
SÃO PAULO (o que virá?) – Foi no dia 15 de outubro de 2008 que liguei o Meianov pela primeira vez. O momento, histórico para alguém sem grandes histórias como eu, foi até registrado em vídeo. Eu estava feliz com o brinquedo. Naquele ano, aposentei o bravo #96, que hoje está todo pimpão no museu do Paulo Trevisan em Passo Fundo. Não havia mais o que tirar de um carro que conseguia, na melhor de suas voltas, virar em 2min35s em Interlagos. Naquela altura, a turma da frente já esbarrava nos 2min00. A intermediária brincava entre 2min10s e 2min15s. Os carros que lá atrás, em 2003, andavam mais ou menos no mesmo ritmo do DKW já haviam deixado a categoria.
O Laika que viria a se tornar célebre como Meianov, criação de um blogueiro, foi comprado em junho daquele ano. Pronto em outubro, estrearia em Londrina no II GP do Café. Não estreou. Quando ligamos o carro no box, ruídos estranhos nos aconselharam a não tentar nada. Corri com o Corcel II Pac-Man do Nenê Finotti. Foi um fim de semana legal, apesar da frustração de não poder correr com o Ladinha.
No dia 20 de novembro de 2008, finalmente ele foi para a pista, em Interlagos. Ainda com freios originais, que não freavam, virou 2min24s6 na sua melhor volta em treino. Bati, naquele dia. Na corrida de estreia, dois dias depois, com a traseira amassada, terminei em 22° entre os 33 que largaram, registrando 2min22s366 na volta mais rápida.

Meianov teve três pinturas, a primeira delas em vermelho, azul e branco, cores da Rússia, que foi usada durante toda a temporada de 2009. Em 2010 ele foi pintado de MIG, a mais marcante. que perdurou até julho de 2013, quando ele assumiu a pintura das bolinhas vermelhas com a qual se aposentou sábado.
Isso mesmo. A trajetória do Meianov terminou sábado, dia 24 de janeiro de 2015, depois de seis anos ralando em Interlagos, Londrina, Velopark e Velo Città. Não tenho o número exato, mas foram cerca de 60 corridas com ele. A gente tem de saber a hora de parar, não é mesmo, garoto?

A Classic Cup ficou rápida demais. O pessoal da ponta já está virando em 1min58s, e nosso valente soviético, na melhor volta de sua vida, bateu em 2min14s421 em janeiro de 2012. Quando ele estreou, em 2008, 2min14s era um tempo que me colocaria no meio do grid. Longe da turma da frente, mas num bolo com quatro ou cinco carros. Sábado, na abertura da temporada 2015, me classifiquei em 26° com o tempo medíocre de 2min19s049, entre 28 carros. Se tivesse repetido os 2min14s de três anos atrás, largaria em 24°. Não faria diferença nenhuma. Se eu conseguisse um dia chegar em 2min10s, que era a meta para esse carro desde o início, seria o 21° no grid.
Resumindo, não dá mais. No grid de sábado, quem virou 2min02s, um tempo de pole até outro dia, ficou em décimo. A brincadeira ficou forte. A pole foi do Denísio Casarini, com 1min58s054 a bordo de uma Berlineta Interlagos tubular com motor AP. Antonio Chambel, de Passat, ficou em segundo com 1min58s839. Não é pra mim. Melhor: não é pro Meianov.
Na corrida, apesar de uma largada decente, já na primeira volta a temperatura de óleo começou a subir muito rápido. Na quarta ou quinta volta, bateu nos 150°C e resolvi deixar quebrar. Começou a vazar água, e não parei. Fiquei me arrastando com um misto de raiva, autocomiseração, vergonha e tristeza. Tristeza porque decidi ali mesmo que seria sua última corrida, e ele não merecia terminar assim, arrebentado com fumaça para todos os lados.
Na nona volta, depois de virar acima de 2min40s, parei. Meianov chegou em silêncio no box 20, com o motor desligado e sem nenhuma fanfarra para homenageá-lo. Parei, desliguei a chave geral e agradeci. Foram seis anos felizes, de poucos resultados e muita luta para melhorar o carrinho, sem grana para investir e torcendo para ele não quebrar para não gastar mais ainda. Havia sempre a opção de espetar um AP naquele capô, mas me recuso a correr com um motor de marca diferente do carro. É questão de princípio, não tenho nada contra quem faz, mas eu não faço. Nasceu Lada, vai morrer Lada.
Passei ótimos momentos naquela cabine, comemorei cada segundo que baixei no cronômetro comigo mesmo, numa solidão serena e gostosa. Me orgulho do que esse carrinho fez em seis anos, ainda que as glórias tenham sido raras, talvez nenhuma. Ainda assim, por questões de regulamento, e como era o único inscrito na categoria CO2, para carros com motores originais até 1.600 cc, ganhou um troféu no sábado. De primeiro lugar, uma homenagem involuntária que talvez os deuses do automobilismo tenham prestado ao destemido Lada fabricado por operários soviéticos num país que nem existe mais.
Quando vi que minha melhor volta sábado foi registrada em 2min23s046, entendi que era hora de parar. Ele voltou aos tempos de 2008. Me deu um recado muito claro. Cansei, Gomes, me deixa descansar um pouco.
Assim será, Meianov velho de guerra. Mas como dizia nosso amigo e guru Veloz HP, a luta kontinua. Spasibo, camarada.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.