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A vitória nas 500 Milhas de Indianápolis quase vale um campeonato inteiro da Indy, dizem. E parece que a Andretti leva essa premissa a sério. Embora venha encontrando dificuldade para se colocar como a rival mais forte da Penske — a verdade é que a equipe da Carolina do Norte não vem tendo adversárias reais em 2016 —, a esquadra comandada por Michael Andretti sabe como ninguém como tirar proveito das oportunidades e, como um jogador astuto de pôquer, não tem medo de arriscar. Talvez aí esteja seu grande mérito e, certamente, um dos fatores que a puseram em uma posição de ganhar a mais importante corrida da série norte-americana neste ano. E com o piloto que menos experiência possuía no grande oval. 

A Andretti jogou todos os dados seus na mesa no mês de maio. E foi recompensada. Apostou em um talento até então desconhecido na América e o colocou sob a tutela de Bryan Herta, que vivia um momento delicado do ponto de vista financeiro. Também buscou forças na Honda, também desacreditada diante da performance sólida e consistente da rival Chevrolet, que vinha também servindo as outras duas principais equipes do grid. 

Porém, para contar a história de como a esquadra alcançou o sucesso no templo da velocidade e deu início a uma nova caminhada na temporada, é preciso voltar o relógio para o mês de fevereiro. Lá no início do ano, o filho de Mario decidiu absolver a equipe do grande amigo Bryan Herta. O norte-americano, que estava lá com Andretti em 2003 na época da compra do time, atravessava uma fase de extrema fragilidade financeira, à beira do fechamento. Michael achou que o momento era adequado e trouxe toda a operação da equipe de Herta para a Andretti Autosport. 

Alexander Rossi se juntou à equipe na última hora (Alexander Rossi (Foto: Getty Images))

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Só que havia um problema: quem seria o piloto. O dirigente queria um carro para Justin Wilson, mas o destino interferiu tragicamente. Ainda restava alguém. E esse alguém era o jovem Alexander Rossi, que Andretti havia conhecido um ano antes. Na verdade, Michael já acompanhava a carreira da promessa há muito tempo, mesmo Rossi tendo construído sua trajetória visando a F1.

Só que o menino estava sem rumo naquele início de ano. Os planos do lado de lá do Oceano Atlântico tinham minguado. Alexander perdera o lugar na nova Manor e se viu sem ter como tocar a vida, depois de um 2015 em que disputou cinco corridas na então Marussia, além do vice-campeonato na GP2. 

Alexander acertou a vida com a Andretti no fim de fevereiro, para andar no carro #98, sob o comando de Herta. Assim, a Andretti iniciou a temporada com quatro pilotos. Além de Rossi, os titulares Marco Andretti, Ryan Hunter-Reay e Carlos Muñoz completaram o quarteto. Para a Indy 500, Andretti ainda chamou o experiente Townsend Bell. Ou seja, era uma equipe até maior que as duas rivais Penske e Ganassi.

Só que os desafios da Andretti eram ainda maiores do que de suas adversárias. A Honda era a primeira questão. E a adaptação de Rossi, a segunda. Durante os treinos livres para a prova do dia 29 de maio, a Andretti e a Honda dedicaram horas e horas ao aprimoramento do motor e da aerodinâmica. Os pilotos andaram muito e, por vezes, se viram como os mais rápidos do superoval nas sessões que antecederam ao Pole Day, incluindo o próprio Rossi, que, no meio desse esforço todo, também tratou de se ambientar ao oval, cuja experiência anterior em corrida havia sido apenas a etapa de Phoenix – disputada ainda em abril.
(Alexander Rossi venceu a Indy 500 em 2016 (Foto: Beto Issa))

Bryan Herta e a Honda tiveram um papel importante na vitória da Andretti (Bryan Herta (Foto: Getty Images))

O PAPEL DA HONDA

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Desde o início do campeonato a Honda se mostrou frágil diante da Chevrolet. E não conseguia com suas equipes impor qualquer resistência aos carros empurrados pela marca da gravatinha, incluindo aí os modelos da Penske, que, depois de perder o título do ano passado, voltou muito forte e contando com um inspiradíssimo Simon Pagenaud. Até o início dos treinos para a Indy 500, a Andretti tinha em Ryan Hunter-Reay seu melhor piloto na tabela de classificação. O norte-americano, vencedor em Indianápolis em 2014, ocupava apenas a décima colocação na tabela geral, com 87 pontos contra 188 do líder Pagenaud. A equipe somava apenas um pódio, de Hunter-Reay, com o terceiro lugar em São Petersburgo, na abertura do ano. Neste período, a Chevrolet levou simplesmente todas as cinco primeiras provas do campeonato.

