
GUARUJÁ (tudo velho) – Desci a Serra hoje com os Gominhos. Viemos de Lada, a peruinha. Muito calor, chuva no Planalto, chuva forte, depois sol e calor de novo. Anchieta ótima, até a Piaçaguera. Para quem não é daqui, breve explicação: é a estrada que liga o sistema Anchieta-Imigrantes, que leva ao Litoral Sul, ao Guarujá e às praias do Litoral Norte. É uma estrada curta, deve ter uns 30 km, pouco mais, talvez, duplicada há bastante tempo. Tem acostamento em quase toda sua extensão.
Estava tudo parado, “excesso de veículos”, como dizem no rádio, e o trajeto que duraria meia hora, se muito, nos tomou duas. Entre outras coisas, porque as pessoas, no Brasil, insistem em trafegar pelo acostamento. Enquanto milhares de bobões se conformam com a velocidade reduzida e as filas, os espertalhões de sempre vão para o acostamento. Ignoram sua função, o perigo de atropelar alguém (um amigo meu morreu “de acostamento” no ano passado, em outra estrada), as bicicletas, os eventuais pedestres em áreas urbanas, querem chegar antes para, no destino, arrotar a esperteza: passei todo mundo pelo acostamento.
Não há milagres na ciência rodoviária. Se uma estrada tem duas pistas e alguns motoristas transformam o acostamento numa terceira, em algum momento vai afunilar, e a velocidade, que já é baixa, vai diminuir ainda mais. E o congestionamento, que já é monstro, ficará pior.
Eu sou um motorista chato. Quando as pessoas começam a me passar pelo acostamento, coloco metade do carro nele. E vou seguindo na velocidade do cortejo, deixando uma vaga ao meu lado. Quem está atrás na faixa de rodagem compreende e não emparelha. Quem vem babando pelo acostamento dá farol, buzina e xinga.
Fazer isso numa perua Lada é ainda mais didático. O cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage, o cara do Civic, todos eles comentam, em seu ar-condicionado, que esses suburbanos de carros velhos deviam ficar em casa, ou descer de ônibus para suas quitinetes na Praia Grande. Caguei. Fico lá, impávido, meio carro no acostamento, causando lentidão na terceira faixa.
De vez em quando volto para a pista e deixo a turba passar, irritada, quando percebo que à frente, no acostamento que ela transformou em pista, tem um caminhão parado, ou alguém vendendo bananas ou caranguejos. Aí o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic tentam voltar à pista na minha frente, e é claro que não conseguem, porque enfio a mão na buzina e jogo o Lada em cima, e o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic morrem de medo de levar uma porrada do suburbano do Lada, que jamais pagará seu paralama amassado, porque é um pobre diabo indo para sua quitinete na Praia Grande.
Claro que nem todo mundo faz isso. E os que não fazem prestam solidariedade e passam a adorar o cara do Lada da quitinete. Hoje ganhamos fãs numa BMW X5 enorme, que passou a se revezar com a perua Lada nessa cruzada quase solitária pela civilidade e pela cidadania.
Não adianta porra nenhuma, somos seres excêntricos numa multidão de idiotas. Alguém sempre deixa o cara da Tucson, o cara do Corolla, o cara da Sportage e o cara do Civic voltarem, a Polícia Rodoviária não faz picas, ninguém se dá mal. Ou quase ninguém. Um desses palhaços que me passou, numa Land Rover gigantesca, estava sendo multado no pé da ponte. Passamos bem devagar, eu e os Gominhos, escancaramos as janelas e gargalhamos com gosto.
Eu e os Gominhos somos bem implicantes, quando queremos. Gominhos 2 ficou meio nervoso, disse que um dia alguém vai me dar um tiro pela janela, mas quando passamos pela solidária BMW X5 e recebemos sorrisos e sinais de positivo, ficou mais tranquilo e sentiu uma pontinha de orgulho do pai.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.