Fora da Fórmula 1 desde o fim da temporada 2010, a Bridgestone está oficialmente de volta a um Mundial chancelado pela FIA a partir de 2026. É que em dezembro, último mês do ano, a Fórmula E dá início não apenas ao primeiro campeonato da era Gen4, mas também ao capítulo inaugural de uma parceria que ainda se encontra em estágio embrionário. A julgar pelo nível de animação de ambas as partes, contudo, a expectativa é das melhores possíveis.

Com a presença do GRANDE PRÊMIO, a Bridgestone realizou o evento de lançamento dos novos pneus da Fórmula E na Vila Aurélia, nos arredores de Roma. E a pomposidade não se resumiu à mansão escolhida para o evento ou aos comes e bebes (muito bem aproveitados por este que vos escreve), mas também pelas presenças ilustres.

Afinal de contas, o lançamento do Potenza, nome oficial dado ao pneu, foi o ato principal de todo um espetáculo organizado por Bridgestone e Fórmula E, que calçaram o Gen4 pela primeira vez com os novos compostos. O objetivo, muito além de mostrar a nova borracha usada pela categoria, foi também exaltar o grau de importância que a marca japonesa tem dado ao projeto.

Assim, além de Jeff Dodds, CEO da Fórmula E, o evento trouxe palavras de nomes como Yasuhiro Morita, CEO Global da Bridgestone, além do diretor global de produtos Hiroshi Imai e Marek Nawarecki, diretor-sênior de circuitos da FIA. Tudo, claro, com a já conhecida apresentação de Nicki Shields, protagonista nas transmissões da categoria.

Nomes importantes de Bridgestone e Fórmula E estiveram no evento em Roma (Foto: Bridgestone)

Celebrando momentos históricos da Bridgestone em cenários europeus e asiáticos, o foco foi em evidenciar o quanto a marca dá valor ao desafio que tem pela frente. E a verdade é que o caminho promete ser bem menos tranquilo do que foi até aqui.

Os novos pneus ainda não foram à pista oficialmente, é verdade, mas a Fórmula E reserva um histórico complicado em relação aos compostos. Feita para correr em circuitos de rua e alinhar as propostas de entretenimento e sustentabilidade, a categoria sempre precisou pisar em ovos para produzir os pneus, algo que nunca se traduziu em completa satisfação nos pilotos.

Com a necessidade de desenvolver pneus que funcionem tanto em condições de pista seca quanto de chuva, todas as fornecedoras da Fórmula E até aqui precisaram encontrar um meio-termo na concepção da borracha. Naturalmente, isso fez com que os pneus nunca fossem capazes de entregar 100% nas duas condições, o que levou a reclamações constantes.

Dificuldades de aquecimento, dureza extrema e inconsistências frequentes foram apenas algumas das reclamações dos últimos anos, algo que a Brigestone chega para tentar sanar de vez. E com um aliado e tanto: o Typhoon.

‘Potenza’ foi o nome escolhido pela Bridgestone para batizar o pneu da Fórmula E (Foto: Bridgestone)

Afinal de contas, pela primeira vez na história, a Fórmula E terá um jogo de pneus utilizado exclusivamente em cenários de chuva extrema. Assim, ainda que os compostos de pista seca precisem funcionar em pistas relativamente molhadas e carreguem ranhuras para tal, o escopo de trabalho aumentou, o que deve levar a uma evolução direta em termos de aderência.

“Estamos verdadeiramente empolgados por mostrar ao mundo a tecnologia da Bridgestone e a paixão nesse novo estágio da Fórmula E. Desenvolvendo o Potenza, forçamos os limites da tecnologia para desbloquear totalmente a performance do Gen4”, disse Imai.

“Em especial, o novo Potenza Typhoon representa uma evolução simbólica para a era Gen4, permitindo que pilotos encarem com confiança condições ainda mais úmidas. Apoiando o Gen4 desde o início, também avançamos em iniciativas de carbono neutro, em busca de um automobilismo sustentável”, afirmou.

O evento contou até com visita ao Centro Técnico da Bridgestone, fábrica em que parte dos pneus da Fórmula E já se encontra em produção. A possibilidade de registros foi restrita, é claro, mas os convidados puderam conhecer até o simulador em pleno funcionamento. Apresentação glamurosa, daquelas de elevar expectativas.

Visita no Centro Técnico envolveu até experiência no simulador (Foto: Bridgestone)

Desafios com Gen4 começam agora

Em meio às palavras dos principais executivos de Bridgestone e Fórmula E, o ator principal enfim foi calçado de forma adequada: o carro Gen4, estacionado na varanda adjacente ao palco em que os palestrantes discursavam. Pintado nas cores da nova fornecedora e, claro, equipado com o Potenza pela primeira vez de forma oficial e pública.

E o levantar dramático das cortinas, cuidadosamente planejado pela organização do evento, metaforicamente abriu um novo capítulo daqui em diante: como explorar o potencial máximo de uma máquina ainda não conhecida e, principalmente, como superar uma dor de cabeça antiga da categoria.

A questão, inclusive, já existe há algum tempo. Desde principalmente a era Gen2, a Fórmula E lida com um problema quase insolucionável: transferir toda a capacidade dos carros ao asfalto sem perder algo no caminho.

Monopostos movidos a eletricidade possuem níveis elevados de torque, e usar pneus feitos para funcionar em todas as condições sempre impediu que a potência máxima dos equipamentos fosse realmente traduzida em rotação e aderência no asfalto. Ou seja, apesar de carregarem muito potencial, a verdade é que os carros raramente foram levados ao máximo, limitados justamente pelos compostos.

Bridgestone assume o posto da Hankook como fornecedora exclusiva de pneus da Fórmula E (Foto: Bridgestone)

Isso gerou extensos problemas no Modo Ataque, por exemplo, já que o artifício era pouco explorado na Gen2: com mais potência, os carros patinavam mais ainda e seguiam sofrendo. Não à toa, a Fórmula E alterou o desenvolvimento dos pneus nos dois últimos anos da Gen3, oferecendo compostos um pouco mais macios e com nível de aderência superior.

“É um momento enorme para nós. Entramos na Gen4 com um novo carro, novo calendário e as parcerias com Disney e Bridgestone. Temos o carro mais incrivel vindo por aí, e esse carro depende dos pneus. Estamos aqui em Roma, nesse belo evento organizado pela Bridgestone, e parece um início perfeito de parceria”, exaltou Dodds.

Agora, porém, há uma página em branco pela frente. O nascimento do Gen4 traz tecnologias ainda mais avançadas: tração integral, 0 a 100 km/h em 1s8 e cerca de 335 km/h de velocidade máxima, além de até 600 kW de potência máxima — contra 350 kW do Gen3 Evo. Definitivamente, há um salto e tanto a vir.

E essa será exatamente a primeira montanha da Bridgestone: ser capaz de não apenas calçar o Gen4 com propriedade, mas permitir que o carro mais potente e tecnológico da história da Fórmula E mostre realmente a que veio ao mundo.

O desafio está posto, a animação é evidente de ambos os lados e a marca japonesa indica entender o potencial desta nova rota. Se a união vai responder a todas as questões, só o tempo dirá; o certo é que o início veio com os dois pés na porta, algo que tem combinado com a Fórmula E dos últimos anos.

JP Nascimento viaja a convite da Bridgestone