É difícil entender a temporada de Kevin Magnussen. Por um lado, o dinamarquês coloca a Haas numa briga em que normalmente não estaria: a de quarta força da F1 contra uma fábrica contra a Renault e outras equipes com experiência muito maior na categoria. Do outro lado, está uma série de erros, acidentes e excessos pelos quais sua carreira ficou marcada. A temporada e Magnussen é boa, ruim ou os dois ao mesmo tempo? Em entrevista exclusiva para o GRANDE PREMIUM durante o fim de semana do GP do Brasil, o dinamarquês tratou do momento da carreira e de outras expectativas para a F1 e a vida nos próximos anos. E uma opinião marcada e forte de que há um problema a resolver no Mundial: desfazer o campeonato de duas divisões.

As brigas na qual piloto e equipe estiveram envolvidos durante todo o campeonato parecem distantes demais para serem vencidas em Abu Dhabi, apesar da Haas ter sido tão melhor que a Renault no Brasil. No Mundial de Construtores, a Haas se vê 24 pontos atrás da Renault.  De qualquer forma, numa realidade comparativa entre si e a marca francesa, uma competição tão feroz já é uma pequena vitória. É questão de competência.

“A Renault é uma equipe maior. Eles têm mais pessoas envolvidas e também são uma fábrica, muito maior”, avaliou. “Então há muita pressão na equipe vinda da empresa. Pode ser uma bagunça muitas vezes. A Haas é muito menor, uma estrutura mais clara vinda da direção, então acredito que a Haas tem um ótimo ambiente de trabalho”, falou.

Quando a questão é em relação ao Mundial de Pilotos, Magnussen chegou a ocupar o sétimo posto – também conhecido como primeiro colocado da ‘F1 B’ – há algumas semanas, mas caiu. Está em nono. São somente três pontos atrás de Sergio Pérez, mas em desvantagem de 14 para Nico Hülkenberg. “É, absolutamente, uma boa posição [para brigar]. Mas claro que você sempre quer mais. Eu preferiria estar na luta por pódios e vitórias, mas se você não pode, você precisa dar o melhor que pode”, ele analisou.

É um problema que a F1 precisa enfrentar. A disputa pelo quarto lugar das equipes e sétimo dos pilotos representa um pequeno título, algo não reconhecido dessa forma oficialmente. É uma questão de desigualdade na maior categoria do esporte internacional. “A Haas tem zero chance contra a Mercedes. Zero. Ou contra Ferrari, ou contra Red Bull.”

“Acho que deveríamos ter condições mais iguais para o esporte ser mais interessante. Porque, sendo realista, deveria ter dois campeonatos: um para a Mercedes, Red Bull e Ferrari, outro para o resto. No momento não há motivo para se haver apenas um campeonato. É chato, na verdade. Então espero que ouçam”, registrou.

Kevin é do time que acredita que a F1 precisa ser reformada, algo que a Haas vem defendendo abertamente há dois anos – sobretudo o chefe Guenther Steiner. A proposta de um teto orçamentário é algo que agrada.

“Não acho que seja realista dar mais dinheiro para as equipes. Acho que realista é limitar o que as principais equipes podem gastar. Dar mais dinheiro para as outras não dá, porque o dinheiro não vem… [faz gesto de ‘chuva de dinheiro’]. Então você precisa limitar o dinheiro que as equipes grandes podem gastar”, opinou.

“Eu acho que eles deviam [ouvir minhas opiniões fortes], mas eu não sei se vão.”

(Kevin Magnussen (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

De volta ao ano atual, Magnussen está satisfeito com o que ele mesmo mostra na pista, a despeito de resultados. “Sinto-me bem, tem sido um ótimo ano. Claro que você quer sempre mais, mas temos um bom carro e perdemos algumas oportunidades, mas espero que ano que vem possamos ir melhor”, avaliou.“Espero que ano que vem consigamos continuar a evoluir.”

As chances perdidas estão em erros que impediram de converter bons momentos em pontos. A batida com Charles Leclerc no Japão, por exemplo, ou com o companheiro Romain Grosjean na Inglaterra. Ou com Fernando Alonso, como foi no GP da Itália.

