Russell: segunda vitória no ano, sétima na carreira

SÃO PAULO (divertido) – George Russell está vivo no campeonato. O inglês venceu o GP da Áustria com autoridade e descontou mais dez pontos de Kimi Antonelli na luta pelo título mundial da F-1. Depois de uma sequência de cinco sapatadas que levaram o italiano a abrir 68 pontos na tabela após o GP de Mônaco, Russell reagiu e tirou 28 nas últimas duas etapas. Kimi abandonou em Barcelona e ele chegou em segundo; hoje, seu jovem companheiro da Mercedes terminou em terceiro, atrás ainda de Max Verstappen. O placar aponta, agora, 171 a 131 para Antonelli. A vantagem sobre Russell, de novo vice-líder, caiu para 40. Lewis Hamilton ficou em quinto na corrida austríaca e tem 125 pontos, de novo em terceiro na classificação.

Foi a segunda vitória de seu Jorge no ano, sétima na carreira. A Mercedes segue dominando a temporada com sete triunfos em oito etapas. Fez também todas as poles. Vai ser campeã, claro. A questão é saber qual dos dois levanta a taça no fim do ano.

“Ah, mas e a Ferrari, que teve o ADUO e tem a asa macarena e eu vi no Insta e no TikTok que os discos de freio do…”

Gente… Deixa eu dizer uma coisa procês. Existem os “conteúdos” na internet e a vida real. A vida real, felizmente, é bem diferente dos conteúdos da internet. Fala-se muita bobagem, é preciso gravar todo dia para engajar e monetizar, todo mundo caga regra sem saber do que está falando. Não há milagres em corridas de automóvel. Há algumas surpresas de vez em quando, claro, e ainda bem que é assim. A vitória de Lewis na Espanha há duas semanas foi dessas. Vários fatores levaram a ela: estratégia ousada de três paradas, pilotagem agressiva, disputa fratricida da Mercedes, safety-car virtual na hora certa… Tudo isso no liquidificador deu em Hamilton no topo do pódio.

Hoje os ferraristas ficaram em quinto e oitavo. Mesmo tendo largado em segundo e terceiro. Com ADUO, discos de freio comprados no MercadoCar, asa sei lá das quantas, as famosas atualizações… A realidade se impõe. Sempre.

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Hamilton x Verstappen: bons duelos, vencidos pelo holandês

Vamos à corrida, que foi boa e teve algumas atuações de destaque — especialmente de Verstappen, que largou em quinto e foi buscar o que lhe cabia correndo diante de uma multidão vestida de laranja.

Russell largou bem, o que era absolutamente necessário para determinar o ritmo da prova. Ele precisava, sobretudo, que Antonelli se embananasse atrás das duas Ferrari, para que pudesse escapar na frente com alguma segurança para assumir o controle do GP, previsto para 71 desgastantes voltas. E Kimi, para sua sorte, começou a corrida de forma errática. Nas duas primeiras voltas, fez a curva 1 pelo acostamento. Perdeu duas posições: para Charles Leclerc, a quem tinha superado na largada, e Verstappen, que percebeu a escapada e aproveitou para ultrapassá-lo. Hamilton, na primeira volta, conseguiu deixar Chaleclé para trás e assumiu o segundo lugar, saindo à caça de Russell.

George tinha de abrir, ir embora, fugir de todos. Na volta 5 conseguiu colocar 1s sobre Lewis, o que o livrava da ameaça do “modo ultrapassagem”, seja lá o que for isso. Dois carros, àquela altura, já estavam nos boxes em chamas — exagero dizer “em chamas”, mas tanto Valtteri Bottas quanto Sergio Pérez, da Cadillac, pararam com superaquecimento dos freios e abandonaram.

Largada na Áustria: Russell pula na frente e controla a prova

Fazia um sol de rachar em Spielberg, com a maior temperatura do fim de semana, 35°C e sensação de Bangu no verão carioca. No asfalto fumegante, 50°C. Antonelli só foi passar Leclerc na volta 7. Mais à frente, Verstappen colou em Hamilton na 8ª. A Ferrari sofria com o calor e os pneus. George já tinha 2s4 em cima do heptacampeão e seguia firme. Na décima volta, essa diferença subira para 3s. Russell, Hamilton, Verstappen, Antonelli, Leclerc, Oscar Piastri, Lando Norris, Isack Hadjar, Liam Lawson e Arvin Lindblad eram os dez primeiros. Bortoleto vinha em 11º. Sem querer dar spoiler, esses 11 aí chegaram ao fim nas 11 primeiras posições. Alguns mais à frente, outros mais atrás. Outros, ainda, no mesmíssimo lugar.

