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O automobilismo brasileiro passa por um período de pouco sucesso em âmbito internacional. A fase é tão complicada que, por muito pouco, o país não ficou sem nenhum piloto no grid da F1, sendo salvo pelo gongo com a aposentadoria de Nico Rosberg e consequente retorno de Felipe Massa.

E é possível dizer que tal fenômeno não é exclusividade da F1. Na Indy, categoria que já teve tantos brasileiros fazendo sucesso, a perspectiva de renovação era das piores e parecia questão de tempo até que Helio Castroneves e Tony Kanaan se aposentassem e deixassem o grid sem nenhum piloto brasileiro.

Na temporada 2017, porém, este cenário vem mudando drasticamente. Enquanto os veteranos Castroneves e Kanaan seguem na categoria principal e ainda nem pensam em parar, três nomes aparecem com grande destaque no Road to Indy: Matheus Leist, na Indy Lights e Victor Franzoni e Carlos Cunha, na Pro Mazda.

Os dois campeonatos são as principais preliminares dos eventos da Indy e, também, as grandes portas de acesso para a categoria máxima dos monopostos nos EUA. Do grid atual da Indy, Kanaan, Scott Dixon, JR Hildebrand, Josef Newgarden, Spencer Pigot e Ed Jones foram campeões da Lights, enquanto Pigot e Conor Daly também levantaram o caneco na Pro Mazda.

 

(Matheus Leist venceu em Indianápolis)

Com apenas 18 anos e badalado pela conquista da F3 Inglesa em 2016, Leist mudou de vida neste ano para tentar a sorte no automobilismo norte-americano. O gaúcho assinou com a Carlin e não demorou nada para que começasse a impressionar na Lights.
 
Em sua sétima corrida pela categoria e na estreia em ovais, buscou a primeira vitória, logo nas tão esperadas 100 Milhas de Indianápolis, evento tradicional que acontece no Carb Day da Indy 500. Neste ano, a visibilidade que Matheus conseguiu foi ainda maior, já que o mundo parou para ver Fernando Alonso tentar a sorte no desconhecido.
 
“Diria que o nosso começo de temporada foi razoável. Tivemos algumas dificuldades nas primeiras provas, mas eu acabei de vencer a corrida mais importante da categoria. Tenho a desvantagem de não conhecer nenhuma pista, também não conhecia nenhum dos meus adversários, então é um começo dentro esperado”, comenta o gaúcho ao GRANDE PREMIUM.
 
Além da óbvia necessidade de adaptação aos ovais, Leist enfrenta outros desafios como o encontro com novos adversários, pistas completamente desconhecidas e um carro que, por mais que seja monoposto como os que guiava na Europa, tem diversas peculiaridades.
 
“Tenho gostado muito da categoria. É bem disputada, as corridas são longas, algo que é novo pra mim, além de ter um grid que é bem forte com gente que andou na Europa, campeões em outras categorias. O carro também é muito forte, tem push-to-pass”, diz.
Com todas as adaptações necessárias para a categoria, Leist espantou ao vencer em Indianápolis sua primeira prova na Lights justamente em um oval. A vitória, no entanto, não foi um acaso.

“Acho que a minha primeira vitória ter sido em oval foi um pouco surpreendente, mas a semana toda já tinha sido muito boa. Claro que todo mundo ficou surpreso, mas desde a segunda-feira eu estava com um ritmo muito bom, conseguindo antecipar o que a equipe queria. Nosso carro estava muito bom, a gente já sabia o que precisaria para vencer”, afirma.

O triunfo na principal corrida do calendário da Lights, além de tudo que simboliza, ainda serviu para devolver Matheus para a briga pelo título de 2017. Agora, o piloto de Novo Hamburgo vem em sexto, apenas 30 pontos atrás de Kyle Kaiser.

“É bem difícil fazer projeções para pistas em que eu não sei bem o que esperar, onde nunca andei. De qualquer forma, estou na briga, sou sexto, mas não estou longe do líder, então podemos pensar em título, sim. Espero lutar por mais algumas vitórias e, quem sabe, brigar pelo título para já correr de Indy no ano que vem”, segue.

Leist exaltou as trajetórias e o comportamento de Castroneves e Kanaan, pilotos que acompanhou de perto durante a última Indy 500. Para o gaúcho, sua ascensão junto com a da dupla da Pro Mazda tende a encerrar a espera por novos brasileiros na categoria.

“Não sei bem se renovação brasileira é o termo, mas certamente chegou a hora de mais pilotos brasileiros entrarem na Indy. Tony e Helio estão lá com muitos méritos e, pelo que acompanhei de vários eventos da Indy 500, são os dois caras mais queridos do grid. Eu adoraria  ter a oportunidade de correr junto com eles, são dois nomes de muito peso”, encerra.
(Matheus Leist (Foto: Reprodução/Twitter))

Matheus Leist venceu as 100 Milhas de Indianápolis (Matheus Leist venceu as 100 Milhas da Lights)
 

Franzoni é o mais velho do trio e também aquele que já construiu mais história no automobilismo americano. Terceiro colocado na USF2000 no ano passado, o paulista subiu de categoria em 2017, fechando com a tradicional equipe Juncos.

 

“A oportunidade de correr com a Juncos apareceu uma semana antes da primeira corrida, então foi bem em cima da hora. Antes eu estava praticamente certo com a Arms Up na USF2000 de novo, mas o Ricardo Juncos me ligou, avisou que tinha conseguido fechar também com outro piloto e desistiu da ideia de deixar a Pro Mazda”, explica ao GP*.

