MONTEVIDÉU (sempre chega) – Tivéssemos de fazer um relatório mecânico da Kombosa até agora, com mais de 2 mil km rodados desde sábado, seria necessário anotar: 1) boia do carburador travada; 2) fio do alternador solto; 3) para-sol do lado do motorista quebrado; 4) escapamento furado.
Para o primeiro problema, fomos ao Rodrigo, mecânico da Pinheira, do lado da Guarda. Talvez seja preciso desmontar o carburador, disse. Mas não vou conseguir fazer isso hoje, emendou. Como estava pingando gasolina, achei que deveríamos fazer algo. Ele pegou um bico de ar, colocou numa mangueira e assoprou. E sugeriu que fôssemos ao Rigatoni, mecânico do lado, não sei bem se o nome era esse.
Fomos. Estacionei no Rigatoni, abri a tampa do motor, o vazamento parou e a marcha lenta estava OK. Resumo do primeiro problema: se auto-resolveu, como tudo em carros antigos. Fomos para a estrada. A esticada era longa, exatos 666 km até Pelotas, e saímos às 14h, quando o plano inicial era deixar a Guarda às 9h. Mas atrasamos por causa do meu rim, ou algo assim.
Já na BR, acende a luz do alternador. Ora, ora. Paramos no primeiro posto onde havia um auto-elétrico. Abrimos a tampa do motor, um fio solto. Trocamos um terminal, prendemos o fio, gastamos 10 reais. Resumo do segundo problema: não era um problema.
O para-sol, eu que quebrei. Estava para quebrar há um bom tempo, em São Paulo troco. Já o escapamento, foi aqui perto, já, a uns 60 km de Montevidéu. O barulho aumentou, pode ter furado, pode ser uma junta. Veremos amanhã com especialistas no assunto, o que não falta por aqui.
O rim. Era terça de manhã, ontem, estava tudo pronto para picarmos a mula quando senti uma pontada no lado esquerdo da barriga. Aí começou a doer de verdade e Aguena, esta santa, arrumou transporte para me levar a um hospital.
Fomos parar no posto de saúde da Pinheira, do SUS. Em menos de 20 minutos eu estava medicado e assistido, e foi um jovem médico paraense quem fez o diagnóstico e acertou na mosca. Das 10h ao meio-dia fiquei me contorcendo de dor e queria morrer. Só quem tem essas cólicas renais sabe como dói. É foda. Aí, de repente, ela para. Não sei se é pedra, cálculo, picas. Sei que, do nada, a dor some, você levanta, agradece às enfermeiras e vai embora.
Foi o que fizemos. Ah, mas você foi no SUS? E seu plano de saúde premium-master? Não precisei dele. O SUS me atendeu perfeitamente, e o rapaz do Mais Médicos foi preciso e eficiente. Uma hora depois de sair do posto de saúde estávamos na Kombi despencando rumo ao sul do sul.
Mas não foi uma viagem fácil. Primeiro, um susto dos infernos chegando a Porto Alegre, na tal da Freeway. Escura, hostil, desprovida de serviços, e a uns 15 ou 20 km da entrada da cidade levamos uma pedrada. O barulho foi terrível, parecia que tinham explodido uma garrafa na minha porta. Olhei pelo espelho e vi dois ou três vultos atravessando a pista. Tentativa de assalto, claro. Miraram no vidro.
Quando paramos para abastecer, vimos onde a pedra acertou. No friso, bem abaixo da minha janela. Uns 5cm para cima, me mataria, simplesmente. Nem mais, nem menos. Entraria pela janela e acertaria minha cabeça. A pedra bateu no friso, que é grosso e tem uma borracha no meio, e espalhou pedaços (parecia ter sido arrancada do asfalto) pela canaleta da janela, machucando um pouco a pintura na coluna da porta e riscando levemente o vidro.
Foi assustador. Bela recepção. Anotado mentalmente: estrada brasileira à noite, no more.
Passamos por Porto Alegre e pegamos a BR116 de novo, pista única, sem sinalização de solo, uma merda federal. Não há explicação aceitável para essa estrada, nesse trecho, continuar sendo a bosta que sempre foi. Nota zero para os dois governos Lula e o primeiro Dilma. Não tem cabimento, simplesmente. OK, a estrada sempre foi um cu. Mas em 12 anos o PT já deveria ter resolvido esse negócio. Nada que é urgente pode levar tanto tempo. E morre gente que nem mosca ali.
Por três ou quatro horas, a caminho de Pelotas, pegamos o maior dilúvio que uma Kombi jamais enfrentou em qualquer ponto do planeta. Foi bem tenso. Mas, finalmente, chegamos à terra do Xavante sãos e salvos. Saldo da terça: uma crise renal resolvida, um carburador que se autoconsertou, um fio de alternador solto, uma tantativa frustrada de assalto na Freeway, uma tempestade na madrugada e boas horas de sono no incrível Motel Arizona com sua fonte no pátio.
Depois disso, encarar mais 600 km até Montevidéu foi barbada. E a Casa Tatu é o máximo.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.