SÃO PAULO (honra) – O brother Rodrigo Lombardi mandou o link, e é uma história que merece ser conhecida por todos. Vou resumir, e o original em inglês está aqui.
Depois de bombardear Bremem, o B-17 americano foi severamente atingido por caças alemães Messerschmitt e estava em frangalhos quando finalmente conseguiu se livrar dos aviões da Luftwaffe, que nem se importaram muito. Do jeito que ele estava, não iria durar muito. Cairia no Mar do Norte. Tinha rombos na fuselagem, avarias no bico e na cauda, tripulantes mortos e outros feridos, nenhum poder de fogo.
Perdia altitude rapidamente e o piloto decidiu tentar chegar na Inglaterra, mesmo sabendo que suas chances eram remotíssimas. Podia ter saltado de para-quedas, ele e os que ainda tinham condições, mas não quis deixar feridos a bordo. Ou tentava salvar seus colegas, ou morreriam todos.
Nesse meio-tempo, o tenente Franz Stigler decolou de uma base próxima na Alemanha para mais uma missão e acabou encontrando o bombardeiro agonizando. Poderia ter dado o tiro de misericórdia, o que lhe conferiria a Cruz de Ferro, mais alta condecoração da Luftwaffe para quem atingisse um certo número de inimigos abatidos.
Mas ele percebeu que o avião americano estava à beira do colapso. “Meu Deus, como ele ainda está voando?”, se perguntou. E decidiu que iria tentar salvar aqueles inimigos. Que não seria justo, honesto, honroso derrubar quem não tinha mais como se defender. Emparelhou o avião e, com gestos, tentou indicar outra rota, para a neutra Suécia. Era mais perto, eles teriam uma chance.
No B-17, os americanos não estavam entendendo nada. Ficaram esperando o ataque inevitável, mas não desviaram seu rumo. Foram dez minutos de tentativas de comunicação do alemão e de perplexidade dos americanos. Stigler sabia que as baterias antiaéreas em terra tentariam acertar o inimigo e se manteve como escudo dos americanos. Funcionou, porque os alemães não iriam atirar no bombardeiro correndo o risco de acertar o Messerschmitt. Havia um problema, porém: ele seria recebido pela Gestapo quando voltasse à base e, provavelmente, acusado de traição e condenado à morte. Correu o risco.
O bombardeiro seguiu para o espaço aéreo inglês e Franz desistiu de tentar convencer seus inimigos de que a rota ideal era para a Suécia. Voltou. Nunca soube o que aconteceu com o B-17. Para sua surpresa, não foi acusado de nada. Se alguém viu o que fez, não contou a ninguém. Os americanos, incrivelmente, conseguiram pousar na Inglaterra. O piloto do bombardeiro nunca soube quem era aquele alemão bom que se recusou a abater seu avião.
Charlie Brown, o piloto, manteve essa história em segredo até 1985 quando, já aposentado na Flórida, fez o relato numa reunião de veteranos de guerra. Ela acabou sendo publicada numa newsletter de uma associação de ex-pilotos alemães. Cinco anos depois, o texto chegou a Stigler, que desde 1953 vivia em Vancouver, no Canadá, para onde emigrara.
Os dois se encontraram. E passaram a contar suas histórias em palestras pelo mundo. Ambos morreram em 2008.
A história vai virar livro e filme. É linda.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.