25 de agosto de 2006. Neste dia, a Fórmula 1 chegava à Turquia com as atenções voltadas para o duelo acirrado entre Fernando Alonso e Michael Schumacher, separados por somente 10 pontos. Era o espanhol ousado da Renault que, até então, ostentava o status de campeão mais jovem da história da F1 ao interromper justamente o reinado do maior vencedor de todos tempos até ali no ano anterior. E coincidentemente, foi neste mesmo dia que veio ao mundo, em Bolonha, na Itália, o garoto que 20 anos depois veria a F1 em êxtase aos seus pés.
É curioso notar que o destino proporcionou a chance de ser feita tal analogia com Alonso, pois Andrea Kimi Antonelli tornou-se neste domingo (1º), no GP da Cidade do México, o campeão mais jovem da história da F1, e baixando o recorde atual, já nas mãos de Sebastian Vettel, de largo — 20 contra 23 anos. É, sem dúvida, um fenômeno que se une ao panteão dos deuses do automobilismo ao lado o próprio Vettel, além de Alonso, de Schumacher, de Hamilton, de Ayrton Senna, de Alain Prost…
E de Alberto Ascari, o último italiano a vencer um título na categoria máxima do automobilismo mundial, há 73 anos. De lá para cá, inúmeros pilotos percorreram as mais variadas pistas ao redor do mundo, e muitos deles escreveram, de alguma forma, seus nomes na história da F1. Mas a categoria pode dizer que vivenciou em Austin algo inédito — e que vai demorar um bocado para ser superado.
E o interessante é que o título vem justamente após uma temporada em que o então prodígio das categorias de base, que atropelou os últimos degraus e só não estreou na F1 aos 17 anos porque a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) estabeleceu idade mínima em 18 para isso acontecer depois da chegada de Max Verstappen, teve um ano de estreia de altos e baixos, com o pior momento exatamente na Europa, quando a classe chegou aos circuitos que ele conhecia de cor e salteado.
Na época, não demorou para que os céticos colocassem as conquistas de Antonelli até a FRECA em xeque, até pela temporada totalmente esquecível na F2. Poderia, de fato, alguém tão novo já ser alçado ao posto de sucessor de ninguém menos do que Hamilton na Mercedes?

Para Toto Wolff, nunca houve dúvidas quanto a isso, e quem acompanhou a trajetória de Antonelli nas F4 e FRECA sabia que era questão de tempo até ele recuperar a confiança então totalmente abalada no ano de estreia. Poucos se lembram que Kimi chegou à F2 no primeiro ano da geração atual de carros, e ao contrário das temporadas anteriores, a Prema não conseguiu se achar com o regulamento que levou o efeito solo também para a principal categoria de acesso à F1.
Só que mesmo em um carro que passou a frequentar o meio do pelotão, Antonelli venceu corridas e mostrou uma faceta que costuma separar homens de meninos: a habilidade para pilotar sob chuva. A primeira vitória veio em Silverstone nessas condições, mas foi em Spa-Francorchamps, também no asfalto molhado, que efetuou talvez a ultrapassagem mais bonita daquele ano na F2, ao fazer a subida da Eau Rouge lado a lado com Franco Colapinto. Manobra de gente grande.
Na primeira corrida da vida na F1, aliás, Antonelli também teve exibição que deixaria nomes como Senna e Schumacher, dois monstros na chuva, orgulhosos. No GP da Austrália de 2025, largou em 16º e cruzou a linha de chegada em quarto — não sem tomar sustos, claro (rodou ainda no começo, mas segurou firme o W16 no molhado).

Mas Kimi não é talentoso apenas na chuva, e talvez esse seja o ponto mais interessante do seu estilo num todo. Quando comparado a George Russell, o cara mais experiente e de quem realmente se esperava que viesse o título de Pilotos da Mercedes, Antonelli demonstrou muito mais entendimento do carro novo do que o colega. E sentindo-se confortável, tratou o grid da F1 em muitos momentos da temporada como fazia nos tempos de F4 Italiana — como em Mônaco, quando marcou o primeiro Grand Chelem da carreira.
Claro, nem tudo ainda é perfeito (os limites de pista que o digam), mas a velocidade aliada ao ritmo de corrida muito, muito consistente, com voltas sequenciais praticamente no mesmo décimo, colocam-no em uma posição difícil de ser batida até mesmo por quem já entende desse negócio chamado F1 há algum tempo. Não espanta Russell ter admitido a perda de sono durante a disputa.
O que espanta diante disso tudo é saber que Antonelli, ao ser campeão com apenas 20 anos de idade, ainda tem muito, muito tempo para alcançar um nível talvez ainda não visto na Fórmula 1.
A Fórmula 1 volta de 6 a 8 de novembro no GP de São Paulo. O GRANDE PRÊMIO acompanha fim de semana in loco direto de Interlagos.