O fim de semana de rodada tripla da Fórmula 2 no Azerbaijão teve praticamente tudo o que o fã de automobilismo gosta. Além do caos provocado pelos desafios do traçado, que resultaram em intervenções do safety-car, bandeira vermelha e diversos embates em pista, houve uma reviravolta na briga pelo título. A terceira prova, inclusive, contou com Rafael Câmara, Nikola Tsolov e Alex Dunne, todos postulantes reais ao campeonato, brigando pela vitória. O problema, porém, é que ninguém sabe se a temporada chegou ao fim, o que trouxe um anticlímax para a disputa.

Com as incertezas geradas pelos conflitos no Oriente Médio, devido à guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, as etapas do Bahrein e da Arábia Saudita foram realocadas para Miami e Canadá. Mas as rodadas do Catar e de Abu Dhabi, que marcam a reta final da disputa, ainda são dúvidas. Tanto a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) quanto a F1 monitoram o cenário para entender se a realização das provas é viável.

Em meio à incerteza, foi tomada a decisão de adicionar uma corrida ao fim de semana no Azerbaijão — algo muito similar ao que foi feito na F3 em Madri. Na categoria menor, porém, a alteração serviu para compensar o cancelamento da rodada no Bahrein. Na F2, as declarações oficiais indicam que o aumento das atividades não teve qualquer relação com a incerteza sobre Catar e Abu Dhabi, conforme explicou o CEO Bruno Michel.

“Este é o único fim de semana em que o cronograma permite essas sessões adicionais. O circuito urbano de Baku sempre nos proporciona corridas incríveis; por isso, estamos muito satisfeitos em tornar a 12ª etapa da nossa temporada algo realmente único. Depois, retornaremos ao formato habitual de fim de semana de corrida para as duas últimas etapas da temporada de 2026, que serão realizadas em Doha e Yas Marina”, ressaltou o CEO da categoria.

A F2 parece querer tirar não só o público, mas também os próprios pilotos e equipes da categoria de trouxa. É difícil imaginar que a decisão de adicionar uma prova ao calendário em um momento de incerteza no Oriente Médio seja apenas coincidência. Afinal, além de ser um movimento incomum, a mudança não estava prevista no orçamento das equipes, que, em um momento em que tanto se fala em sustentabilidade e corte de gastos, tiveram de aumentar as despesas com a adição de uma classificação e uma corrida. E o pior: tudo isso sem ter sido acordado antes do início da disputa. Corridas e classificações extras não são adicionadas a um fim de semana pelo simples fato de simplesmente se encaixarem na programação. A desculpa é difícil de engolir.

A F1 até tem um plano de contenção para substituir Abu Dhabi por Ímola, na Itália. Mas, de acordo com o portal espanhol SoyMotor, a decisão não se estende à F2, e a informação foi confirmada pela apuração do GRANDE PRÊMIO no fim de semana do GP do Azerbaijão. E toda essa incerteza tirou muito do brilho da ótima disputa em Baku.

Os três postulantes ao título brigaram pela vitória até o fim (Foto: Reprodução / F2)

Tsolov chegou a Baku como líder do campeonato, mas teve um dia para esquecer na sexta-feira (25): abandonou, foi punido e largou apenas de 11º na corrida 3. Câmara, por sua vez, zerou na sprint, mas a ultrapassagem sobre Noel León na reta final da corrida 2 rendeu os pontos necessários para o brasileiro assumir o topo da tabela, com um ponto de vantagem sobre o búlgaro. Como se isso já não fosse bom o bastante para embolar a briga, Alex Dunne venceu pela primeira vez no ano depois de largar da pole e entrou de vez na luta pelo título, a apenas oito pontos do brasileiro. Tudo isso em meio a uma prova para lá de movimentada.

A situação ficou ainda mais emocionante na corrida do sábado (26). Depois de acertarem na estratégia, Dunne e Câmara superaram Stenshorne e passaram a liderar a corrida. Tsolov fez uma ótima recuperação e assumiu a terceira posição nas voltas finais.

Dunne, que foi punido com 5s por cruzar a linha branca ao entrar nos boxes, conseguia resistir aos ataques de Câmara, embora a punição tornasse inevitável a perda da vitória no resultado oficial. Enquanto isso, Tsolov cortou a diferença e também chegou à disputa, em um embate direto entre os três primeiros colocados do campeonato, brigando não só pela vitória, mas pelo primeiro lugar na tabela.

É possível que o público tenha visto uma das decisões de título mais emocionantes da história da F2 sem sequer saber disso. Pior ainda é a situação dos pilotos que, após a corrida, claramente estavam meio perdidos em relação à sequência do campeonato.

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Caso a F2 termine no Azerbaijão, Câmara fica com o título da temporada 2026 (Foto: F2)

Ao cruzar a linha de chegada, Tsolov entrou no rádio para agradecer à equipe por toda a confiança e por nunca terem desistido da disputa, em um tom até melancólico. A postura, no entanto, certamente seria diferente se soubesse que ainda haveria uma sequência no Catar e em Abu Dhabi. Afinal, subir de 11º para segundo, por si só, já é um baita desempenho e o deixa em uma posição confortável para seguir vivo na briga. Agora, são apenas sete pontos de desvantagem para Câmara.

A situação de Dunne foi semelhante. É verdade que perder a corrida da forma como aconteceu é frustrante de qualquer maneira. Mas o irlandês teve um fim de semana praticamente perfeito, com dois pódios, incluindo uma vitória, e, graças a isso, entrou de vez na briga com os líderes. Em condições normais, também teria motivos para celebrar. A postura de ambos na sala antes do pódio, cabisbaixos, é mais um indício de que já consideram encerrada a disputa.

Caso o cenário mude e a F2 consiga realizar ao menos mais uma rodada dupla, o Azerbaijão será lembrado futuramente como uma das boas disputas proporcionadas pela categoria. Mas, caso isso não aconteça, todo o brilho será perdido por causa de um campeonato decidido em meio à incerteza até dos próprios pilotos.

A Fórmula 2 planeja voltar às pistas entre 27 e 29 de novembro, com a etapa no Catar. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa da temporada.