Você pode não perceber, mas forma como o mundo consome o entretenimento e o esporte está mudando. A internet — e o streaming — está transformando o nosso relacionamento com as transmissões televisivas, que pareciam consolidadas desde os anos 1980 e 1990. Um fenômeno que traz impacto no automobilismo, principalmente na maior categoria de todas. A F1 pode sair completamente transformada desta fase, tanto para o bem quanto para o mal.
Para entender esse cenário é preciso analisar alguns números.
Hoje, de acordo com a Anatel, são 18,9 milhões de assinantes de TV paga no Brasil. Por mês, entre 40 e 50 mil famílias cancelam seus planos de televisão por assinatura. Efeito da “crise”? Sim, mas não aquela que você imagina: a queda acontece em todo o mundo, motivada por uma parcela cada vez maior da população que assina serviços de streaming, como a Netflix, ou que simplesmente encontra entretenimento em outras ferramentas, como apps e redes sociais.
Nos EUA, maior mercado de televisão paga do ocidente, meio milhão de famílias têm cancelado seus planos todos os anos, de 2014 pra cá, num ritmo que cresce a cada dia. Agora em novembro a rede ESPN de lá perdeu 621 mil assinantes, no pior mês da história do canal. Antes, a programação esportiva ao vivo sempre foi tida como um dos grandes pilares do argumento para se assinar uma TV por assinatura. Atualmente, parece que não importa mais.
Na TV aberta o fenômeno é parecido. Entre 2012 e 2015, o Jornal Nacional, principal produto jornalístico da Rede Globo, perdeu 28% da audiência. Até mesmo o futebol, sempre o campeão de audiência no Brasil, sofre do mesmo mal. A primeira rodada do Brasileirão em 2015 rendeu 22 pontos no Ibope para Band e Globo. Em 2016, a mesma rodada de estreia ficou nos 20,5 pontos da Globo, já sem a parceria da emissora paulista.
A F1 não é exceção: em 2005, a audiência média da categoria na Globo foi de 15,8 pontos – isso quando os brasileiros tiveram um ano ruim. Após um pico em 2008, com 17,1, a atenção do público brasileiro só caiu, chegando aos 7,7 pontos no ano passado.
Obviamente podemos creditar esses resultados aos mais diversos fatores — mudanças no regulamento na F1, falta de competividade, brasileiros com resultados ruins, o 7 a 1, o fraco futebol mostrado nos campos do Brasileirão, transmissões ruins, crise financeira… Tudo isso, claro, ajuda a montar um cenário de queda, mas não é só isso. Há uma conjuntura muito maior, e as categorias esportivas precisam entender esse cenário para voltar a crescer.

De olho na TV (De olho na TV)
A primeira questão: não adianta mais querer tirar bilhões de dólares das redes de TV em troca dos direitos de transmissão. Uma pesquisa feita recentemente pelo 'Business Insider' revelou que os custos destes direitos para a ESPN nos EUA serão, em 2017, mais do que a rede esportiva recebe dos assinantes. A publicidade, a outra grande fonte de renda, terá não só que compensar esse déficit, como pagar todos os custos com salários, transmissões, equipamentos… No entanto, com a queda de assinantes cada vez mais contundente, essa é uma receita que também deverá diminuir.
Uma saída seria vender a ESPN diretamente via internet, como streaming, no mesmo formato da Netflix. Só que essa não é um caminho viável, ao menos hoje. O que se diz, no mercado, é que canais pagos são proibidos pelas operadoras, em seus contratos, de oferecer o sinal diretamente ao consumidor final.
Não há números do Brasil e na América Latina, já que aqui as coisas são muito mais fechadas neste sentido, mas podemos chutar uma situação ainda mais complicada.
Falando da F1, especificamente, o mercado asiático é uma grande esperança
. Na China, em 2015, eram nada menos que 264 milhões de assinantes — número maior que a população do Brasil — e um faturamento que cresce no ritmo de US$ 2 bilhões por ano. Porém, por mais que haja uma ocidentalização da cultura e do gosto por lá, fica difícil vender com sucesso um produto totalmente pensado nos moldes ocidentais, ou, melhor dizendo, nos moldes europeus.