Então, era hora de reagir. E os treinos foram fundamentais para a melhora da performance da Honda. Os japoneses focaram, de fato, na velocidade e nem tanto na confiabilidade. Ainda assim, a orientação dada pela Andretti foi também um ponto que a distinguiu das demais. Além disso, a experiência de seus pilotos fez a diferença. Das sete sessões efetivamente realizadas em Indianápolis – o segundo treino foi cancelado pela chuva -, a Andretti liderou quatro, incluindo as duas atividades que antecederam à definição das posições de largada. 

E tamanho esforço da Honda se refletiu no grid. James Hinchcliffe, embora na Schmidt Peterson, foi o pole empurrado pelo atualizado motor japonês. E a marca ainda colocou mais quatro carros entre os nove mais rápidos. 

“Sempre confiei na Honda”, disse Michael ao GRANDE PREMIUM depois de vencer a Indy 500. “Eu realmente fiquei chateado com as críticas, mas nós conseguimos virar o jogo. E, juntos, fizemos um incrível trabalho neste mês. Eles conseguiram nos dar a força que precisávamos, e isso nos permitiu ter a competitividade necessária. Não foi uma completa surpresa para mim, pois sabia de todo o nosso trabalho”, completou. 

E a vitória tirou qualquer dúvida sobre uma eventual mudança. “Não, nem penso nisso”, acrescentou. “não temos a menor intenção de mudar. E agora é continuar trabalhando dessa mesma maneira.”

Rossi tinha tudo planejado para chegar à F1. Mas quando tudo deu errado, foi Michael Andretti quem lhe deu a chance que deve mudar sua carreira (Alexander Rossi venceu a Indy 500 em 2016 (Foto: Beto Issa))
UM NOVATO QUE PARECEU VETERANO

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O outro lado do grande desempenho da Andretti em Indianápolis obviamente tem a ver com Alexander Rossi e Bryan Herta. O novato, sem qualquer experiência na Indy em si, fechou acordo no instante final e decidiu também arriscar a carreira na série americana, depois de ter ficado sem opções na Europa.

Nascido em Auburn, Califórnia, em 23 de setembro de 1991, Alex se tornou piloto pela influência do pai. E deixou os EUA rumo ao sonho de conquistar a F1 com apenas 16 anos, depois de ganhar um teste com a então BMW Sauber no Mundial, por meio da vitória em um torneio da F-BMW em 2008. 

Rossi, portanto, construiu sua trajetória andando nas categorias europeias, como a antiga World Series, a GP2 Asia, a GP2 e até GP3. Tudo isso foi necessário para ganhar uma chance na F1, que veio por meio da Caterham em 2012. O piloto se manteve ligado à esquadra malaia até meados de 2014, depois que o time começou a se deparar com o fracasso. Da Caterham, Alex viu surgir a chance na Marussia – mas esta também já vivia a duras penas. 

“Eu deixei a Califórnia com 16 anos e fui para a Europa. O meu sonho era a F1. E sempre foi desde que eu tinha dez anos de idade. Quando a chance chegou, não quis desperdiçar. E foi uma conquista estar ligado a equipes da F1. Mas 2014 foi um ano incrivelmente desafiador por diferentes razões”, disse ao GRANDE PREMIUM.
(Michael Andretti (Foto: Getty Images))

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“Mas, no fim, eu não sabia o que ia fazer”, completou. Na verdade, naquele mesmo ano, as duas menores equipes do grid do Mundial sucumbiram. A Caterham simplesmente deixou de existir, enquanto a Marussia voltou para o ano seguinte, ainda que capengando. Mas ganhou fôlego ao ser adquirida por um empresário norte-irlandês do ramo de energia na Inglaterra. A partir daí, o time foi tentando se reerguer, e Alexander finalmente teve a sua chance de estrear na F1. Ainda que seguisse na GP2, Rossi debutou no GP de Cingapura e fez mais quatro corridas em 2015.