Max e Hamilton começaram a trocar posições na volta 11, um passando o outro e o outro passando o um, num espetáculo que deixou todo mundo no autódromo de pé e foi, sem dúvida, um dos bons momentos da corrida. O holandês, em determinado ponto, entrou no rádio e pediu pênalti. “O VAR está checando”, informou o engenheiro. Lewis, que levara a melhor na batalha, parou na volta 13 e colocou pneus duros. Ele, como quase todos, havia largado com os compostos médios – apenas Bortoleto e Sainz saíram com macios. Leclerc veio logo depois. A Ferrari #44 voltou em décimo e a #16, em 11º.

Lewis não perdeu muito tempo atrás de Bortoleto e assumiu o nono lugar, partindo para cima da turma que estava à sua frente. Seu alvo era Verstappen, o segundo colocado. Quando o rubro-taurino parasse, Hamilton tentaria recuperar a posição. Mas a verdade é que os carros vermelhos fizeram o primeiro pit stop cedo demais, antecipando uma estratégia de três paradas que sei lá, viu… Três paradas numa pistinha curta como a austríaca significa devolver seu carro à pista sempre no meio do tráfego. Não é a ideia mais brilhante do mundo.

De qualquer forma, Max parou na 19ª volta e o que a Ferrari previu aconteceu: Lewis passou de novo.

George pouco antes da primeira parada: largou de médios e colocou duros depois

Volta 20, Russell nos boxes. Pneus duros para ele, para responder imediatamente às paradas de Hamilton e Verstappen. Voltou à frente de ambos. Antonelli e Norris assumiram as duas primeiras posições, mas precisando trocar pneus. George, apesar do bom início, não tinha paz. Estava apenas 1s7 à frente de Hamilton, que por sua vez tinha 0s6 sobre Verstappen. Ia dar briga.

E deu, na volta 22. Max e Lewis se encontraram novamente, e novamente um passou o outro, o outro passou o um e o um passou o outro mais uma vez. “Um” é Verstappen, “outro” é Hamilton. O inglês resistiu mais pela reputação que qualquer outra coisa. Quando concluiu a última ultrapassagem, o holandês respirou fundo e se mandou. O ritmo de corrida da Ferrari não era grande coisa.

Na volta 25, Antonelli parou. Deu azar. Se fizesse o pit stop na volta seguinte, ganharia a parada quase de graça porque Carlos Sainz tinha quebrado naquele exato instante. Assim que Kimi concluiu a troca, o safety-car virtual foi acionado para retirar o carro do espanhol, que parou junto à mureta do pit-lane. Hamilton foi chamado para um segundo pit stop. “Vocês me chamaram tarde”, lamentou o piloto, que já tinha passado pela entrada dos boxes. “Tentamos…”, respondeu seu engenheiro de sotaque engraçado, Carlo Santi, 52 anos e uma longa folha de serviços prestados à Ferrari – foi o engenheiro de Kimi Raikkonen lá pelos idos de 2016. Mas Hamilton ainda conseguiu parar na volta seguinte e colocou pneus macios. Voltou em sétimo.

A prova foi retomada na volta 27. Russell liderava com 5s2 para Verstappen. Leclerc era o terceiro e Antonelli, o quarto. Kimi, com pneus mais novos – tinha parado dez voltas depois que Charles –, acabou superando o monegasco na volta 30 sem muita dificuldade. George se mantinha na ponta, mas a conta-gotas Max ia se aproximando. Na volta 35, a distância era de apenas 3s2. Era melhor se preocupar. Ainda tinha metade da corrida pela frente.

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Verstappen: ritmo forte, segundo lugar no final

Correndo em casa, empurrado pela torcida – mentira, torcida não ganha corrida –, Verstappen apertava o ritmo e já via Russell à frente sem precisar de binóculos. “Vejam bem…”, começou George no rádio. “Um momento, George, estamos vendo uma briga pela TV”, respondeu Toto Wolff. No caso, era uma disputa tripla entre Piastri, Hamilton e Leclerc. Valia a quarta posição. A refrega deu em Piastri na frente, Hamilton atrás e Charlinho no box para trocar pneus ao final da volta. Só então o piloto da Mercedes foi chamado de volta. “Diga, George, o que deseja?”, retomou a conversa Toto Wolff. “Vejam bem…”, continuou o piloto, sendo interrompido de novo. “Momentinho, George, a briga está boa”, pediu o chefe da Mercedes. Agora era Hamilton para cima de Piastri.

Russell poderia ter problemas. Além de não conseguir discorrer sobre a situação pelo rádio com seu habitual palavrório prolixo e demoroso, via Verstappen se aproximar rapidamente. Hamilton e Piastri foram para os boxes na volta 43. Para Lewis, era a terceira visita. Para Oscar, a segunda. Então, na volta 44, Russell trocou seus pneus para não ser ultrapassado na pista por Verstappen. Ali estava a briga pela vitória. Um olho no gato, no caso o bonitão George, de fato um gato, e outro no peixe, no caso Max — de alcunha “boca de tilápia” entre os que não simpatizam com sua figura.

