SÃO PAULO (e agora?) – Não, não vou dizer que minha corrida no Velo Città sábado foi boa pacas. O evento, sim. O dia, ótimo. Mas o desempenho do Meianov está me deixando meio desolado. No fim das contas, não estraga o programa, claro. Mas aborrece.
Não pude treinar na sexta, por conta do trabalho. Choveu. O pessoal andou no seco e no molhado. O Nenê deu algumas voltas com o bravo soviético, e vi que a melhor delas foi na casa de 2min14s. No seco. Como virei 2min11s no ano passado, as perspectivas não eram as melhores.
Também não classifiquei. A uns 30 km de Mogi Guaçu, estourou a correia do Wartburg. Tivemos de deixar o carro num posto e fomos resgatados pelo Dú Cardim e pelo Ronei Ring. Cheguei ao autódromo quando o briefing estava começando. Teria de largar em último.
Largamos com 19 carros e pista úmida. Mas secou bastante, e o Meianov não andou nada. OK, larguei bem, passei o Karmann-Ghia do Adrian Flechtman (que comprou o carro do Mauro Kern) e o novo Chevette do André Mello, fiz uma primeira volta razoável, depois passei o Escort do Henry Shimura e vi que tanto ele quanto o KG ficaram para trás, e aí me preparei para o tédio de uma prova correndo sozinho.
Mas lá pela quarta volta, quando já nem olhava mais no retrovisor, o Adrian me passou de surpresa no fim da reta dos boxes. Então, durante mais umas cinco ou seis voltas, me diverti um pouquinho tentando passar o KG, andando muito perto dele. Depois coloco um vídeo. Mas na reta ele abria, e depois que tive de tirar o pé para deixar um dos líderes me passar, perdi o contato, fiquei de saco cheio e desisti, porque os tempos de volta não baixavam de jeito nenhum. Acho que minha melhor foi na casa de 2min17s, o que é uma vergonha.
Ganhou na geral o Antonio Chambel com uma atuação exuberante em seu monstruoso Passat, virando todas as voltas abaixo de 2min, ali em torno de 1min55s. Deu um show. Meianov ficou em 12° na geral e em sexto na sua categoria. Nem troféu deu.
Depois do almoço, ainda tivemos de resgatar o Wartburg, e isso acabou sendo tranquilo. Achamos na cidade uma loja de peças, compramos uma correia (é igual à do Corcel II), trocamos e viemos embora. Antes um pouco, o Eduardo Souza Ramos nos mostrou algumas das novas aquisições de sua coleção espetacular de carros antigos e esportivos. O que mais gostei foi um Gordini verde. Falta um DKW ali.
E é isso. Agora não sei quando vamos correr de novo. Não sei também se vou insistir no Meianov. Ele está chegando ao ponto em que chegou o #96 quando decidi aposentá-lo. Daquele mato não saía mais cachorro, e deste não sai mais coelho. O carro está piorando e estou desanimando. O #96 correu de 2003 a 2008, seis temporadas. Meianov está na ativa desde 2009, também fechando agora seu sexto ano completo. Pode ser que o ciclo desses carros, para mim, seja este: seis anos.
Só que precisa de grana para trocar. E preciso pensar em um carro que tenha algum significado para mim e seja minimamente competitivo. Um Passat, por exemplo, seria escolha fácil: temos muitos correndo e as receitas são bem conhecidas. Mas não sei, Passat não me diz muito — os de rua, sim; nem tanto os de corrida –, e como são vários no grid, perdeu a graça. Gosto de coisas diferentes. Um Corcel II? Pode ser, mas é uma barca. Um Corcel? Me agrada, mas anda bem? Vamos colocar o quê lá dentro para ficar pelo menos perto dos AP? Gol quadrado, se houver a união com o pessoal do Turismo Clássico? Pode ser. Voyage também me fala ao coração.
Sei lá, teremos de pensar. Fato é que Meianov dá sinais claros de cansaço. Teremos tempo para refletir. Nem sei quando vamos correr de novo, agora que Interlagos ficou fora de combate pelo menos até abril do ano que vem.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.