Tanto é que o circuito de Xangai tem capacidade para receber 200 mil pessoas, mas só vendeu praticamente todos os ingressos da F1 no primeiro ano, em 2004. Agora em 2016 foram "apenas" 160 mil espectadores, ainda assim o recorde dos últimos quatro anos.
Apesar desse cenário não muito bom, a F1 tem potencial. Não foi à toa que a categoria foi vendida para a Liberty Media por US$ 8 bilhões. O grupo norte-americano tem bastante experiência com televisão paga, então eles devem engrossar as negociações com os canais ao redor do globo. Mas eles também sabem que esse é um mercado com dias contados.
Por isso, existem dois grandes caminhos para a categoria, e ambos envolvem a internet.

Nesse formato já existem o PlayStation Vue e o Sling TV. A AT&T, via DirecTV, deve lançar em breve a sua própria versão, agora turbinada pelos conteúdos que estão vindo com a compra da Time Warner. Outra novidade para breve é o Hulu, que anunciou que seu serviço de OTT terá canais da Fox e da Disney — incluindo justamente Fox Sports e ESPN.
Para os canais, isso representa a oportunidade de chegar à era da internet, sem serem vendidos via as tradicionais operadoras, e ainda sem quebrar qualquer contrato existente. Os valores de faturamento não serão as mesmas, mas eles poderão continuar a crescer enquanto recebem mais de assinantes e de anunciantes. Do outro lado, os donos dos grandes eventos esportivos vão continuar cobrando caro pelos direitos. Talvez sem a mesma escalada inflacionária, mas não se pode ter tudo neste mundo.
Isso tudo, claro, é falando dos EUA. De qualquer forma, o mercado norte-americano dita tendências para o resto do mundo. Por aqui, a emissora da família Marinho já vende o serviço Globo Play e teria força para, sozinha, peitar as operadoras para lançar algo do tipo com os canais pagos, incluindo o SporTV. Só precisam chegar no momento certo para isso.
A outra opção é que os esportes cortem o intermediário. Afinal, internet é mais fácil de se meter, não precisa passar cabo, lançar satélite ou coisa assim. É só ter uma boa transmissão para a internet e está tudo certo. Hoje, quem faz esse serviço muito bem é a NBA, que vende o chamado League Pass, que dá direito ao fã de basquete a acompanhar todas as partidas da categoria por R$ 44,99. Há opções mais baratas, como pagar R$ 25,99 para ver apenas o seu time do coração, ou R$ 15,99 para ver oito jogos no mês.
Sim, os preços são em reais, mostrando o quanto a iniciativa é internacional.
A Major League Soccer, principal campeonato de futebol dos EUA, também possui um serviço parecido, mas apenas disponível por lá. Por US$ 19,99, o fã pode acompanhar todos os jogos, menos aqueles que forem transmitidos nacionalmente. Se você quiser apenas as partidas de um time específico, o valor cai para US$ 15,99.
A F1? Bom, lá as coisas ainda estão engatinhando. Por US$ 2,99 o fã da categoria pode ter acesso ao live timing via app no celular ou tablet. Apenas isso. Obviamente oferecer uma transmissão pode enfrentar entraves de contratos com redes locais em todo o mundo, mas é uma briga que, se for muito adiada, pode fazer com que a categoria naufrague junto com os canais.
Outras categorias podem se aproveitar da lentidão da F1 para ocupar espaço. A F-E, que já investe em eSports e também traz diversos programas em vídeo em seu app para smartphones, poderia apostar no streaming para crescer mundialmente, e até contornar o problema que pode ser a venda de direitos em alguns mercados.
Aliás, não precisa ir nem muito longe: hoje mesmo o GRANDE PRÊMIO já transmite, sem custo algum ao espectador, as corridas de sábado do Brasileiro de Turismo.
Não importa muito o caminho para chegar lá, mas a verdade é uma só: daqui alguns anos, você verá automobilismo pela internet. Se ele não estiver aqui, é porque está morto.
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