Hamilton se transforma no maior. Mas cada um tem o seu melhor
Lewis Hamilton foi capaz de atingir um número até pouco tempo inimaginável. Mas, sim, o inglês conseguiu igualar Michael Schumacher na Fórmula 1. E passa ser o melhor?
Publicado em 11/10/2020 às 11:00
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Na Fórmula 1, a discussão sobre o melhor de todos os tempos é permanente. Fangio? Senna? Schumacher? Prost? Hamilton? Clark? Lauda? Piquet? O que vale? Número de títulos? De vitórias? Velocidade absoluta numa única volta? Percentuais de triunfos, poles e troféus sobre GPs disputados?
Cada um escolhe seu critério. Eu me sinto muito privilegiado de ter acompanhado muito de perto as carreiras de alguns desses nomes – Fangio e Clark são as exceções. Dos demais, poderia elencar façanhas, proezas, realizações e talentos transbordantes. Não faltam feitos a cada um deles.
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O argentino Juan Manuel Fangio ganhou cinco títulos na F1 (Foto: Reprodução)
Senna era rapidíssimo em voltas de classificação. Em velocidade pura, muita gente garante, nunca houve ou haverá alguém como ele.
Prost era um relógio. Inteligente, calculista, preciso, dava aulas a cada GP – daí a alcunha de ‘Professor’. Nunca houve ou haverá alguém como ele.
Schumacher ganhou campeonatos e corridas de todo jeito. Na chuva, no seco, saindo de trás, com quatro paradas, sem trocar pneus, de todo jeito. Além do mais, abraçou a missão impossível de recolocar a Ferrari nos trilhos da glória. Como ele, nunca houve outro e jamais haverá.
E Lauda? O que dizer de sua volta às pistas depois de quase morrer queimado? E de Piquet, o que falar de Piquet? Inventivo, criativo, capaz de ganhar campeonatos com três motores diferentes e batendo de frente com um companheiro inglês numa equipe inglesa! Nunca mais veremos um Lauda. Nunca mais conheceremos um Piquet.
Nunca mais, nunca mais…
Michael Schumacher, o homem que venceu 91 vezes na F1 e conquistou sete títulos mundiais (Foto: Ferrari)
Quando Schumacher encerrou a carreira pela primeira vez, no final de 2006, pedi um autógrafo a ele. Sendo mais exato, dois: um numa camiseta, outro numa credencial. Afinal, nunca mais haveria um heptacampeão. Nunca mais alguém ganharia 91 GPs.
Bem, Hamilton fez isso. Falta o hepta. Questão de semanas. No mais, superou o alemão em tudo. Vitórias, poles, pódios, GPs na liderança, e blábláblá.
Alguém imaginaria isso em 2007, quando ele estreou dando uma coça em Alonso, bicampeão vigente, estrela maior de uma F1 já sem Schumacher? Não, não dava para imaginar. OK, foi campeão no segundo ano, 2008, mas nos cinco seguintes, não. E ficar cinco anos sem título pesa em carreiras que não são tão longas assim quando se olha para alguém que precisaria ganhar sete para igualar outro alguém.
Com 91 vitórias, Hamilton caminha para ser o maior da história (Foto: Reprodução)
Pois Hamilton o fez. Porque, como Schumacher, espreme a hegemonia imposta por sua equipe até a última gota em proveito próprio. Mas e essa hegemonia? Seria a mesma se o piloto fosse outro e não Lewis? A Ferrari dominaria a F1 de 2000 a 2004 do jeito que dominou se Schumacher não estivesse lá? Quem faria tantas poles com a Lotus se não Senna? Quem derrotaria Mansell depois de dar uma pancada na Tamburello? Quem voltaria a ser campeão depois de ver a morte debaixo de uma Ferrari em chamas?
Tendo a dizer que não para todas essas perguntas. Grandes pilotos amplificam a capacidade de uma grande equipe. Alguém questiona o papel de Vettel no tetra da Red Bull entre 2010 e 2013? Webber faria igual? Barrichello faria o que Schumacher fez? Rosberg e Bottas fariam o que Hamilton faz?
De novo, tendo a dizer que não. Um puxa o outro, o outro puxa o um. Quantas vezes não vimos a Mercedes claudicar nos últimos anos para, na corrida seguinte, dar a volta por cima? Quanto de Hamilton pudemos ver nessas reviravoltas?
Sendo assim, sim: Hamilton, no momento em que iguala o número de vitórias de Schumacher, e com o sétimo título no bolso e mais um monte de GPs pela frente, passa a ser o maior de todos os tempos. E que bom que estamos vendo isso acontecer no nosso tempo. Porque não pudemos ver Fangio – a maioria de nós. Porque não pudemos admirar Clark. E outros tantos, que por um motivo ou outro não alcançaram números e conquistas tão impressionantes.
Hamilton é o melhor de todos os tempos? (Foto: Reprodução)
Mas tenho plena consciência de que o título de melhor de todos não será acoplado ao nome de Hamilton por todo mundo. Eu mesmo tenho o meu melhor de todos os tempos, e ele nem na F1 correu – chama-se Bernd Rosemeyer e morreu em 1938 aos 28 anos num carro prateado a 400 km/h numa estrada alemã; é o meu melhor de todos os tempos e pronto, posso?
Claro que posso. Como você que venera Senna e o tem como um herói que ganha corrida com uma marcha não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que admira Piquet e sua incrível capacidade de dar nó nos adversários não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que passou a vida suspirando por Schumacher numa Ferrari flamejante não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que enxerga em Lauda um exemplo inigualável de superação não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor.
E principalmente você, que vê em Hamilton um piloto quase infalível, dedicado, engajado, carismático, relevante, velocíssimo em uma volta rápida, arrojado em corrida, preciso como um relógio, que dá nó em seus adversários, que é capaz de vencer uma prova com pneu furado, e que além de tudo milita sem medo por causas essenciais para a humanidade, principalmente você, não precisa mudar de opinião. Para você, ele sempre foi o melhor.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.