Há quem defenda que Magnussen não foi punido com o vigor necessário nos últimos tempos e que, pela quantidade de acidentes que causou com movimentos perigosos, já deveria ter sido banido de alguma corrida. Tem alguns pontos na carteira a receber antes de ser excluído de alguma prova – mas se sofrer uma advertência em Abu Dhabi perderá dez posições no grid do GP da Austrália do ano que vem. Ele, diferente, acha que está tudo bem. “Para mim estão boas [as punições], desde que sejam as mesmas para todo mundo.

Em outro momento, depois de Monza, Magnussen reclamou de um Alonso que “se comporta como um Deus”, um intocável, e que estava ansioso para que o bicampeão se aposentasse. Ao GP*, diferente, preferiu se conter. “Não tenho problemas com nenhum piloto, só me importo em pilotar, estar na pista, então é isso”. Kevin fugiu das polêmicas até com o halo, com o que diz “estar acostumado e nem perceber mais.”
(Kevin Magnussen (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

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Com o fim do ano perto, o dinamarquês está plugado em 2019, para quando já teve contrato renovado. “Devemos ser capazes de melhorar o carro. Tivemos um bom carro esse ano, mas nem sempre pudemos alcançar os pontos que poderíamos. Então espero que ano que vem possamos explorar mias nosso potencial”, comentou.

A realidade não será muito diferente deste ano em termos de com quem a Haas pode brigar. Por isso, é importante saber o que é importante para vencer disputas no meio do pelotão. “Você precisa de tudo, ser rápido, consistente, e eliminar os erros. Isso já te dá um começo.”

Ao lado de Magnussen, estará novamente Grosjean. Se o dinamarquês é tido como um piloto sem amigos, pelo menos tem uma relação positiva com o francês. “É boa. Nós competimos na pista e trabalhamos juntos fora dela. Então é boa, sim.”

SEGURANÇA? NEM AÍ

Como estava em São Paulo um ano após o fiasco de 2017, com vários problemas de segurança envolvidos, Magnussen foi questionado pelo GP* sobre uma possível preocupação. O que mais chama a atenção em Interlagos, porém, é um certo histórico.

“Nós tentamos nos manter protegidos. Mas não é algo em que eu fique pensando muito, nunca tive problemas”, colocou sobre a segurança. “Eu gosto muito também [de Interlagos], e concordo que seja uma pista icônica. A atmosfera é boa, você pode sentir que a atmosfera tem uma herança deixada por Ayrton Senna, é muito forte. Eu curto vir para cá correr.”

GP DE CASA? MOIÔ

Entre os últimos meses de 2017 e o primeiro semestre, falou-se muito sobre uma prova de rua da F1 em Copenhague, com visitas da FIA e negociações reais. A possibilidade de uma estreia no país de Kevin caiu por terra nos últimos tempos, e nem sequer o piloto olha com otimismo.

“Eu adoraria correr na Dinamarca. Acho que teria sido ótimo para a Dinamarca, para Copenhague. Mas infelizmente algumas pessoas não gostaram da ideia, ficaram com medo dos riscos – o que, na minha opinião, era bem baixo. Você sabe, a Dinamarca não é um país que conhecido por riscos. Infelizmente, acho que cometeram um erro”, apontou.

“Claro que você pode manter a esperança. Mas não acho que as chances sejam muito boas”, lamentou.

(Kevin Magnussen (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

E O FUTURO FORA DA F1?

Uma coisa que o piloto gostaria de fazer é formar a dupla Magnussen-Magnussen com o pai, Jan, ex-FIA e atualmente no IMSA SportsCar. “Eu adoraria. Seria ótimo. Sou muito fã dele.”

Magnussen tem desejos fora da F1. Quase fechou com a Indy para a temporada 2015, após perder vaga na McLaren. O acidente de Alonso na pré-temporada complicou tudo, na ocasião, porque obrigou Kevin a guiar na F1 durante o fim de semana do GP da Austrália e fez com que perdesse o prazo para arrumar patrocínios que o bancassem nos Estados Unidos.

Mas o desejo de andar na categoria existe. “Talvez em muitos, muitos anos, mas não por agora. Eu gosto da Indy, acho que toda categoria de esporte a motor é interessante. Eu amo automobilismo. Gostaria de tentar coisas diferentes, sim.”

Médico ou monstro, Magnussen é um personagem importante da F1 atual. E não pretende deixar de ser tão cedo.

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