Naquele momento da prova, mesmo com pneus já bem rodados, quase carecas, quem andava bem era Antonelli, segundo colocado. Se aproximava rapidamente de Verstappen, o líder, ambos ainda com uma parada por fazer. Na volta 49, a diferença caíra para 0s9. E Max percebeu que seria jantado pelo italianinho se não tomasse alguma atitude. Foi para os boxes e colocou mais um jogo de pneus duros. Voltou em terceiro.

Russell assumiria a ponta de novo, mas teria um final de prova bem tenso, com pneus mais gastos que os de Verstappen e, sobretudo, piores que os de Antonelli, que se mantinha na pista esticando o segundo stint. Kimi foi chamado aos boxes na volta 52. Voltou em terceiro. Seus pneus eram oito voltas mais novos que os do companheiro de equipe. Mas, antes de pensar em qualquer coisa, precisaria passar Verstappen, o segundo. Russell, então, acendeu uma vela para Max. Como se sabe, ele prefere ver o capeta pintado na camisa azul da seleção brasileira do que Antonelli pintado de ouro.

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Hamilton, três paradas: ritmo de corrida ruim para a Ferrari

Volta 55, faltavam 16 para o final, e o retrato de momento era Russell, Verstappen a 8s4 dele, Antonelli a 4s8 do holandês, e depois Piastri, Hamilton, Leclerc, Hadjar, Norris, Lawson e Lindblad na zona de pontos. George tinha feito uma volta esquisita pouco antes, mas ninguém na Mercedes se incomodou muito. “Vejam bem…”, o piloto entrou no rádio. “George, um segundinho só que estamos vendo os gols de Áustria e Argélia”, pediu o engenheiro. “Quanto foi?” “Empatou 3 a 3, e Toto quer ver todos os replays. Se puder chamar daqui a pouquinho…” Russell suspirou, mas tentou mostrar alguma familiaridade com o tema. “Agora pega a Espanha, né?” Ao que o Toto Wolff lhe chamou a atenção: “George, por favor, não é hora de falar de futebol, apenas dirija”.

Não, não seria nada tranquila a reta final da corrida para o inglês. Verstappen e Antonelli forçavam bem o ritmo e na volta 61, a dez do final, o #63 da Mercedes tinha só 5s6 de vantagem sobre o #3 da Red Bull, que por sua vez estava 3s9 à frente do #12 da Mercedes. Naquela toada, os três chegariam à bandeira quadriculada um embutido no rabo do outro.

Russell, Verstappen e Antonelli apareceram na mesma foto na volta 68 na reta dos boxes. Terminariam, sim, muito próximos. Estavam separados por 3s5, do primeiro para o segundo, e 2s1, do segundo para o terceiro. Àquela altura, porém, George dava a impressão de que controlava as coisas. Max, menos: Antonelli teria pelo menos uma volta com a possibilidade de usar um daqueles botões de ultrapassagem sobre os quais pouco se fala atualmente – bem menos do que se falava sobre a asa móvel em priscas eras.

Classificação final na Áustria: Mercedes venceu sete de oito corridas no ano

Mas não conseguiu. De fato os três receberam a bandeirada no mesmo enquadramento das câmeras, com Russell em primeiro 1s6 à frente de Verstappen, que por sua vez viu a quadriculada 0s3 antes de Antonelli. Piastri, Hamilton, Hadjar, Norris, Leclerc, Lawson e Lindblad foram os dez primeiros. Bortoleto foi o 11º. Aqueles 11 lá de cima. Eu já tinha dado o spoiler.

No pódio, a surpresa foi Bernie Ecclestone, que já havia aparecido na transmissão da F1TV na hora da execução do hino austríaco, antes da largada. Aos 95 anos, o ex-dono da F-1 colocou a medalha no peito de Russell e fugiu quase correndo do banho de champanhe – não se pode exigir muita velocidade de um nonagenário. O mais aplaudido pelo público foi Verstappen, que acabou sendo o destaque da prova com um pódio improvável diante do favoritismo de Mercedes e Ferrari desenhado nos treinos e na classificação.

Semana que vem tem mais, em Silverstone. Com Sprint. Se Russell aproveitar o momento, são duas chances de tirar pontos de Antonelli. Mas que seus torcedores não se iludam demais. Kimi não parece ter se abalado minimamente com as duas “derrotas” de Barcelona e Spielberg. Entre aspas, mesmo, porque na Espanha ele quebrou quando estava na frente do companheiro. E, na Áustria, apenas teve um fim de semana ruim. Mesmo assim, chegou em terceiro. E não tem nem seleção para se preocupar. A Inglaterra de Russell tem duas babas agora, mas depois é capaz de pegar Brasil ou Noruega, e mais à frente, a Argentina. Um filme de terror.

Já a Itália de Antonelli está de férias de Copa do Mundo desde 2014.