SÃO PAULO (tudo acaba) – Não seria honesto dizer que fecharam meu cinema. Tenho um escritorinho neste prédio há 14 anos e fui uma única vez ao Gemini nesse tempo todo. Nem lembro o que fui ver. Mas antes, bem antes, costumava, sim, assistir a uma fita ou outra numa das duas salas. Confortáveis, grandes, com cheiro de pipoca. Gemini. É um ótimo nome para um cinema. Na porta do prédio na Paulista e na outra entrada da galeria, pela Joaquim Eugênio de Lima, havia sempre um letreiro com as atrações em cartaz. Sempre dois filmes. Foi assim desde 1975, quando o edifício Sir Winston Churchill foi entregue à cidade, com sua fachada de mármore e aparelhos de ar-condicionado espetados nas janelas. Um belo prédio, que atravessa o quarteirão e tem uma terceira entrada, pela alameda Santos. No coração da metrópole. No centro do universo, bem no meio da Paulista, onde tudo acontece. Onde se comemoram títulos de futebol, onde Lula fez seu primeiro discurso, nas escadarias da Gazeta, depois de eleito em 2002. Onde acontecem manifestações, passeatas, carreatas, quebra-quebras. O centro do universo.
Não, não seria honesto dizer que fecharam meu cinema. Eu não era um habitué. Mas sempre foi reconfortante chegar todos os dias para trabalhar e observar os cartazes na porta, para prometer a mim mesmo que aquele filme eu veria amanhã, ou depois, e nunca via, mas eles estavam sempre lá. Era reconfortante ver na bilheteria as meninas quase sempre mal-humoradas esperando pela plateia que também nunca chegava. Era reconfortante ver, no meio da tarde, casais clandestinos esgueirando-se pelo saguão e subindo as escadas rápido para sessões quase particulares ao cheiro da pipoca e com gosto de drops Dulcora. Existem ainda os drops Dulcora?
Foi ontem, não sei bem com quantas pessoas em suas poltronas já puídas, assim como o carpete colorido, anos 70 na veia, psicodélico, moderno, que o Gemini fechou. Eram duas salas para 379 pessoas cada. Um sobrevivente da era em que os cinemas ficavam nas ruas. Na verdade, de uma segunda leva, já. O Gemini não era propriamente um cinema de rua. Ficava na galeria comercial de um prédio, assim como havia alguns outros em shoppings da Paulista, assim como ainda sobrevivem algumas salas no Conjunto Nacional. Quando foi inaugurado, os cinemas de rua do centro da cidade já viviam seu ocaso. Hoje, os cinemas estão nos shoppings monumentais com seus sistemas de som Dolby, imagens em 3D e combos de pipoca e refrigerante que custam mais que a entrada. Veja o filme e compre a calça jeans na saída.
Parece que havia anos que os donos das salas não pagavam aluguel, ou contestavam valores na Justiça, ou tentavam expulsá-los do prédio, queriam fazer uma igreja, uma dessas brigas sem fim. E enquanto os tribunais não resolviam as questões, o cinema permanecia aberto para quase ninguém, e uma hora a conta não fecha, mesmo. E se a conta não fecha, que se feche o cinema. Vão-se as moças da bilheteria, o cara da pipoca, a menina que vendia drops Dulcora, o operador dos projetores. Cinema Paradiso.
Passei por lá agora. Há um cartaz feito numa impressora de computador. ATIVIDADES ENCERRADAS, diz o papel fixado pelo lado de dentro do vidro fumê da bilheteria, com um endereço de e-mail embaixo para quem quiser alguma informação.
Desconfio que ninguém vai querer informação nenhuma. Desconfio que só eu me importo com essas coisas.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.