“Eu tive uma nova chance em 2015 e voltei à Europa para correr na GP2. Foi nessa época que conheci Michael. E nós conversamos sobre as oportunidades que poderiam aparecer naquele ano. Mas eu optei pela Europa, agarrei a chance. E como resultado, acabei fazendo cinco corridas na F1 e também ainda completei a temporada na GP2."

Só que, depois disso, as oportunidades desapareceram. “As coisas não funcionaram de acordo com os planos que eu tinha para 2016 na Europa”, reconheceu. “Mas aí surgiu essa chance aqui, com Michael e Bryan. E isso foi extraordinário. Quatro meses depois, chegamos a Indianápolis e vencemos. É absolutamente incrível”, acrescentou. 

Nas voltas finais da corrida em Indianápolis, quando Rossi assumiu a liderança enquanto os líderes pararam, era a voz de Herta que o jovem ouvia no rádio. O ex-piloto chamava a atenção do novato para consumo de combustível e o tráfego na pista. Alexander conseguiu entrar para a história ao se recuperar em uma corrida tática e ao saber poupar seu carro.

“Eu fiquei por muito tempo com o som daquela última volta na cabeça, com Bryan gritando comigo. Foi fantástico. E até agora não acredito."

Herta também se mostrou chocado. “Foi inacreditável o que aconteceu. Esse rapaz chegou aqui em 23 de fevereiro, sem saber nada sobre isso aqui. Foi mágico”, disse, tendo a frase completada por Michael: “Ele não tinha a menor ideia. Honestamente, não tinha a menor ideia mesmo. Ele era 100% Europa, desde a maneira de treinar, tudo. Ele nunca tinha visto um oval, exceto em Phoenix pouco antes disso aqui. Por isso, é realmente impressionante o que ele fez.”

“Ele trabalhou muito nesse tempo todo. Sempre muito envolvido e agradecido pela oportunidade dada por Michael. Porque não fui quem encontrou esse rapaz, foi Michael, foi ele que o observou e quis lhe dar uma chance. Acreditou”, emendou Bryan. 

Herta ainda foi lembrado sobre a vitória de Dan Wheldon em 2011. E questionado se a emoção era a mesma ou se o triunfo do novato terá mais importância. Ao GRANDE PREMIUM, o norte-americano disse ser impossível responder. “São sentimentos muito particulares e não conseguimos ver uma vitória melhor que a outra. E é diferente. Ninguém sabe o quão difícieis foram as aqueles últimas voltas no rádio, quando eu estava dizendo a Alex o que fazer. E ele fez exatamente o que eu queria. Dan também foi fantástico.”

Ao fim e ao cabo, Bryan se sente orgulhoso do trabalho feito ao lado de Rossi e da confiança depositada por Michael. “Eu estou muito agradecido. Quando estávamos no desfile, em Indianápolis, eu disse a ele: muito obrigado. Sem ele, provavelmente eu teria visto tudo do sofá. A Indy 500 é incrível, a Indy é. Não dá para descrever”, completou o ex-dono de equipe.

E Rossi levou as 500 Milhas de Indianápolis em sua primeira vez no superoval. E entrou para a história (Alexander Rossi venceu a Indy 500 em 2016 (Foto: Beto Issa))

Quanto a Rossi, ele segue na equipe ao menos até o fim do ano, assim como o trabalho de reserva na Manor. E a F1? “Para ser honesto, não tenho a menor ideia do que vai acontecer daqui para frente. Não vou estar em nenhuma corrida da F1 por enquanto. Continuo como piloto reserva. Eu apenas sento em algum lugar lá e finjo que sou alguém importante”, brincou. 

Na verdade, não precisa mais fingir.

A Andretti, por sua vez, tem uma grande chance neste fim de semana de seguir com sua trajetória de sucesso em Iowa, onde a Indy se reúne para a décima etapa da temporada 2017. Só a equipe de Michael venceu no pequeno oval desde 2007.