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Lá se vão longos anos, é verdade. Por outro lado, os pilotos são cada vez mais jovens. A renovada F1 que emparelhar no grid de largada para o GP da Austrália, em 26 de março, claro, conhece a vida e a obra de Ayrton Senna, mas a memória e o tempo correm travando uma batalha injusta ainda que não se conheça o vencedor. Os meninos que hoje sentam nos carros da principal categoria do automobilismo já são desafiados pela memória e exigidos pelo tempo a lembrar da história do tricampeão.
Os mais críticos (ou apaixonados mesmo) vão com razão lembrar que pouca gente hoje era nascida em 1914, ano da Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, ninguém parece duvidar dos livros de história que garantem que grandes potências se organizaram em duas grandes alianças opostas em um dos conflitos mais mortais da humanidade. Do mesmo modo, Ayrton Senna também existiu. Mais do que isso, saiu dos livros, fotos e filmes da época para deixar legado e saudade dentro e fora da F1. Ainda assim, os mais novos não o viram.
Da F1 atual, 25% dos pilotos sequer eram nascidos até aquele fatídico 1.º de maio de 1994, quase 23 anos atrás. Lance Stroll (18 anos hoje), Max Vertappen (19), Esteban Ocon (20), Carlos Sainz Jr. (22) e Pascal Wehrlein (22) não acompanharam em ação o que para muitos foi o maior de todos os tempos. O mais provável é que tenham tomado conta dos feitos do brasileiro com os próprios contemporâneos de Senna, que hoje teria 56 anos se estivesse vivo, e também nas já tão acessíveis e variadas formas de “memórias digitais”.

Ao esganar os números um pouco mais, é possível chegar à conclusão que, pela pouca idade na época, outros pilotos também não se lembram verdadeiramente de Senna – Daniil Kvyat, por exemplo, que está fora da conta inicial, tinha cinco dias naquela tarde de domingo. Sendo praticamente impossível ter fielmente na memória quem foi o tricampeão com menos de cinco anos, o grupo então ganha Valtteri Bottas (27 anos hoje), Daniel Ricciardo (27), Sérgio Pérez (27), Jolyon Palmer (26), Marcus Ericsson (26), Stoffel Vandoorne (24), Kevin Magnussen (24), além do próprio Kvyat (22). Daí a estatística passa para 65% do atual grid da F1.
Autor do livro “100 Senna”, obra que reúne fotos preciosas de objetos pessoais do piloto, Celso de Campos Jr. inicialmente se espanta com os anos transcorridos e paralelamente com a juventude dos pilotos atuais. Apesar disso, acredita que, como uma em uma disciplina escolar, Senna “deveria fazer parte da formação de cada piloto”.
(Divulgação/Williams)
“O Senna ficará para sempre na memória das pessoas. Sempre elas vão saber quem ele foi”, disse Campos Jr. “Mas o fundamental é entender que Senna não foi só um recordista, um tricampeão mundial. Os números não são o que o definem, mas sim justamente a postura, a dedicação e o carisma. Não acho que Senna será esquecido, mas acho que seja sempre importante conhecer o legado Senna.”
Se por um lado os pilotos estão aderindo à principal categoria do automobilismo cada vez mais jovem – como é o caso do imberbe e estreante Stroll; de outro, Lewis Hamilton (32), Fernando Alonso (35), Felipe Massa (35) e Kimi Raikkonen (37) puxam a média de idade para cima: 26,55 anos, já bem próximo das mais de duas décadas de ausência de Senna. O caminho natural ainda mexe com fãs do piloto, mas também alerta que é preciso preservar a memória do tricampeão.
(Divulgação/Williams)

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Também por isso, torna-se louvável para a imagem do piloto o que Hamilton faz por iniciativa própria a cada GP do Brasil desde 2011, quando pela primeira vez apareceu com o “S” em seu capacete, como o das camisetas que via Senna usar por baixo do macacão. Mesmo antes disso, sempre correu com o casco amarelo e listras estilizadas em verde a e azul como o modelo do ídolo de infância. Como não poderia deixar de ser, recebeu sempre enorme carinho dos fãs em Interlagos e teve retribuída as homenagens em pulseira, boné, quadro, estatueta e outros presentes entregues pelo Instituto Ayrton Senna.
O presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, ajuda os mais novos a compreender o que foi Senna. Para o psicólogo, o piloto “passou o campo da representação esportiva e passou a ser herói nacional”, uma referência para o “ideal de identidade”, muito pela confluência das características do brasileiro ser tradicionalmente um povo de “baixa auto-estima e carente de ídolos”.
“A mídia e a cultura se encarregam de perpetuar a história do Senna. Daqui a cem anos, já quando os carros de F1 estiverem em outro patamar, supermodernos, vão se lembrar de Senna. O Senna é um ícone mundial. Amado, claro, por brasileiros, mas adorado entre europeus e japoneses por exemplo. Isso faz dele um imortal por tudo aquilo que representou”, disse Cozac.
No fim das contas, a memória tende a sobreviver ao tempo até mesmo na F1. Mas são os novos meninos do grid que estão com o volante nas mãos para decidir mais essa batalha.
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