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Terminadas as 53 voltas – e mais de 306 km – do GP da Itália, realizado neste domingo (4) em Monza, o campeonato da F1 em 2016 não poderia estar melhor: apenas dois pontos separam o líder Lewis Hamilton do segundo colocado, Nico Rosberg. Porém, estranhamente, não parece haver uma grande comoção. Resultado, provavelmente, de uma corrida italiana que acabou com um gosto estranho, após dois grandes anúncios entre os pilotos e da própria forma como a vitória de Rosberg veio. Dá para resumir, de certa forma, a corrida em apenas uma palavra: indiferença.

De acordo com o dicionário Aurélio, existem sete significados diferentes para esta palavra. O primeiro, o mais óbvio: “qualidade daquele ou daquilo que é indiferente”. Outro é “falta de cuidado, de zero”. O terceiro, para o qual vamos dar um pouco mais de atenção, é “apatia”.

Até a última quinta-feira, Felipe Massa era um piloto com 243 GPs disputados na F1. Após a já famosa coletiva na qual anunciou a aposentadoria na categoria, se transformou em um piloto com oito corridas para o fim de uma grande trajetória. Massa pode dar entrevistas afirmando o contrário e, conscientemente, nem pensar nisso. Mas, mesmo sem perceber, toda vez que vestiu o macacão, as luvas, balaclava e capacete recentemente pensou: "Está acabando".   

Isso fica claro quando pegamos os números da atual temporada: o brasileiro começou o campeonato na frente do companheiro Valtteri Bottas, mas, desde o GP da Rússia, vem constantemente ficando atrás do finlandês – agora, no Mundial, são 41 pontos de Massa, contra 70 do companheiro de equipe . “Eu já sabia há alguns meses, e não falei com nenhuma outra equipe, nem mesmo com a Williams, sobre 2017”, disse Felipe ao anunciar que deixaria a categoria. Para nós, basta apenas fazer a correlação de datas. 

 

Massa na Itália: bem atrás do companheiro de equipe (Massa na Itália)

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Em Monza, Felipe finalmente tirou o peso do anúncio das costas, mas foi apenas isso. No treino classificatório, o piloto ficou em décimo, tomando meio segundo do companheiro no Q2 – e Bottas, no final do Q3, ainda abocanhou o quinto posto. “Nessa última tentativa, tinha bastante carro na minha frente. Tive que ir muito devagar na preparação da volta e não consegui o grip necessário”, justificou Felipe Massa após a classificação, em entrevista ao SporTV.

Quando as luzes vermelhas se apagaram, já neste domingo, Felipe conseguiu se aproveitar das confusões da largada para subir para o oitavo lugar. Daí por diante, não houve uma grande ultrapassagem, arrojo ou qualquer outro traço que marcou a carreira de Massa na F1. Auxiliado por ter largado com pneus macios, contra os supermacios de boa parte dos carros no Top-10, o piloto do Williams alcançou o quinto lugar na 16ª volta. Foi o melhor momento em toda a corrida, até parar na volta seguinte e retornar em 11º.

Antes do segundo pitstop, entre as voltas de número 31 e 36, o brasileiro chegou a andar em sétimo – e foi só. Quando as posições se estacionaram e todos os carros estavam calçados com os últimos jogos de pneus, Massa estabilizou no nono posto. Ao final da corrida em Monza, trouxe dois pontos para casa.

“Se eu pudesse tirar um pouco mais dos meus pneus, então poderia ter sido melhor, mas estou satisfeito por termos conseguido somar pontos suficientes para voltar ao quarto lugar do Mundial de Construtores”, disse Felipe após o GP. De certa forma, o objetivo agora não é mais lutar por pódios, evoluir o carro e fazer o que for possível para ter um 2017 melhor. Ajudar a equipe da qual foi um grande parceiro desde 2014 já está bom.

Um certo grau de apatia, sim. Mas, quem pode culpá-lo? Felipe Massa já teve grandes resultados na F1, incluindo 11 vitórias, um vice-campeonato em 2008 e um terceiro lugar em 2006. Completar corridas e beliscar alguns pontos não deixam de marcar um fim de carreira digno na maior categoria do automobilismo. 

Jenson Button: boa corrida, apesar dos problemas na primeira volta (Button na Itália)

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Voltando ao Aurélio: outros significados para “indiferença” são “desprezo” e “negligência”.

Jenson Button não irá, ao menos por agora, falar abertamente se sentiu alguma mágoa da McLaren, que tirou o inglês da dupla titular em 2017 — sendo trocado por Stoffel Vadoorne, cria do programa de jovens pilotos do time e que substituiu Fernando Alonso no Bahrein, por conta do acidente do espanhol na prova anterior.  

O fato é que a equipe de Woking não fechou as portas ao inglês, mas não podemos afirmar que foi tão boazinha assim. Com quase 300 largadas na categoria, 15 vitórias e o título mundial de 2009, é inegável a competência de Button. Por isso, ao invés de deixa-lo a pé ou dependendo de negociações com Williams ou Renault, a McLaren preferiu oferecer um contrato para um ano sabático, passando 2017 como um “membro sênior” da equipe, envolvido com o desenvolvimento dos carros do time. 