 

Mesmo sem fazer a quantidade ideal de treinos, mas aproveitando do ótimo equipamento do time, Victor até aqui vai tendo uma grande performance no campeonato: após quatro corridas, é dele a liderança da tabela de pontos.

 

“Eu admito que em St. Pete estava esperando mais. A gente tomou tempo do Martin e até mesmo dos Pelfrey. Não fiquei triste, mas um pouco pessimista, não sabia o que esperar dali para frente. Em Indianápolis eu sabia que a gente teria um grande carro. Eu treinei com eles lá anteriormente e tinha sido muito bom, então as expectativas eram altas. Acabou sendo ainda melhor, fizemos tudo que a gente realmente precisava ter feito e, de quebra, o Martin ainda foi quarto, então eu saí líder. Ficou acima do esperado”, comenta.

(Victor Franzoni venceu em Indianápolis)

Por melhor que esteja sendo a temporada de Franzoni dentro das pistas, o brasileiro continua tendo de se virar para conseguir correr. Sem patrocínio, o garoto mantém na rotina atividades como a de mecânico e a de coach em outras categorias.

“Tudo para mim sempre foi batalhado. Eu, meu pai e nada de patrocinador, sempre procuramos alguma equipe que pudesse me bancar, dar um jeito. Praticamente todos esses anos foram comigo trabalhando de mecânico de kart para pagar os pneus e meu pai, no Brasil, para bancar as inscrições. Este ano estou no esquema de sempre, mas agora as coisas melhoraram, tenho chances de ir para a Lights e aí ter um ano direito, com treinos que nem todo mundo e essas coisas. Não está fácil, mas ao menos estamos conseguindo levar. Se tudo der certo, se eu for campeão, ano que vem na Lights vou ter tudo o que eu queria, os treinos e tal. Vai ser a grande oportunidade para dar sequência no meu caminho”, diz.

Franzoni também falou da possibilidade de chegar à Indy em um futuro próximo com Leist e Cunha. Para o piloto, a equação do sucesso não é das mais simples, mas o trio vai percorrendo os caminhos certos para, um dia, alcançar o objetivo máximo do Road to Indy.
 
“Espero muito que sim, que a gente consiga. Nós três estamos bem, sempre andando na frente, acho que temos grandes chances. Claro, depende de muitos outros fatores, sorte, dinheiro, mas creio que nós três somos bons candidatos a chegar lá. As equipes gostam da gente, estamos fazendo bons trabalhos, então minha torcida é que nós tenhamos essa chance”, completa.
Victor Franzoni mandou na Pro Mazda em Indianápolis (Victor Franzoni dominou totalmente em Indianápolis)
 

Cunha é o caçula da turma, tem apenas 17 anos e, assim como Leist, praticamente acabou de desembarcar nos EUA. No entanto, o quarto lugar na classificação da Pro Mazda também já permite que o piloto de Campinas sonhe alto, projetando um lugarzinho na Indy em algumas temporadas.

 

“O Brasil está precisando de novos nomes na Indy. Em geral, o brasileiro costuma olhar bem menos para o automobilismo americano do que para o europeu e eu prometo que vou me esforçar para que isso mude. O Helio e o Tony têm grandes carreiras na Indy, mas são 20 anos lá, uma hora eles se cansam, então precisamos ter novos pilotos chegando e eu torço bastante para que sejamos nós”, declara ao GP*.

 

Com passagem pela F3 Brasil, Cunha chegou naquele momento decisivo de escolher que rumo dar à carreira. Prestes a optar pelo automobilismo europeu, teve junto de seu pai a ideia de percorrer o mesmo caminho tentado, no ano passado, por André Negrão.

 

“A ideia surgiu do meu pai. Eu estava com praticamente tudo certo para correr na Europa, mas pensamos na possibilidade de fazer outra coisa. A gente lembrou de um amigo, o André Negrão, dele ter feito a Indy Lights, além claro de Tony e Helio, então resolvi tentar um teste e acabei fechando com a Pelfrey”, conta.

(Carlos Cunha iniciou muito bem seu caminho na Pro Mazda)

Victor Franzoni e Carlos Cunha no pódio da Pro Mazda (Victor Franzoni e Carlos Cunha juntos no pódio em Indianápolis)
Carlos sabe que não vai ser fácil alcançar Franzoni na tabela de pontos, mas não descartou totalmente a briga pelo título em sua temporada de estreia, citando a força da Pelfrey mesmo em finais de semana dominados por outros times.
 
“É complicado pensar em título porque a distância para o primeiro deu uma crescida, mas é claro que é um objetivo. Nosso carro esteve muito bom nas duas etapas e, mesmo atrás da Juncos em Indianápolis, conseguimos pontuar bem e seguir bem na classificação”, destaca.
 
Cunha ainda está em adaptação com o “manhoso” carro da Pro Mazda e o automobilismo americano em geral, mas já sabe que, daqui para frente, é por lá que pretende seguir seus passos.
 
“Meu caminho daqui para frente certamente vai ser nos EUA. Não sei exatamente como vai ser, do que vou correr, sei que pensar em Lights nesse momento é complicado, mas tenho gostado muito de como as coisas funcionam aqui, é aqui que quero estar”, finaliza.
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