Ao longo da Era Híbrida da Fórmula 1, foi possível desenvolver uma espécie de termômetro da Mercedes. Um termômetro baseado nas reações de Toto Wolff ou, para ser ainda mais específico, baseado nos nem tão costumeiros socos na mesa do chefe da equipe mais dominante nos últimos anos. O sábado (28) do treino classificatório para o GP da Rússia foi um dia para quase perder a cabeça. Charles Leclerc, da Ferrari, passeou de novo e deixou Lewis Hamilton para trás para enfileirar a quarta pole-position consecutiva na temporada.

A largada para a 16ª das 22 etapas do Mundial acontece neste domingo, às 8h10 (de Brasília), com cobertura em tempo real do GRANDE PRÊMIO.

O time prateado chegou ao balneário de Sóchi com alguma pressão apesar da ampla vantagem de Hamilton sobre os principais adversários — são 65 pontos a mais que o vice-líder e companheiro Valtteri Bottas e 96 a mais para o terceiro colocado, Leclerc.

A última vitória do inglês foi lá no GP da Hungria e, em termos de ritmo de classificação, o pentacampeão não faz a pole desde antes ainda, no GP da Alemanha, cinco corridas atrás. Verstappen (Hungria) e Leclerc (Bélgica, Itália e Singapura) ficaram com a primeira posição do grid nas últimas corridas.

Só por aí já seria motivo para qualquer destempero nos boxes da equipe alemã. Não foi o que aconteceu apesar de declarações espantadas com o desempenho da rival. Uma análise mais fria, claro, mostra que mais um título está pelo menos muito bem encaminhado. A ótima evolução da Ferrari da parada da F1 para cá, no entanto, deveria ser motivo para alterar pelo menos um pouco mais as reações na garagem da equipe. Isso sem levar em conta o desenvolvimento dos carros para a próxima temporada.

Nas três sessões de treinos livres, Leclerc e Verstappen se revezaram na liderança. Daí para o termômetro da Mercedes, foi possível ver Wolff com a cara fechada, sim, mas sem qualquer reação mais aguda ou preocupada com o futuro do campeonato. Ele inclusive chegou a dizer que o holandês também seria um dos favoritos a pole, o que esteve longe de acontecer. Isso leva a crer que a Mercedes vive sob um risco controlado mesmo quando não figura na primeira posição.
(Reprodução/Instagram/@mercedesamgf1)

O que Wolff e a Mercedes inteira não contavam era com outra atuação exuberante de Leclerc (1min31s628, contra +0s402 de Hamilton). O monegasco, de 21 anos, está pra lá de à vontade no carro e até se permitiu deixar os números de lado na entrevista após o classificatório. Como lembrou Jenson Button, ex-piloto que fez o papel de repórter ainda no grid, desde Michael Schumacher um piloto da Ferrari não faz quatro poles seguidas.

“O carro está incrível. Estou me sentindo bem de volta à pole. Só não sei se é o melhor circuito para se largar na pole por que a reta é muito longa depois da largada”, brincou Leclerc. “É sem dúvida muito muito especial [conquistar quatro poles seguidas], mas eu não quero pensar nessas estatísticas agora. Estou focado no trabalho e sei que ainda tenho um longo caminho.”

As explicações tanto de Wolff quanto de Hamilton para o revés na Rússia foram basicamente as mesmas. Os dois entendem que a Ferrari é muito veloz de reta e isso foi, de novo, fundamental na definição da posição de honra do grid.

Leclerc deixou Hamilton para trás e enfileirou a quarta pole-position consecutiva na temporada 2019 (Divulgação/Ferrari)

“Estou feliz pelo time porque o Lewis tirou tudo que era possível na volta. O time que trabalha no motor fez o seu melhor para o pacote deste fim de semana, mas contra sete, oito décimos de segundo nas retas não tem muito o que fazer”, justificou o chefão.

“Foi uma classificação difícil porque esses caras [a Ferrari] têm uma velocidade maluca nas retas. Eles vão a outro nível. Eles estão em um ‘modo jato’”, completou Hamilton.

Os tempos sugerem ser outros, mas ninguém além da Mercedes venceu nas morosas esquinas do Parque Olímpico de Sóchi: Hamilton (2014, 2015 e 2018), Nico Rosberg (2016) e Valtteri Bottas (2017) foram os vitoriosos até aqui. O desempenho da Ferrari mostra que a coisa pode ser diferente desta vez e, quem sabe assim, alterar o termômetro da Mercedes.

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