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A maior festa esportiva do mundo está acontecendo no saudoso Autódromo de Jacarepaguá, e o esporte a motor não faz parte. Trata-se de algo que a FIA deveria se empenhar para mudar.
Em vez das curvas de um dos poucos circuitos do mundo que recebeu a F1, a Indy e o Mundial de Motovelocidade, estão sendo disputadas nestas duas semanas as competições de diversas outras modalidades. Fazer parte disso seria importante para o futuro do esporte a motor.
Sempre houve muito preconceito com relação à entrada das corridas de automóvel ou de motocicletas nas Olimpíadas. Afinal de contas, para muitos, sequer se trata esporte — às vezes, encontra-se até mesmo fãs que concordam com tal exclusão.
Apenas uma vez o esporte a motor fez parte do programa olímpico, e foi de forma extra-oficial nos Jogos de 1900, em Paris. Na verdade, as provas foram disputadas dentro da Exposição Universal que aconteceu concomitantemente aos Jogos, e o COI sequer reconhece as medalhas distribuídas. Na ocasião, a concorrência nem se deu entre os países, mas entre as montadoras.
Recentemente, houve uma reaproximação da FIA com o Comitê Olímpico Internacional. Daí até acrescentar a modalidade nas Olimpíadas é algo que vai longe. Mas é um primeiro passo, e há toda uma preocupação com a queda na popularidade deste nosso esporte — o kart seria o modelo ideal.

Democrático e com alcance mundial, provas de kart seriam legais de se ver nas Olimpíadas (Prova do SKB em Interlagos (Foto: Luca Bassani/SKB))
Foi nesta gestão de Jean Todt que a FIA voltou a ser reconhecida pelo COI, após o comitê remover a restrição a modalidades que contam com propulsão mecânica. Os passos seguintes foram a criação de uma Comissão de Pilotos e a adesão ao controle de doping proposto pela entidade.
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Se o argumento contrário à entrada das corridas é que o equipamento tem grande interferência no resultado, o que dizer da presença do hipismo no programa olímpico? E mais: com os avanços da tecnologia, é tolo pensar que em várias das modalidades que estão sendo disputadas no Rio é apenas o esforço do atleta o diferencial — seja com as bicicletas no ciclismo, as raquetes no tênis ou barcos à vela.
Além disso, há uma forma de se equiparar isso: equipamentos iguais.
Ao formato. A entrada nas Olimpíadas não poderá se dar por meio de uma categoria, como uma etapa de um campeonato. Então não haverá um GP de F1 ou uma prova do DTM. É preciso permitir que atletas de todo o mundo possam praticar a modalidade de forma ao menos semelhante. O kart ofereceria isso.
Se você parar para pensar, o kart é a única forma de automobilismo presente em todos os cantos do mundo, e é relativamente barato. Os carros de fórmula, de turismo e os protótipos são escassos em alguns cantos, sem mencionar que possuem regras técnicas muito diferentes. Com o kartismo, seria mais fácil de se uniformizar. Há campeonatos monomarca de porte enorme, como o Rotax Max Challenge. A Comissão Internacional de Kart definiria um chassi e um motor e pronto. É possível até mesmo ir atrás de soluções ambientalmente corretas, como karts elétricos.
Dentro disso, cada federação nacional definiria seus métodos para a seleção de pilotos. Um, dois, até três. E aí, nas Olimpíadas, adotaria-se um formato parecido com o que há no Mundial de Kart — e também no Brasileiro: fases classificatórias e finais. Passaria-se dois ou três dias com as corridas eliminatórias até a definição de duas semifinais com 35, 40 pilotos em cada. Os melhores avançam para pré-final e final. Nesta última corrida, os três primeiros levam as medalhas.
Se quiserem, é possível fazer outras provas, como um endurance por equipes de cada país ou até uma competição feminina (acredito que as mulheres podem competir junto com os homens, mas entendo que talvez seja um passo necessário para que elas entrem de vez no esporte).


O kart ainda reúne uma outra peculiaridade: os pilotos que hoje estão nas grandes categorias passaram por ele um dia. Também poderia se chegar a um patrocinador do COI, como a Nissan, e fazer um acordo para a obtenção dos carros, mas quantos pilotos já teriam experiência neles? Obviamente, é difícil ser competitivo no kartismo depois de anos nos carros, mas não impossível. Em 2001, Michael Schumacher, tetra da F1, chegou em quarto lugar na etapa do Mundial de Kart em Kerpen.
Logo, teríamos a chance de ver uma Olimpíada com caras do nível de Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Daniel Ricciardo, Max Verstappen, Valtteri Bottas, Felipe Massa, Sébastien Buemi, Will Power, Simon Pagenaud, entre tantos outros. Andariam contra garotos e contra caras estabelecidos no kartismo.

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O que se ganharia com isso?
Pode ter certeza que, para as Olimpíadas, tratar-se-ia de um produto interessantíssimo. Por mais que tenha havido uma queda de audiência nas corridas, os principais pilotos continuam sendo figuras reconhecidas mundialmente. Imagino que a repercussão de suas participações seria parecida com a que há no tênis, talvez até maior.
Já a FIA teria uma plataforma enorme para divulgar a porta de entrada para o esporte a motor. Uma maneira para apresentar ao mundo todo a sua categoria inicial e mostrar como ela pode não só ser (dentro do possível) acessível, mas também interessante comercialmente. Quem frequenta kartódromos sabe que não se passa um dia sem ao menos uma corrida de tirar o fôlego. As provas, sim, seriam boas.
E, claro, os atletas se beneficiariam desta exposição. Como modalidade olímpica, o automobilismo receberia maior atenção dos governos dos países, além de dar visibilidade a promessas em busca de oportunidades e patrocínios para seguir em frente com a carreira.
O valor agregado pelo esporte às Olimpíadas e pelas Olimpíadas ao esporte é fundamental.
O processo de seleção de novas modalidades para os Jogos de Tóquio, em 2020, foi concluído no início do mês. Foram escolhidos surfe, skate, escalada, caratê e beisebol/softbol. Ainda restam alguns anos para que uma proposta seja feita para a edição de 2024.
Tudo isso é um grande devaneio, uma fantasia? Provavelmente. Mas acredito que é algo que os dirigentes do automobilismo deveriam pleitear seriamente.
Se você ainda não ficou convencido, talvez os vídeos abaixo ajudem…
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=D0Sg8it4ZbY]
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=MGorrJlpcPU]
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=I309FOzToQU]
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Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.