SÃO PAULO (lugar certo) – De início, já aviso. Não gosto de Band. Essa corruptela para Bandeirantes sempre me pareceu forçada. Mas é usada há tantos anos, que já tem, sim, uma penca de gente que nem sabe que Band é Bandeirantes. Já trabalhei na casa. Na rádio, que segue sendo Bandeirantes. Ao menos a […]
Publicado em 05/02/2021 às 20:44
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SÃO PAULO(lugar certo) – De início, já aviso. Não gosto de Band. Essa corruptela para Bandeirantes sempre me pareceu forçada. Mas é usada há tantos anos, que já tem, sim, uma penca de gente que nem sabe que Band é Bandeirantes. Já trabalhei na casa. Na rádio, que segue sendo Bandeirantes. Ao menos a matriz, que opera nos 840 kHz em AM e tem uma frequência em FM que já não lembro qual é — estou voltando a São Paulo agora, eu antes decorava essas coisas, talvez seja 90,9 MHz. Tem também a emissora de notícias em FM, que já nasceu como Bandnews. E tinha antes a Band FM de música popular, que não sei se existe ainda. E na TV fechada, o Bandsports. No fim, do nome original só sobrou a rádio, mesmo.
A Bandeirantes fisgou a F-1 por dois anos para TV aberta. Ontem à noite a Globo desistiu oficialmente, o que, juro, me surpreendeu. Eu achava que a Liberty tinha trucado a Globo sem nada na mão e, na hora certa, a turma do Jardim Botânico ia colar o zap na testa deles. Se vocês não entenderam nada, não tenho culpa se não jogam truco. A F-1 dava lucro para a Globo. As cotas publicitárias, com entrega de mídia em muitos programas da emissora, eram caríssimas e vendiam fácil. Entender a decisão global de abrir mão da F-1 é difícil para quem está de fora. Afinal, eram 40 anos de transmissão e o produto, a F-1, se confundia com o canal. Tem a ver com os novos rumos da Globo, que está investindo tudo, ao que parece, em streaming. Sei lá. Se eu fosse o dono da empresa, e não é porque gosto de F-1, jamais deixaria escapar. F-1 é foda, por mais que tenha gente dizendo, há anos, que acabou, que é uma merda, que ninguém vê, que está chata. Bobagem. F-1 tem público sempre. Vende bem. É pica das galáxias. Tem um status construído em 70 anos de história.
Mas a Globo perdeu a Libertadores, não quis ficar, está deixando de transmitir jogos da seleção, está tudo é muito esquisito. Assim, largar a F-1 nem devia surpreender tanto. Talvez a decisão deva ser chamada de chocante, mais do que surpreendente.
Fato é que está decidido. Vai para a Band. E isso não tem nada de ruim. Primeiro, porque é um canal com abrangência nacional. Depois, porque tem espaço na sua grade. Pode tratar bem o produto. A Globo, verdade seja dita, cagou na F-1 nos últimos anos ao deixar de mostrar a classificação para apresentar um programa chatíssimo nas manhãs de sábado, com um monte de gente encostada fazendo comida e ensinando bricolagem — além de omitir o pódio para mostrar umas merdas no “Esporte Espetacular”, o que reputo como desrespeito ao público. Resumindo, a Globo trabalhou contra seu próprio produto, o que é inexplicável.
E tem mais. A emissora do Morumbi tem tradição no esporte, apresentou a Indy para o Brasil, comprou a Stock e a Copa Truck agora, chegou a transmitir o Mundial de F-1 um ano antes de Piquet ser campeão, em 1980, e tem ótimos profissionais para conduzir esse barco. Reginaldo Leme foi para lá no ano passado. Sua volta à F-1 terá enorme impacto no mercado. Formar uma equipe de qualidade não é difícil, está cheio de gente boa dando sopa por aí. Já tenho mais ou menos ideia de qual será o time, mas vou me dar o direito de não citar nomes — além do óbvio Regi — para não ferir suscetibilidades. Só que não precisa ser muito esperto para entender, por exemplo, que Mariana Becker será a repórter nas corridas. Ela é casada com Jayme Brito, que por anos produziu a F-1 para a Globo e está envolvido nas negociações entre Band e Liberty. Mariana já deixou a Globo, inclusive.
Importante, para o público que andava meio angustiado com o destino da F-1 na TV brasileira, é que as corridas seguirão sendo transmitidas. E que ótimo que não tenha ido parar nas mãos de bispos, roedores ou negacionistas em rede nacional. A Bandeirantes tem uma trajetória bonita na formação da cultura esportiva brasileira. Vai ser bacana testemunhar esse novo capítulo da história da F-1 por aqui.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.