Quero falar da História. Há tanto se debate o peso real das cobranças empreendidas por ela, a História, a figuras públicas. Aqueles contrários, apontam para o fato de que algumas das piores verminosas que já desfilaram por aí vivem em berço esplêndido até o fim. E é verdade. Mas permitam-me discordar: a História não tem, em qualquer sociedade já desenvolvida, poder de polícia. Ela não prende e também não solta. A história registra, é isso o que faz. Com o tempo, desenrola o fato consumado e entrega, digestão completamente encerrada, alguns contornos fabulosos que passaram escondidos na hora um.
Há, todavia, o que não precise dos contornos delineados pelo tempo. A História, democrática, mas rígida, oferece abertura para entender o tamanho de um feito em cima do lance. No laço, para dormir na própria cama na noite realizada e repassá-lo calmamente, como quem sabe a monta do que acabou de passar.
Hoje, vivemos um destes dias e dois destes personagens. Primeiro, Luiz Inácio Lula da Silva. O maior líder popular da história do Brasil e, à essa altura, quem será louco de discordar?
Aos 80 anos, quase 81, de uma vida dedicada à luta. Contra a fome, as mazelas, no sindicalismo, no Congresso e na cadeira principal do Executivo. E tudo parecia perdido, mas quatro anos após ser o primeiro a derrotar nas urnas um incumbente, torna-se também o primeiro a transformar derrota no primeiro turno em vitória geral.

A campanha estava estabelecida: contra os Estados Unidos, Israel, a CIA, os Five Eyes e tantos agentes estrangeiros. Mas também contra o Bolsonarismo, o câncer que corrompe tudo no Brasil e que desta vez jogou sujo até contra o case de sucesso que é o sistema eleitoral nacional. Contra os sócios do Bolsonarismo, as milícias e o tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Contra as Big Techs, que tentam a todo tempo melar sistemas eleitorais no mundo inteiro. Contra o entreguismo de sempre de setores da elite e imprensa, que teimam em tratar o Bolsonarismo como algo usual. Contra o vorcarismo cultural, que arrebatou o país, e a máfia das bets. Além dum TSE (Tribunal Superior Eleitoral) permissivo by design.
É difícil estabelecer algo além do êxtase por enquanto, mas a vitória de Lula fará rodar o continente imagens de comemoração. A vitória de Lula aqui vai muito além das fronteiras da nossa República e dialoga com latino-americanos encantados, de Tijuana ao Ushuaia, por tudo aquilo que se pode.
A vitória eleitoral é histórica também, é evidente. Mas é a quarta, e não é apenas o ganhar que emociona e deixa um ímpeto de esperança no futuro que se avizinha. O que difere esta das outras é a mobilização. A maior no Brasil desde as Diretas Já, 40 anos atrás. O maior conjunto de manifestações desde a redemocratização.
A mobilização dos jovens da UFF (Universidade Federal Fluminense) de Niterói, de movimentos estudantis país afora, de jovens políticos como Ana Elisa, como William Siri e tantos outros, de todos alinhamentos democráticos. Nunca o campo democrático esteve tão unido, até para além apenas do progressismo. Nos últimos 10 anos, a extrema-direita jamais passou tanto tempo contra as cordas como nas três semanas do segundo turno. Graças também à compreensão dos anseios das bases, num trabalho hercúleo de gente como Camilo Santana e na comunicação de André Janones.
O progressismo redescobriu como conquistar o calor das ruas. Redescobriu como acalentar a comunicação. Como fazer com que o banditismo do grupo político que é sócio das milícias e do Comando Vermelho no Rio de Janeiro fique nas cordas, respondendo, defendendo. Redescobrimos como apelar para o coração das massas de jovens e trabalhadores, a arma política de aglutinação mais poderosa que se tem notícia. Arrebatar corações sempre será mais efetivo que duelar por fígados.
E o mais importante foi o que disse o professor e escritor Dawisson Belém Lopes no X, o antigo Twitter: “Nunca fomos minoria. Estávamos apenas desorganizados, mas não estamos mais. O campo democrático está enfim organizado e é hora de contra-atacar.”
São quatro anos de luta. Contra um congresso obtuso e um senado ainda mais, mas aprendemos como pressionar. Como fazer com que tivessem de prestar contas. O Brasil é, hoje, resistência ao crescimento do fascismo mundial. Que sorte termos Lula para esta encruzilhada na História. Ela de novo, a História. Talvez seja difícil para muita gente enxergar que nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, vimos um capitalismo em tamanha crise e uma ascensão tão agressiva do fascismo. Mas acreditem: será pule de dez no futuro, quando ela, a História, for reexaminada.

Nossa posição é ímpar para, por exemplo, travar uma batalha contra os algoritmos das redes sociais e sua moderação. Vão reclamar de censura, evidente, mas acreditem de novo: é uma discussão inevitável na próxima década no mundo inteiro. Ou freamos este grupo de bilionários pirados ou eles acabam com a gente. O Brasil vai liderar a discussão, caso faça o que deve. É imperativo que se torne um player real ainda na exploração e tratamento das terras raras, maior commodity da Nova Ordem Mundial. Para isso, um salto de industrialização é necessário.
Os anseios são tantos. E são quatro anos para varrer o banditismo do Bolsonarismo e normalizar, de alguma maneira, a vida política nacional.
Falando em bandidos, o outro personagem registrado para a memória. Flávio Bolsonaro é digno do esgoto Dela. Jair, um bandido condenado por golpismo, fez a vida como ladrão de galinhas. Um homem perverso, sem dúvidas. Mas o filho mais velho não é ladrão de galinhas, está longe disso. Na ordem de forças do crime nacional, Flávio troca passes com Rogério de Andrade. Vai espernear até onde der e, provavelmente, vai fugir. Sei lá se será preso ou não. Pode ser que vá embora para todo sempre ou que o cenário político o favoreça em algum ponto do futuro. Se ficar, está claro, as provas contra si são ululantes.
Fique ou vá, o lugar dele é a lata de lixo da História — e lá ficará. E o nosso lugar é o de retomar um país.
É a primeira eleição em que vou às urnas como pai. Não podia imaginar a ideia da minha filha viver novos anos de chumbo ou de um país famélico por planejamento. É insano que após a tentativa de golpe em 2023 e a tentativa de golpe deste domingo, com o cerceamento eleitoral dos mais pobres Brasil afora, haja quem minimize os perigos do desbaratamento do que restou dos alicerces institucionais no Brasil. Não é exagero dizer que planejavam encerrar o pacto de 1988: era verbalizado e repetido à exaustão. Queriam matar a constituição que fez o país nortear qual seria a vida após mais de duas décadas de ditadura militar.
Os perigos ainda estão soltos por aí, mas a luz no fim do túnel jamais, nos últimos dez anos, foi tão brilhante. É hora de reconstruir o país. É hora de fazer dele o líder na cidadania internacional que sempre teve vocação para ser. O líder na costura de futuro dum mundo em franca mudança.
Por mim, por nós, pelos nossos pais e especialmente pelos nossos filhos.
O Brasil, afinal, ainda é mais Rubens Paiva do que os facínoras que o mataram.