o favoritismo da Mercedes nessa prova. Os dois, separados por 0s038. Hamilton ficou 0s115 atrás e o resto a distâncias muito grandes. Isack Hadjar, o oitavo, a 0s816. Lance Stroll, o último, a 3s471. Cito tais números de um treino livre, geralmente não muito relevantes, apenas para mostrar como o novo regulamento espalhou os carros em termos de performance. Fiz uma rápida, rapidíssima, pesquisa atrás dos tempos nos treinos livres do ano passado na Áustria, última temporada da geração de carros iniciada em 2022. “Dos treinos” é apenas jeito de dizer. Teve só um, na sexta, porque o GP austríaco era um dos que previam provas Sprint. Se alguém tiver curiosidade, estão todos aqui, mas o que interessa é um dado: de Russell, o mais rápido com 1min05s542, a Esteban Ocon, 19º, a diferença foi de 0s968. Oliver Bearman, o último, ficou a 1s196 dele.

Neste ano, como se viu, essas diferenças aumentaram barbaramente. Do primeiro ao último é normal observar abismos que vão de 3s a 4s. E há blocos bem definidos, com diferenças intransponíveis. Do primeiro ao quarto, do quinto ao décimo, do 11º ao 16° e por aí vai. Resumindo, não há equilíbrio.

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Os três primeiros no grid: Leclerc, Russell e Hamilton posam para foto

No Q1 de hoje no autódromo da Red Bull – que nasceu como Österreichring, foi chamado de Zeltweg durante muito tempo, depois de A1 Ring, e hoje, para não usar o nome do energético, pode ser chamado de Spielberg, o município ao qual pertence –, Antonelli fez 1min07s083 e foi o mais rápido, seguido por Lando Norris, Hamilton, Liam Lawson e Russell nas cinco primeiras posições. Gabriel Bortoleto foi o 12º. Os eliminados foram Carlos Sainz, Alexander Albon, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Fernando Alonso e Stroll. O de sempre: as duplas de Cadillac e Aston Martin e mais dois zé-manés que variam de corrida a corrida. Desta vez foram os da Williams. E o time verde de Lawrence Stroll, o que mais gasta dinheiro à toa na F-1, já é oficialmente o pior de todos. Até a estreante Cadillac está andando mais.

Fez um calor senegalesco na região de Spielberg, Zeltweg & redondezas – eu me hospedava em Knittelfeld e dava para ir de bicicleta para a pista, mas nunca fui porque não tinha bicicleta. Os termômetros lambiam os 30°C e no asfalto dava para fritar um ovo. Ou ferver o leite numa caneca. Coisa rara naquele pedaço montanhoso e ameno do mundo. A Europa vive a mais rigorosa onda de calor da história, com temperaturas ultrapassando os 40°C em vários países.

O primeiro a baixar de 1min07s no fim de semana foi Antonelli, no Q2: 1min06s763 em sua primeira volta, mostrando que ele e a Mercedes tinham sobra de performance. Outros fizeram o mesmo, mas andando no limite do desempenho de seus carros. Russell levou uma chamadinha de Toto Wolff pelo rádio: “George, apenas dirija”, disse o chefe ao seu resmunguento piloto. O segmento terminou com as degolas de Pierre Gasly, Bortoleto, Bearman, Nico Hülkenberg, Ocon e Franco Colapinto. Avançaram, pela ordem, Antonelli, oscar Piastri, Norris, Russell, Hamilton, Leclerc, Hadjar, Lawson, Arvid Lindblad e Verstappen. O holandês bateu na trave da eliminação e foi salvo por 0s040.

Verstappen bate: polêmica na pole

No Q3, porém, Max operou algum tipo de milagre em sua primeira volta, fechando o cronômetro em 1min06s475. Foi um espanto. OK, Antonelli e Russell bateram o piloto da Red Bull logo depois: Kimi foi 0s061 melhor e George, 0s043. Mas o tempo do tetracampeão foi, realmente, excepcional.

A primeira bateria de voltas rápidas terminou com Mercedes na primeira fila e Hamilton sem tempo de volta por ter errado a sua. A disputa pela pole estava aberta entre a dupla do time alemão, com Max à espreita. Os demais pareciam muito distantes.

Lewis virou 1min06s408 em sua única tentativa. Leclerc melhorou o tempo em 0s059 e foi para a ponta. E, aí, o momento decisivo da classificação: Verstappen bateu na curva 9, a penúltima do circuito. O cronômetro estava zerado e todos que estavam atrás dele ainda faziam suas voltas voadoras. Tiraram o pé do acelerador, alertados sobre o acidente. O pessoal da Ferrari comemorou. Mas quem vinha imediatamente depois de Verstappen, Russell, passou pelo local da batida e fechou a volta com o melhor tempo, 1min06s113.

O grid na Áustria: Antonelli em quarto

Foi um pandemônio, embora tenha durado pouco tempo. George fechou a volta depois de passar por uma bandeira amarela e alegou que aliviou na última curva, perdendo alguns décimos de segundo. A direção de prova avisou que iria investigar, mas logo depois informou que a investigação não seria necessária. George teve sua pole confirmada, a 11ª na carreira. Leclerc ficou em segundo a 0s236 dele. Hamilton foi o terceiro, com déficit temporal de 0s295. E Antonelli larga em quarto, com um tempo de 0s301 pior que o da pole de seu companheiro. Verstappen ainda ficou em quinto, seguido por Norris, Piastri, Hadjar, Lawson e Lindblad.

O GP da Áustria pode iniciar uma reação de Russell na luta pelo título. Novo revés diante de Antonelli será fatal para suas pretensões. Será uma corrida desgastante fisicamente por causa do calor e de desfecho incerto por conta das estratégias de pneus. Serão duas paradas para todos, no mínimo, mas ninguém sabe direito com qual composto começar e com qual terminar as 71 voltas. Tem sempre a chance de um safety-car. Pode acontecer qualquer coisa.

Mesmo assim, a Mercedes é favorita. E George, na pole, se dá o direito de achar que é, também.

A ver.