De todos os pilotos brasileiros que alcançaram recentemente a rota da Fórmula 1, Rafael Câmara sempre passou a sensação de que seria o responsável pelo retorno do Brasil à principal categoria do automobilismo mundial. Esse fato, claro, foi antecipado pela meteórica ascensão de Gabriel Bortoleto ao vencer F2 e F3 nos anos de estreia, mas nem por isso desviou a atenção que sempre lhe foi devida, e o título da Fórmula 3 2025 conquistado na Hungria, com uma etapa de antecedência, é apenas mais uma evidência de que não apenas o automobilismo brasileiro tem uma joia nas mãos, mas sobretudo a Ferrari.
O mais interessante é notar que, de certa forma, todas as quatro grandes equipes da Fórmula 1 — Ferrari, Mercedes, Red Bull e McLaren — possuem em suas cartelas um talento especial. Câmara, aliás, é contemporâneo de alguns e teve em Andrea Kimi Antonelli, o pupilo de Toto Wolff, uma espécie de antagonista, ainda que fossem companheiros na Prema por onde passaram. E mesmo um tanto ofuscado pelo brilho do ex-colega de equipe na F4 Italiana e na FRECA, soube tomar o protagonismo na hora certa.
O pé na porta veio logo na rodada de abertura da temporada, na Austrália. Já na primeira classificação na F3, anotou a pole-position e venceu a corrida principal. O topo do campeonato, inclusive, jamais deixou de ser seu. O momento em que mais foi ameaçado, etapa em Melbourne à parte, foi depois de Mônaco, quando deixou Monte Carlo 13 pontos à frente de Tim Tramnitz. Nas outras, a distância sempre foi acima de 20.
Mas o campeão também contou com aquela dose providencial da sorte. Na Áustria, por exemplo, quando Nikola Tsolov venceu e teve a faca e o queijo na mão para colar de vez classificação, contou com a desclassificação do rival por infração técnica para sustentar a boa gordura. Na Inglaterra, sofreu na chuva, mas ele passou pelo mesmo. E na Bélgica, o temporal freou novamente as investidas do piloto da Campos ao provocar o cancelamento da corrida 2.

Claro que a sorte, nesse caso, trabalhou intimamente ligada ao ótimo aproveitamento nas primeiras etapas. Sim, a regularidade manda em campeonatos como a F3, com rodadas duplas e grid invertido, mas vencer três das cinco primeiras corridas principais, com direito a pole e volta mais rápida em cada uma, também mostrou que o outro lado importa muito.
Esses resultados ainda expuseram faceta que costuma encher os olhos quando o assunto é F1: Câmara é muito rápido. Teve a chance de disputar a temporada de estreia na F3 pela Trident, equipe que teve os dois últimos campeões, Bortoleto em 2023 e Leonardo Fornaroli em 2024, porém bateu com sobras os companheiros de equipe — entre eles, Charlie Wurz, já veterano. Mas a sensação é de que Rafael seria postulante ao título mesmo se não vestisse as cores azul, branca e vermelha da esquadra italiana.
O próximo passo agora é a F2, com a chance de trilhar o mesmo caminho de Bortoleto e entrar de vez na briga pela tão sonhada vaga na F1. É muito cedo para fazer qualquer prognóstico, mas não seria exagero dizer que o recifense pode muito bem criar uma bela dor de cabeça para a Ferrari.
A Fórmula 3 agora entra em longa pausa e torna só de 5 a 7 de setembro, em Monza, palco da rodada da Itália, encerramento da temporada 2025.
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