Dois nomes que se tornaram quase que sinônimos na história recente da Fórmula 1, Charles Leclerc e Ferrari têm pela frente uma temporada que pode ser decisiva para a continuidade da parceria. Ainda que 2025 tenha ficado longe de ser um ano dos mais fáceis para a escuderia italiana, o monegasco foi capaz de levar a SF-25 ao pódio em sete oportunidades, tornando-se um dos grandes destaques mesmo sem estar na briga pelo título contra Lando Norris, Oscar Piastri e Max Verstappen. O piloto sabe que possui as qualidades necessárias para se tornar campeão, mas precisa que o time de Frédéric Vasseur lhe dê condições para isso — caso contrário, pode encontrar um novo lar em 2027.

Com base na pré-temporada, a equipe deu sinais de que será, sim, competitiva desde o início. Devido à chegada de novos regulamentos, que mudaram drasticamente tanto a parte de chassi e aerodinâmica dos carros quanto das unidades de potência, os desafios eram imensos — e continuarão sendo — na busca por desempenho em cada centímetro dos novos modelos. Além disso, os testes em Barcelona e no Bahrein deixaram claro que a parte elétrica de fato se tornou crucial na categoria, com os competidores tendo de adaptar o estilo de pilotagem dependendo do circuito e os times precisando maximizar a recuperação e uso da bateria.

Embora tenha apresentado alguns problemas aqui e ali, a Ferrari foi capaz de completar 745 voltas — o equivalente a 4.031 km — durante os seis dias de atividades no Circuito de Sakhir, terminando atrás somente de McLaren (817), Haas (794) e Williams (790) nesse quesito. Além disso, colocou-se no centro das atenções ao apresentar atualizações um tanto curiosas na SF-26, como o elemento colocado logo atrás do exaustor, com aparência semelhante a uma pequena beam wing, inclusive, e também a asa traseira que girava 180º quando acionada nos setores de reta, ficando de cabeça para baixo.

Leclerc, por sua vez, foi o mais rápido nos dias 2 e 6, atestando a todos que os italianos realmente chegam preparados para brigar na parte de cima — apesar de que, claro, os tempos de volta dificilmente traduzem a real ordem de forças neste momento. Contudo, as simulações de corrida são bons indicadores de como cada carro se comporta com diferentes níveis de combustível, pneus, mapa de motor e condições de pista. Nesse ponto, o #16 foi um grande destaque, engatando sequências consistentes e até melhores do que rivais de Red Bull e McLaren, por exemplo.

Charles Leclerc completou ótimo programa de testes com a Ferrari no Bahrein (Foto: Bahrain International Circuit)

Mas como diz o ditado: jogo é jogo, treino é treino. Ainda que tenha causado euforia nos fanáticos tifosi, a Ferrari precisa começar a temporada com os pés bem firmes no chão, já que a impressão deixada pela performance em 2025 está longe de ser das melhores. O GP da Austrália, entre os dias 5 e 8 de março, será o primeiro grande desafio, porque vai exigir algo completamente diferente do que foi visto em Barcelona e Bahrein de todas as partes — além do acerto do carro e estratégia, o gerenciamento de energia deve se tornar um dos principais assuntos do fim de semana.

Se depender de Charles, a Ferrari pode ficar tranquila. Claro, o monegasco não deve ser tratado como o piloto perfeito, pois assim como outros talentos do grid, ainda possui pontos a serem melhorados, mas o salto técnico e mental desde 2022 — a última vez em que de fato teve um carro capaz de brigar pelo título — é inegável. Em oito anos no Mundial, tornou-se um dos melhores em ritmo de classificação, conquistou vitórias memoráveis na base do talento puro — como o GP da Itália de 2024, por exemplo — e superou adversários de alto calibre, como o tetracampeão Sebastian Vettel, em 2019 e 2020, e Lewis Hamilton, no ano passado.

Não foi à toa que Leclerc se colocou como um dos ativos mais importantes do mercado da F1. Com contrato até o fim de 2029, mas com uma cláusula de saída em 2026, conforme foi exigido pelo próprio piloto, outras equipes de ponta indiscutivelmente vão abrir as portas caso o natural de Monte Carlo decida respirar novos ares a partir de 2027. Até porque, com o novo regulamento e muitas incógnitas ainda em jogo, McLaren, Mercedes e Red Bull não possuem qualquer garantia de que vão segurar os respectivos titulares — os acordos atuais são definidos mais por nível de desempenho do que por tempo de duração.

E na Ferrari não é diferente. Embora sempre tenha deixado claro o amor que sente pelo time de Maranello, Charles sabe que cada oportunidade na categoria é única, então uma oferta para ter um carro competitivo em mãos é das mais tentadoras. Caso a escuderia retroceda em relação aos rivais no decorrer de 2026, será que o #16, aos 28 anos de idade, teria paciência — mais uma vez — para apostar em uma reviravolta italiana em 2027? Claro, ele ainda é jovem e tem um caminho longo pela frente, mas está nessa situação há algum tempo, enquanto que competidores da mesma geração, como Verstappen e Norris, já conquistaram títulos.

Charles Leclerc espera finalmente ter a oportunidade de ser campeão com a Ferrari (Foto: AFP)

Mas a confiança no projeto vale mais do que o resultado final em si. Em outras palavras, Leclerc pode muito bem não ser campeão este ano, mas se sentir que o caminho adotado pela equipe foi o correto e que há potencial para crescimento, isso será o suficiente para segurá-lo. O importante não são os primeiros passos, mas, sim, onde eles chegarão. É totalmente plausível que um time que comece com um déficit, independentemente de quanto seja, consiga dar a volta por cima, e a McLaren é um grande exemplo disso nos últimos dois anos.

Tudo depende de como Vasseur, Loïc Serra, Enrico Gualtieri, Diego Tondi e companhia vão seguir com a SF-26. Pelo menos até aqui, a impressão que ficou é que valeu a pena para a Ferrari ter deixado de desenvolver o carro de 2025 ainda em abril, considerando os resultados obtidos nos testes do Bahrein. Contudo, a estrada é longa e cheia de curvas, especialmente em um regulamento repleto de nuances e que ainda não foi amplamente entendido pelas equipes. Ou seja, as atualizações, embora testadas antes de irem à pista, claro, são mais experimentos do que melhorias propriamente ditas, e assim será até que todos compreendam os respectivos conceitos.

Desta forma, o futuro de Leclerc depende principalmente da Ferrari. A lealdade do piloto já foi mais do que comprovada, agora chegou a hora da equipe retribuir toda a confiança depositada nela ao longo de oito anos de parceria. Os personagens e o enredo são conhecidos, agora cabe aos italianos fazer com que a história tenha um final feliz.

A Fórmula 1 retorna neste fim de semana, de 5 a 8 de março, com o GP da Austrália, abertura da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.

GP da Austrália de F1: veja os horários em Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:

SessãoBRA*CBVPOR
ANG
MOZ
Treino livre 122:300:3002:3003:30
Treino livre 202:0004:0006:0007:00
Treino livre 322:300:3002:3003:30
Classificação02:0004:0006:0007:00
Corrida01:0003:0005:0006:00

*Horário de Brasília

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