Em seu site oficial, o time de Ron Dennis definiu essa como uma “inovadora estratégia de três pilotos”. Entende-se: a equipe não precisa se livrar dos dois campeões, que agregam bastante nesse momento no qual o conjunto McLaren-Honda precisa se encontrar, ao mesmo tempo que promove à titularidade um jovem talento, que pode ser o cara pra lutar por vitórias e, quem sabe, títulos no futuro. Se, nesse meio tempo, o novato se der mal ou o 'campeão titular' cansar de não lutar por vitórias e resolver ir pra casa, ainda há uma boa bala na agulha. Porém, na cabeça de Button, a grande questão que deve ficar é: “por que o Alonso como titular, e não eu?”. Ser transformado 'plano B' não deixa de ser, lá no fundo, um certo “desprezo” e “negligência” a tudo que o inglês fez na F1 e nessas oito temporadas de McLaren.

Talvez por todos esses sentimentos, e por querer mostrar que é ele quem merece essa posição de 'titular sênior' em 2017, Jenson Button correu muito bem em Monza. Só que ao largar em 14º, um décimo de segundo (e duas posições) distante de Alonso, o inglês fez uma corrida no meio do pelotão, ficando boa parte do tempo longe da transmissão oficial. Ou seja: vimos pouco. 

Tudo começou mal, porém. “Cometemos muitos erros na primeira volta. Fiz uma largada ruim e, então, na primeira Di Lesmo, uma das Sauber me jogou pra fora, e então fui forçado a sair da pista e ir para a brita”, disse o #22 mais tarde. Naquele começo de GP, ele era o 22º — e último – antes até do final da primeira volta. A partir dali foi uma grande corrida de recuperação, com o piloto ultrapassando diversos adversário. Antes da primeira parada, na 16ª volta, o inglês havia alcançado o 12º posto. Na volta 24, Button já estava logo atrás de Alonso.

A partir daí aconteceu uma verdadeira corrida particular entre os dois pilotos da McLaren. Sem grandes chances de pontuação para ambos, é verdade, mas provavelmente aquilo havia se tornado uma questão de honra para Jenson. Até que, na volta 43, o campeão de 2009 ultrapassou o bicampeão de 2005 e 2006. Button, reconhecido pelo bom trato que faz dos pneus, terminou em 12º, chegando bem próximo de Romain Grosjean, da Hass.

Já Fernando foi superado nas voltas finais por Esteban Gutierrez, também da Haas, após um último pit stop.

“Me diverti muito com algumas boas ultrapassagens, incluindo uma por fora na Parabólica, algo que não acontece com frequência. Fiquei muito feliz com a minha performance”, definiu o piloto, que, pelas palavras e pelo desempenho, não parece estar em ritmo de quem quer se aposentar. Já Alonso, que chegou a estar em nono no começo do GP, não justificou muito bem o anúncio deste fim de semana. “Terminar em 11º e 14º não faz muita diferença. Ao menos nós terminamos a corrida, o que é positivo”, resumiu o espanhol.

Será que Ron Dennis, Jost Capito e Éric Boullier, a trinca de chefões da McLaren, acabaram o fim de semana felizes com a escolha que fizeram?

Rosberg venceu, mas não é como se todo mundo estivesse empolgado com isso (Nico Rosberg na Itália)

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Retornando, pela última vez, ao Aurélio. Lá ainda há um último significado para “indiferença”: “frieza; insensibilidade”. E este aqui tem relação total com Nico Rosberg.

Não que o piloto da Mercedes dirija com qualquer uma dessas características, mas elas podem se aplicar muito bem ao sentimento do público em relação a ele no atual momento. O alemão assumiu a liderança logo na largada, após ver o pole (o companheiro de equipe Lewis Hamilton) deixar as rodas de seu Mercedes patinarem e, por causa disso, cair para a sexta posição.

A partir daí, Nico fez a corrida perfeita, ao menos para ele: liderou tranquilamente durante quase todas as voltas, sem nenhuma ameaça, deixando o primeiro lugar apenas por uma volta, a 25, após parar nos boxes para trocar os pneus. Depois, foi só esperar completar os 53 giros para receber a bandeira quadriculada.

Nesse meio tempo, a Flecha de Prata aparecia apenas esporadicamente, quase que como uma obrigação da transmissão com o primeiro colocado. De resto, o que interessava eram os pegas um pouco mais para trás. Hamilton, por outro lado, foi subindo na classificação, justificando para os patrocinadores da Mercedes os gordos contratos com uma boa exposição das marcas deles na TV mundial.

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Ao que se pode ver, tanto faz quanto tanto fez uma liderança de Rosberg. Com sete vitórias na atual temporada, uma a mais que o companheiro de time, o alemão sofre por não conseguir empolgar o público. Já são dois P1 seguidos, diminuindo a diferença para Hamilton em dois pontos, o que faz com que os fãs do automobilismo se empolguem quando olham a tabela de classificação, mas se frustrem quando a corrida começa.

Alguém pode alegar que era assim, por exemplo, nos tempos de domínio de Michael Schumacher e Vettel. Não era. O heptacampeão mundial, por mais que tenha tido diversas corridas que dominava praticamente com uma mão amarrada nas costas, ainda movimentava os corações dos fãs da categoria. Era amado e odiado por aquilo que havia feito em pista, um tempero interessante para curtir as suas vitórias. Já o tetracampeão adicionava um ar de juventude para a F1, com seus capacetes descolados, gritos de alegria no rádio, carros com apelidos chamativos e tudo mais.

Se Nico Rosberg quiser ser um campeão reconhecido, deve ter menos vitórias como as de Monza e mais disputas na pista, roda a roda, com Hamilton – e se dar bem nelas, claro. Só que para conquistar isso, ironicamente precisa torcer para quem acabe a má sorte do inglês. 

Em um Grande Prêmio da Itália pouco movimentado, foi realmente a indiferença, em seus diversos significados, que movimentou o domingo.
(Rosberg comemora vitória no GP da Itália)